Através da pluralidade de perspectivas e da diversidade de temas abordados, a Revista Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher prossegue o seu caminho de divulgação de urna temática que, pela sua inscrição nos quotidianos das pessoas, é polarizadora de interesse e de curiosidade, possibilitando a transformação das práticas relacionais e dos simbolismos que as suportam. Por outro lado, emergindo da academia e a ela também se destinando, constitui‐se enquanto proposta de diálogo científico que, felizmente, vai trilhando caminhos e consolidando um espaço ainda recente, mas cada vez mais afirmativo na academia portuguesa.
Deste número realçamos o artigo de Sandra Leandro, “Desenhar Julieta Ferrão (1899-1974): A Primeira Directora de um Museu em Portugal”.
É-nos dito: “Com este artigo pretende-se elaborar uma biografia e um estudo sobre o percurso de Julieta Ferrão, a primeira Directora de um Museu em Portugal. Dada a raridade de fontes impressas de carácter biográfico, este texto centra-se no seu espólio inédito, procurando indagar a marca intransmissível que inscreveu no Museu Rafael Bordalo Pinheiro. Julieta Ferrão foi também a 1ª Conservadora dos Museus Municipais de Lisboa, mas este artigo não tem extensão suficiente para desenvolver toda a riqueza da sua trajectória. Neste caso pode dizer-se, com propriedade, que foi uma figura incontornável, cujos contornos ainda não se fixaram. Convém desenhá-los. Quem foi e o que fez aquela que se considerou “a última caricatura de Bordalo”?”
Ficamos a conhecer uma mulher invulgar, sobretudo para a época em que viveu.
Com apenas 17 anos Julieta ferrão já se dedicava a “diversas tarefas que concorriam para dar origem ao Museu. Cruz Magalhães confiou nela desde muito cedo e o que por vezes ele não conseguia, a simpatia e juventude de Julieta alcançava”.
Foi cronistas em diversos periódicos, desde o ano de 1917.
“Pertenceu á Cruzada das Mulheres Portuguesas, com o nº 201, e ao longo da sua vida integrou outros grémios femininos como a Associação Feminina para a Paz… Conviveu de perto e trocou correspondência com personalidades destacadas do movimento feminista como Ana de Castro Osório, Alice Moderno, Maria Lamas, e Elina Guimarães”.
“Julieta deu à estampa o Guia do Museu Rafael Boldalo Pinheiro em 1927….] Foi notável a quantidade de exposições temporárias que organizou ao longo do tempo, o número de conferências que proferiu e promoveu, a soma de publicações a requisitarem a sua colaboração, a forma como converteu o Museu num espaço mais aberto e dinâmico, espelho da sua personalidade e de uma visão moderna.”
O artigo continua com várias particularidades da vida de Julieta Ferrão, só possíveis de obter com estudo aprofundado e que nos dão a visão de uma mulher cheia de humor e que soube viver a vida, com o prazer de intervir cultural e socialmente.
Acrescentamos, ainda que se reformou no ano de 1969, quando foi convidada a integrar a Comissão de Toponímia, tendo sido nos anos de 1970 a 1974 vogal dessa Comissão.
Julieta Ferrão deixou ainda obra publicada de que se destaca a Monografia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1922),Rafael Bordalo Pinheiro e a Crítica (1924), Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro (1927), Rafael, Bordalo e a faiança das Caldas (1934), Lisboa…1870 (1943),A conferência de Lisboa por um Caldense (1955), Vieira Lusitano(1956), Há 70 Anos: inauguração do caminho de ferro da Beira Baixa (1962).