CARTA DO RIO – 65 por Rachel Gutiérrez

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Hélène Cixous, Doutora pela Sorbonne e professora da European Graduate School, conhecida como ensaísta, dramaturga, poeta e crítica literária é também a primeira grande divulgadora da obra da nossa Clarice Lispector na França, nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Canadá, onde costuma dar aulas e fazer palestras. Nesses três últimos países, ela é Doutora Honoris Causa em 7 universidades.

Na apresentação da edição bilíngue de seu livro A Hora de Clarice Lispector, traduzido por mim e publicado pela Editora Exodus em 1999, faz a seguinte confidência:

Há muitos anos que leio Clarice em sua língua, e lhe falo na minha. Desde 1977 é uma estranha e maravilhosa troca que jamais há de cessar.

A autora de mais de setenta livros de ensaios, ficção, poesia e teatro nasceu na Argélia, domina várias línguas e doutorou-se em Letras com uma tese sobre James Joyce. Mas ao descobrir e deslumbrar-se com a obra da nossa Clarice, decidiu estudar português para compreendê-la melhor.

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Quando, em 1994, minha saudosa amiga Ester Schwartz e eu fundamos, com duas doutoras em Letras – Lúcia Helena Vianna e Consuelo Campos -, a Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector (ALACL), recebemos um caloroso telegrama de felicitações de Hélène Cixous e a adesão imediata do grande escritor Antonio Tabucchi, tradutor para o italiano dos contos de Laços de Família.

Ainda em 1994 inauguramos, com o apoio do Patrimônio Cultural e da associação de moradores do bairro do Leme, a Amaleme, uma placa no prédio de nº 88, da Rua Gustavo Sampaio, onde Clarice morou até o fim.

Cito agora o trecho de um discurso, que fiz em nome da ALACL na Assembleia Legislativa quando, por sugestão nossa, em 2005, o deputado Luiz Paulo Correia da Rocha concedeu à Clarice Lispector, post mortem, a maior comenda do Estado do Rio de Janeiro, a medalha Tiradentes:

 (…) com nossos amigos e associados, temos tido momentos memoráveis. Fizemos reuniões na Casa de Rui Barbosa, na Casa da Leitura, na Maison de France, no IAB ( Instituto dos Arquitetos do Brasil). Duas vezes ocupamos a Academia Brasileira de Letras. E ali, num primeiro Seminário, do qual participaram generosamente inúmeros professores, daqui e de São Paulo, atores, intelectuais, cineastas, psicanalistas, a TVE fez parte do filme que continua a mostrar periodicamente.

No ano seguinte, conseguimos que o título de Cidadã Carioca, também lhe fosse conferido post mortem  pela Câmara dos Vereadores, em sessão presidida por Eliomar Coelho. Nessa ocasião, tive mais uma vez a oportunidade de me dirigir aos que assistiam à homenagem e contar:

… um feliz incidente do qual (participara) há alguns anos, na Sorbonne, em Paris…numa aula em que Hélène Cixous estava analisando a crônica A favor do Medo. O interessante, porém, é que (a professora), que estudou português para ler Clarice, entendia tudo menos a expressão que aparece logo no segundo parágrafo: “estava  eu, como diria Sergio Porto, posta em sossego”(…) Hélène sabia que Sergio Porto tinha sido um humorista, mas não compreendia a expressão “posta em sossego”(…) Então,  pedi a palavra e lembrei que a expressão evoca um verso famoso dos Lusíadas, de Camões, quando Inês de Castro é encontrada pelos algozes que o rei pusera em seu encalço. (…) “Estavas, linda Inês posta em sossego/ De teus anos colhendo doce fruto” (…) Hélène Cixous ficou encantada! Evidentemente, ela conhece Camões, mas não tinha feito a aproximação. Agora percebia que Clarice, ao usar a expressão supostamente de Sergio Porto, havia evocado um crime histórico imortalizado por Camões…

Também citei meu amigo e coeditor de A Hora de Clarice Lispector, o psicanalista Davy Bogomoletz, que na sua Apresentação da Edição bilíngue, explica, melhor do que muitos estudiosos, porque a escrita clariceana é considerada hermética:

Alguém perguntou certa vez, quase indignado: ‘Mas por que Clarice era tão hermética? Por que se distanciava tanto do leitor?’ E logo surgiu a resposta: ’Não. Clarice não se fecha nem se afasta do leitor, Clarice penetra. Olha tão lá dentro da própria alma, que ali descobre também a nossa. E diz o que viu lá. E ela chega tão perto, tão perto, que ou a deixamos entrar por inteiro, ou a mandamos embora. É o leitor quem se afasta, se fecha, quando não suporta tanta proximidade, se não aguenta se ver com tanta clareza’.

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 Abro agora o livro na primeira página do segundo capítulo, À Luz de uma Maçã, para reler o que diz Cixous depois de tê-la equiparado a Kafka, Rilke, Heidegger e Rimbaud:

(…) Por que é que cito todos esses nomes?Para tentar situá-la. É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde o fôlego ela continua, mais longe ainda, mais longe do que todo saber. Além da compreensão, passo a passo, infiltrando-se trêmula na incompreensível espessura fremente do mundo, ouvido finíssimo estendido para recolher até o rumor das estrelas, até o mínimo roçar dos átomos, até o silêncio entre duas batidas do coração.  Ela não sabe nada. Não leu os filósofos. Contudo, tem-se às vezes a impressão de ouvi-los murmurar em suas florestas. Ela descobre tudo.

E tenho na entrada de minha casa um cartaz que anunciou uma série de exposições e palestras sobre Clarice Lispector em Berlim, de 10 de novembro a 10 de dezembro de 1995. O título geral foi Das Leben schreiben, quer dizer, Escrever a Vida. O cartaz comprova como já ia longe a sua fama no final do século passado.

Evoquei tudo isso porque o jornal O Globo publicou, na última sexta-feira, uma entrevista com o jovem escritor norte-americano Benjamin Moser, que havia publicado, em 2009, Why this world: a biography of Clarice Lispector (no Brasil, simplesmente “Clarice”, edição da Cosac Naify) e que agora acaba de lançar com estardalhaço, nos Estados Unidos, 85 contos da nossa escritora, traduzidos para o inglês por Katrina Dodson.

Na entrevista, o biógrafo considera uma grande vitória o fato da recente tradução para o inglês ter merecido a capa da New York Book Review. Diz ele: “é uma coisa himalaica. Não há espaço mais importante no mundo dos livros do que esse.” Isso nos faz muito felizes, é claro.

O jornal O Globo apenas exagera quando diz que Moser apresentou ao mundo a história de Clarice Lispector. Ele pode ter apresentado ao público de língua inglesa a biografia de nossa escritora, mas a escrita, a palavra, o que ela mesma definia como sua “quarta dimensão”, essa, quem revelou ao mundo foi Hélène Cixous.

2 Comments

  1. Rachel, ótima crônica, esta. Tem quase um valor histórico. Ninguém conhecia a Clarice “lá fora”, assim como ninguém conhece a Cixous aqui dentro. Então a de lá começou a tornar conhecida a de cá lá fora, e com isso prestou um serviço enorme à cultura brasileira, e talvez graças a isso se torne conhecida aqui dentro também. Uma escritora de primeira grandeza, e uma crítica literária idem. Eu me lembro da alegria que foi a produção do livro da Cixous sobre Clarice (“A Hora de Clarice Lispector”). Pena que a única resenha feita sobre o livro detonou o livro, a Cixous e por pouco não a Clarice também, escrita por uma monstruosa criatura sem a menor vergonha na cara. O texto da Cixous é uma obra de arte por si mesmo. E a sua tradução é excelente. Nunca me conformei com o fato de o livro ter vendido tão pouco. Um dia ele ainda vai “explodir”. Que não demore muito.

  2. Muito obrigada, Davy, por seu comentário e seus bons votos para que o “nosso” livro venha a fazer o sucesso que merece. um grande abraço da
    Rachel

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