BISCATES – Restaurar – por Carlos de Matos Gomes

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Celebra-se agora o centenário do romance A Metamorfose, de Kafka. Sinto que vivemos na Europa e aqui em Portugal, em particular, tempos kafkianos, no sentido em que vivemos na negação da realidade. As personagens de Kafka, tal como me revejo hoje nelas, vivem de negação em negação, em percursos sem sentido, até à destruição. Nós, tal como as personagens de Kafka, seguimos por caminhos errados por nem sabermos como procurar os verdadeiros. A verdade, como escreveria Hanna Arendt não existe, deixou de existir para a comunicação social, substituída pelo relativo de um falso contraditório.

A campanha de propaganda para as eleições acentuou a ideia de que existem dois mundos, o da propaganda e aquele em que vivemos. Os que dizem que o país está em ruínas e a sociedade portuguesa devastada são acusados, como no Processo, sem culpa formada. Acusados pelo absurdo. A realidade do dia a dia é a de uma humanidade que, tal como Kafka escreveu, sofre de impaciência e de indolência.

Se for assim, admira-me que as principais organizações que se opõem aos que criaram esta situação de insegurança, esta Colónia Penal, não tenham erigido a ideia de restaurar, a ideia de uma restauração como motivo central do seu discurso e da sua propaganda. A mim parece-me evidente que a porta de saída para este tempo absurdo e devastador é a proposta de restaurar uma situação passada. Restaurar a soberania possível, restaurar a dignidade, restaurar a esperança, restaurar a moral pública. Depois da devastação dos invasores, dos usurpadores, dos que se apoderaram de tudo e tudo venderam e delapidaram, a grande questão é restaurar Portugal, como depois de ocupação castelhana, como depois das invasões francesas. A próxima tarefa dos portugueses, dos políticos portugueses é a de restaurar, de reconstruir, de recomeçar, de enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Os políticos que querem afastar estes deviam começar a falar em restauração e a pensar como mobilizar os portugueses para ela.

As próximas eleições devem colocar os portugueses perante as suas responsabilidades de escolher entre a continuação da apagada e vil tristeza da dependência, da insignificância, da venda por debaixo da mesa – por ajuste direto – do que resta de património material e moral, da destruição dos laços de solidariedade entre gerações, entre grupos e a restauração da rede essencial de valores, de referências de esperanças que constituem a nossa identidade enquanto Povo, enquanto Nação, enquanto Estado.

A questão é a de restaurar o sistema de forças que unem gerações, que unem regiões, que expulsem aqueles que consideram os mais velhos uma peste grisalha e a colocaram contra a geração mais nova, que entretanto atiraram para a precariedade e incentivaram a sair da sua zona de conforto – os jovens precários confortáveis!

A questão é restaurar serviços públicos e empresas públicas que sirvam os portugueses na escola pública, na saúde pública, que os acompanhem através de uma segurança social digna e assumida como bem comum e não como uma fonte de lucro para a nova oligarquia.

Restaurar a confiança entre os cidadãos e o governo, ou o Estado através de um sistema tributário mais justo e menos cego e prepotente, através de uma justiça responsável, através da utilização da lei como instrumento de boa fé e para o bem geral e não como artimanha e armadilha que favorece aqueles que as fazem ou as encomendam.

Parece-me estranho, e motivo de pouca esperança, que ninguém, de entre os que se apresentam às eleições, tenha sentido a necessidade de caracterizar estes anos de governo como o de ocupação e devastação e, por isso, não tenha sentido necessidade de propor uma restauração de Portugal.

Não repetiria a propósito do comportamento dos membros do governo que esteve em funções a frase de Camões, nos Lusíadas «Dizei-lhe que também dos Portugueses alguns traidores houve algumas vezes!» porque nem para isso terão valor, correspondem aos «gentios da Índia» que João de Barros descreveu nas «Décadas»: «gente fraca, mais inclinada ao uso mecânico e ao comércio do que ao uso de armas… e as que usam são fracas, como as gentes…».

É do resultado da acção desta gente que temos de nos libertar e que restaurar Portugal.

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