Retoma económica? Porque continuam os maus resultados na União Europeia – por John Weeks II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Perspectivas para um futuro próximo

Talvez estes fracos resultados da zona euro venham a gerar uma robusta recuperação no futuro já próximo? Acho muito pouco para poder inspirar optimismo. Com a inflexível obrigação de aplicar a austeridade orçamental o governo alemão pôs de lado a possibilidade de políticas a nível da UE que fariam disparar a procura regional que assumiria assim o papel de condutora da expansão. Os membros do governo encontram-se constrangidos em fazê-lo pela pressão directa, das suas próprias ideologias e / ou das regras orçamentais da UE (por exemplo, o “Six Pack”).

Na falta de um estímulo orçamental, a possibilidade de gerar o crescimento tem de vir da procura interna do país, do consumo das famílias ou do investimento privado, ou ainda das exportações líquidas. As variações autónomas na procura do consumidor são improváveis, ou se isso vier a ocorrer  implicaria o aumento do endividamento das famílias. Numerosos estudos sugerem que aumentos na dívida das famílias em relação ao rendimento pode ser uma fonte de instabilidade financeira no futuro.

A inovação e a antecipação da capacidade produtiva insuficiente para responder à procura promove o aumento do investimento privado, com o antigo a ser integrado no mais recente. Assim, uma antecipação da recuperação robusta é provável que se venha a verificar antes de haver aumentos de investimento, o que deixa apenas espaço para uma recuperação liderada pelas exportações como uma perspectiva realista.

As perspectivas são muito sombrias para um aumento das exportações da UE suficiente para estimular a recuperação e torná-la sustentável. As duas principais fontes de aumento na procura de exportações seriam os Estados Unidos e os chamados países emergentes, com a China a dominar dentro deste grupo . Os Estados Unidos são um candidato improvável, com a procura de importações a crescer a quase 3% ao ano desde 2010 (Relatório Económico do Presidente de 2015, Tabela B-5).

Muito menos provável é virem os países “emergentes” a serem a fonte do aumento das exportações. O país com a maior procura de importações na América do Sul, o Brasil, está já sob a forte pressão de um abrandamento económico se não é mesmo uma clara recessão, agravada severamente pela instabilidade política. Enquanto a economia indiana continuou a crescer, a sua contribuição para a economia global é muito menos do que a da economia chinesa, de onde vêm notícias alarmantes diariamente. Do ponto de vista de um motor de crescimento global, a economia chinesa está agora sujeita, segundo um forte actor dos mercados financeiros, JP Morgan, a ser uma verdadeira ameaça e ” a poder levar o mundo a uma recessão.”

As mesmas forças que minam o optimismo para o crescimento da zona euro aplicam-se à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos, sendo muito improvável que as exportações do Reino Unido cresçam substancialmente, uma vez que a zona euro está em estagnação e a taxa de crescimento dos chineses está a descer. O investimento privado recuperou para os seus níveis de pré-crise, mas um dos principais motores para a criação de novos investimentos na produção é o nível de utilização da capacidade e esta tem-se mantido inalterada nos últimos três anos.

Estes problemas potenciais levaram o Banco de Inglaterra a baixar as suas estimativas de crescimento . O geralmente confiável Conference Board informa de uma redução das expectativas do crescimento dos EUA para pouco mais de 2% para 2016.

Fasquia baixa ou demasiado elevada?

(Low Road Or High Road?)

A estratégia para a zona euro e para a recuperação da União Europeia vinda de Berlim e das instituições da UE (especialmente o BCE) é de uma muito baixa inflação, de contenção salarial e “reformas estruturais” (reduções de direitos dos trabalhadores e da sua capacidade de negociação salarial) para acrescer a competitividade nas exportações. Quando o crescimento do comércio global é lento esta estratégia para a competitividade das exportações torna-se equivalente ao mercantilismo, porque substanciais aumentos nas exportações de um país ou de uma área exigem declínios noutros lugares. Isto representa o caminho para a guerra de divisas, das restrições comerciais e dos conflitos tanto quanto os governos procuram promover os seus paroquiais interesses económicos.

Há uma outra   via   para uma retoma sustentada. Keynes propôs um conjunto de regras, que se tornaram famosas, para a economia internacional, que exigiriam que os governos dos países com excedentes na balança corrente teriam que se ajustar mais do que os países de balança corrente deficitária. Dentro   da Europa isso mudaria fundamentalmente a estratégia de crescimento, exigindo uma substancial expansão pela parte do governo alemão.

Nós não encontramos nenhum país importante no mundo que esteja em melhor posição para embarcar numa tal política orçamental activa. As duas restrições de referência sobre a expansão orçamental, o saldo orçamental e o saldo da balança comercial, não são preocupações para a Alemanha. Em 2014, o excedente comercial atingiu um valor recorde de € 215 mil milhões e o sector público registou um excedente orçamental. .

Há pouca possibilidade de que haja uma terceira possível restrição, as pressões inflacionistas devidas ao excesso de procura . Embora o desemprego seja baixo relativamente à zona euro, a um nível ligeiramente inferior a 5%, as pressões inflacionistas não existem, são agora de 0,2% e a caírem desde há vários meses.

Num mundo de políticas económicas racionais a União Europeia poderia assim levar à recuperação global, graças a uma política macro ousada a ser utilizada por um governo alemão previdente. Isto representaria o sinal de que a Europa se estaria a comportar como um poder económico cooperativo a nível global e a merecer a aprovação de toda a economia mundial, e não menos importante, a receber o apoio dos Estados Unidos.

Escusado será dizer que isso não vai acontecer. Em vez disso, os políticos da zona euro sob a influência dos políticos alemães continuam a sua preocupação com questões de interesse paroquial baseadas em restrições não vinculativas e com “problemas” que não necessitam de resolver. Os atrasos para a recuperação da zona do euro irão pois continuar. Ao contrário do que acontece com os comboios ou com os aviões , em atraso ou mesmo cancelados, os passageiros da zona euro não receberão nenhuma compensação pelo bloqueio do crescimento ou pelos seus sucessivos atrasos.

 

 John Weeks, Social Europe, Economic Recovery? Why Eurozone Under-performance Continues. Texto disponível em:

 

http://www.socialeurope.eu/2015/08/economic-recovery-why-eurozone-under-performance-continues/

 

 

John Weeks is an economist and Professor Emeritus at SOAS, University of London. John received his PhD in economics from the University of Michigan, Ann Arbor, in 1969. He is author of a new book entitled ‘Economics of the 1%: How mainstream economics serves the rich, obscures reality and distorts policy’ (Anthem).

 

 

Retoma económica? Porque continuam os maus resultados na União Europeia – por John Weeks I

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