CARTA DO RIO – 68 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2Nossa urgência gritante é a da crise humanitária. Preciso, portanto, citar um dos artigos mais pungentes e expressivos que li sobre o assunto. Trata-se do que publicou a jornalista Dorrit Harazim no jornal O Globo de domingo, 6 de setembro. O título – ‘Onde está o mundo?’ – ressoa como a pergunta trágica de Rilke: “Quem, se eu gritasse, me haveria de ouvir entre as hierarquias dos anjos?”

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Suas primeiras palavras são: Aylan foi o mensageiro e a mensagem jogada ao mar. Devolvido pelas águas à mesma praia na Turquia de onde partira rumo à Europa num bote de esperançados, ele próprio era o recado que dizia: “Eu sou vocês”. Foi sua imagem sem vida que anunciou ao mundo, em linguagem universal, a falência múltipla de humanidade e civilidade em que vivemos.

E ao saber, finalmente, que Angela Merkel tornou-se a líder do movimento de acolhida dos refugiados na Europa, quero evocar aqui, mais uma vez, uma portuguesa injustamente esquecida, Primeira Ministra por apenas cinco meses, nos idos de 1979-1980, a valorosa Maria de Lourdes Pintasilgo que, como já escrevi “tentou uma feminização da política ao orientar sua atenção, em primeiro lugar, para as camadas mais carentes do povo, para dois milhões de portugueses que (…) não podiam reclamar direito algum nem tinham poder nenhum de impor suas reivindicações”. Eu dizia então, repetindo Garaudy, que Pintasilgo “pensou antes nos seres humanos e com isso dessacralizou o poder e seu ritual.” Comparado a ela, o atual Primeiro Ministro da Hungria bem merece o nome de Ogro, que lhe daria facilmente minha pequena amiga Esperança.

Pois a Hungria tenta fechar suas fronteiras com arame farpado, com muros cada vez mais altos, com a truculência de seus policiais e até a de uma cinegrafista que chutou e passou rasteira em fugitivos desamparados e desesperados. E nas recentes cenas que as televisões do mundo mostraram, vimos policiais com máscaras cirúrgicas, jogando alimentos para os refugiados, “como se fossem animais”, de acordo com o que observou a voluntária austríaca, que registrou a barbárie daquele comportamento.

O governo da Hungria pretende só aceitar imigrantes cristãos. Em nome do Cristianismo? Pobre Cristo! Se Jesus de Nazaré voltasse ao mundo, como imaginou Ivan Karamazov, o mais lúcido personagem de Dostoievsky, esses novos “inquisidores” não hesitariam em matá-lo mais uma vez.

Contudo, para o alívio de nossas consciências feridas, o Papa, que escolheu o nome sagrado de Francisco, já recomendou a todas as paróquias a acolhida de ao menos uma família de refugiados, dando ao mesmo tempo o exemplo ao abrir as portas do próprio Vaticano.

O Papa Francisco responde assim à pergunta formulada pela acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira, em seu artigo deste sábado, 12 de setembro: “É o mundo cristão, cujas virtudes são a fé, a esperança e a caridade, que vai recusar pão, chão e um teto aos que já não têm pátria e deixá-los morrer de sede ou afogados em mar escuro?”

O que acontece hoje no mundo nos leva a pensar que, à exemplo de Pintasilgo, precisamos dessacralizar o poder e seus rituais para sacralizar o humano, o direito à vida e o respeito à vida.

E vamos dar mais espaço político às mulheres, às portadoras da Vida, às que se assemelham muito mais ao Cálice do que à Espada, como afirmou de forma luminosa Riane Eisler, que não me canso de citar porque sua voz clama por um mundo que valorize a solidariedade acima de tudo.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não tínhamos vivido uma crise como esta com que nos deparamos agora. Se ao menos todo esse sofrimento nos levasse a refletir sobre a inutilidade das guerras, sobre a imensa, a incomensurável injustiça que intermináveis conflitos infringem aos que não os decidem, mas que sofrem suas consequências como esses infelizes da nossa triste atualidade.

Cito a mim mesma: “O mundo dominado pelos homens é violento: numa só geração passamos pela II Guerra Mundial, pela guerra da Coreia, a do Vietnã, as do Oriente Médio, a da Bósnia, a do Iraque, a da Chechênia, a do Afganistão, (…) E é importante saber que, em consequência de uma das mais curtas, a guerra das Malvinas, por exemplo, muitos ex-combatentes se suicidaram. O mais significativo, porém, é o número de suicidas do lado derrotado não ter sido muito superior ao do lado ‘vitorioso’: 400 argentinos e 255 britânicos se mataram. A rigor, não há vencedores numa guerra, a própria guerra é uma derrota.”

Mas a minha pequena amiga Esperança não tem força para dizer isso, por exemplo, a Bashar AL Assad. E os fugitivos sírios já são mais de 10.000!

Só o que nos consola é o que nos contou Dorrit Harazim sobre a carta aberta a um ministro, postada por uma escritora de 33 anos, (…)[na Islândia, que] levou dez mil compatriotas (4% da população do país) a oferecerem casa, comida, aprendizado da língua e inserção no país a famílias de refugiados. Sim, porque não basta acolher os fugitivos dos horrores da guerra, é preciso dar-lhes a paz e uma autêntica inserção no país que os acolhe.

E eis as últimas palavras do artigo de Harazim:

A curta vida do menino Aylan valeu muito: despertou o mundo.

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3 Comments

  1. Pois é… Cá estamos de volta a uma “novidade” bem mais antiga do que se acredita. Um recorte do jornal O Globo, de 1927 (isso mesmo, mil novecentos e vinte e sete), que chegou ao meu computador hoje, diz, em pouquíssimas palavras, que 450 pessoas, entre eles muitos gregos e poloneses, que embarcaram num navio de contrabandistas rumo aos Estados Unidos, na esperança de entrarem ilegalmente na “América”, foram jogadas ao mar e morreram afogadas quando o barco em que viajavam foi perseguido pelas Marinhas dos dois países.
    Sic transit gloria mundi.
    Tomara que o sacrifício silencioso do menino Aylan ajude, REALMENTE, a despertar a consciência da Humanidade.
    Davy.

  2. Na passada segunda-feira, numa conferência a que assisti, o orador disse mais ou menos isto:
    – Havia um espaço onde as pessoas e os bens circulavam livremente, onde a língua em que entendiam era a mesma e onde se praticava uma só religião mas onde todas eram aceites. Um dia essa região resolveu fechar as suas fronteiras para impedir a entrada de povos que para lá queriam ir viver, fugindo das suas terras. Cem anos depois, sucumbiu e desmembrou-se totalmente.
    Falava, o orador, do Império Romano.
    Façamos a comparação com a Europa actual, e pensemos!

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