BISCATES – A factótum Maria de Belém – Ela ri-se – por Carlos de Matos Gomes

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O anúncio da candidatura de Maria de Belém a Belém tem pouco ou nada a ver com a presidência da República. Tem tudo a ver com São Bento, a sede do Parlamento e do governo. Segundo notícia do Expresso, ela e os seus promotores andam desde Março à caça de apoios e anunciam a candidatura no exato momento em que o secretário geral do Partido Socialista está na TV a bater-se para as legislativas! Ela ri-se.

A candidatura de Maria de Belém é uma mistificação política. Integra-se no processo de ajustamentos dos partidos clássicos da Europa do Sul aos tempos da globalização e do neoliberalismo. O processo começou em Itália, desenrola-se ainda em Espanha, na Grécia e chegou a Portugal. Maria de Belém é o factótum dessa manobra. Ela ri-se.

Um factótum é uma pessoa incumbida de negócios de outrem. Os negócios de outrem de que Maria de Belém se incumbiu são os de fraturar o Partido Socialista para o concentrar no núcleo liberal, dado ao comércio com o Estado, democrata social quanto baste para captar votos populares. Com esta base de apoio será reconstruído um partido destinado a ser governo. Uma máquina com tecnocratas e burocratas políticos, bem acomodados no liberalismo triunfante. Uma máquina política que alternaria com a do novo partido, também em incubação, que sairá da coligação PàF, neste caso, um partido populista.

Portugal e os portugueses passariam a ser geridos por duas administrações, dois aparelhos de “bombar” rendas e comissões – ambos com o mesmo programa de salários mínimos e lucros máximos. De Estado parceiro e comparsa dos negociantes. Um novo centrão, abençoado por Cavaco Silva, pelas grandes consultoras financeiras e escritórios de advogados. Uma igreja do maná. Maria de Belém, ri-se.

Os promotores da manobra vão utilizar a candidatura de Maria de Belém à presidência como o comité central do Partido Comunista utiliza o seu candidato: para passar a mensagem nos tempos de antena e na comunicação social. É um direito. Mas há que acrescentar a traição. A fotomontagem do Inimigo Público, de Maria de Belém a fazer de Judite da Bíblia, com a cabeça ensanguentada de António Costa, traído como Holofernes, é brutal, mas prometedora: são muitas as traições que conduziram a vitórias. Ela ri-se do papel que aceitou desempenhar.

A nova direita teve o senso de não escolher o facilitador Marques Mendes para seu factótum oficial. Portas e Passos Coelho, e até Marco António, são melhores no marquetingue e têm mais senso do que os Assis, os Lellos e os Belezas que estão por detrás de Maria de Belém. Ou o grosso dos seus negócios não está centrado na saúde e na assistência social… Maria de Belém ri-se e persigna-se.

Os mentores da manobra de Belém a Belém ensaiam nova tentativa (a anterior foi a de Guterres) para criar um partido à Blair. Infelizmente, para eles, Maria de Belém não chega aos calcanhares do malabarista da terceira via, nem sequer da beatitude de Guterres. Ela continua a rir. Os portugueses, não. Já têm a sua dose de santas padroeiras.

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