
Para o Carlos Loures, com todo o carinho.
Em 2016 o calendário galego tem reservado, em chegando às datas já simbólicas de 17 maio, que façam 100 anos da fundação, na Crunha, da primeira Irmandade dos amigos da Fala, conhecida para história, pouco depois quando já constituídas em diversas localidades, simplesmente como Irmandade da fala (1916-1936).
O processo de construção das Irmandades, que viria a ser o do movimento nacionalista na Galiza, foi longo e nele convergiram, em vagas sucessivas, ativismos diversos, acelerados e precipitados pela situação de crise económica, política e social espanhola e europeia derivada da Guerra mundial e da brutal especulação e conseguinte crise de empregos e consumo na retaguarda e nos países neutros.
Submersos na segunda onda do nacionalismo que no momento agita e define a Europa, as Irmandades reuniriam velhos regionalistas, antigos iberistas, republicanos federais desencantados do republicanismo institucional, agraristas, intelectuais e artistas formados no modernismo e nos ideais de regeneração: ativistas diversos que canalizavam os seus anseios de democracia por meio do jornalismo, da literatura, da arte, da participação em sociedades recreativas e culturais ou na maçonaria.
A este grupo variado de veteranos ativistas nados nas décadas de 50 e 80 do século XIX, viria a unir-se um conjunto amplo de moços nados entre 1890 e 1900, profissionais, empregados, pequenos industriais, originários de classes baixas e meias-baixas, primeira geração urbana, em ascensão mas bloqueados política e economicamente de voz e promoção social pela trama corrupta e caciquil da Restauração canovista.
A agitação regionalista e depois nacionalista que desde 1900 emana da Catalunha é fortemente visível desde meados de 1915, por meio de campanhas da sociedade civil, destinadas a devolver a língua catalã aos espaços públicos (administração, registro civil, escolas). Debates, conflitos irão incrementando-se, com uma paralela guerra de bandeiras e publicações nos edifícios públicos, até chegarem a debate nas Cortes em fim desse ano. Escalada que prosseguiria, chefiada pela Lliga, chefiada por Francesc Cambó até a Assembleia de Parlamentares de julho-outobro de 1917.
As campanhas pela administração e a escola em catalão foram apoiadas primeiro pelos galegos de Madrid, que encontraram em Aurelio Ribalta e na revista que dirigia, Estudios Gallegos, durante esse 1915 uma plataforma fundamental. Daí a reivindicação por uma escola galega saltará às páginas da imprensa galega, nas que desde janeiro de 1916 podem se ler vozes diversas reclamando-a, até que num impulso definitivo Antón Vilar Ponte entra em campanha com uma sucessão de artigos e proclamas que o levarão a publicar “Nacionalismo gallego (Apuntes para un libro). Nuestra afirmación regional“, afirmação que detonaria a reunião e fundação da Irmandade.
Da Irlanda também chegavam, desde fins do XIX ventos nacionalistas, teatro, imprensa, política como constante. Durante todo 1916 até rematar no fuzilamento de Roger Casement, em agosto, com o clímax da Páscoa, a imprensa e os debates de café, nos quais se conformam estes grupos, seguiram a questão irlandesa com grande interesse. Impressiona mesmo imaginar os daquela rapazes fundadores da Irmandade: Vítor Casas, Anxel Casal, lendo e conversando sobre o levantamento e a repressão na Irlanda sem suspeitar que 20 anos mais tarde eles teriam o mesmo destino.
Catalunha e Irlanda, seriam modelos e referências constantes nos discursos e publicações do nacionalismo galego. Mas, não menos importante na configuração e evolução tanto dos ativistas como do discurso do regionalismo primeiro, e do nacionalismo depois, é o exemplo e os debates do republicanismo português. Primeiro em textos, reivindicações, levantamentos, sucessos, debates, contatos e exílios; por mediação direita daquelas grandes figuras do século XIX: Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Sampaio Bruno e especialmente no exemplo do ideário do nacionalismo republicano português de 1910.

Se na frágil Espanha em plena crise da Restauração essa república por mui portuguesa que fosse (da perspectiva espanhola) era a República, imaginem na Galiza. Os discursos arredor do Portugal republicano, do impacto dessa República no imaginário do galeguismo nascente, não têm sido, ao nosso entender, bem contextualizados, num aspecto mais simples e evidente, a experiência inicial da república portuguesa, e o pensamento das suas mais destacadas figuras, como conformadores de modelos e referências diretas.
Nesse sentido, destaca um aspecto fundamental quase não considerado: a semelhança do discurso, dos debates e programa renovador das Irmandades (da Irmandade da Crunha e do grupo Nós) com o discurso político, social, estético e pedagógico, com os valores civis, projetos culturais, pedagógicos e editoriais, com os conflitos políticos, ideológicos e de classe inter-grupos do republicanismo português.
Deve ser, pois, integrado todo o leque do pensamento republicano português, e nas prévias desde 1907 os seus projetos e restaurações, os seus debates internos (que também se reproduzirão no movimento galeguista entre 1918 e 1922 e em toda a intelectualidade europeia) junto com – e não apenas – a influência da obra e pensamento do grupo fundacional da Renascença, sobre os mais destacados vultos; conformadores do que viria a ser, nas décadas a seguir, o pensamento e ativismo galeguista: Porteiro, Vilar Ponte, Biqueira, Risco (dos que tanto bebe Castelao para elaborar o texto transmissor do Sempre em Galiza, não por acaso ligeiro, Bíblia do galeguismo moderno).
Mas, não estamos a falar apenas das líricas e saudades, do nacionalismo conservador, da obra de Teixeira de Pascoais, do pangaleguismo, ou do mítico projeto atlântico de redenção mundial; senão da prosa e ideias a respeito da sociedade civil republicana: do laicismo, a alfabetização, dos boletins culturais como Nós, dos Arquivos do SEG, dos projetos editoriais e das editoras galeguistas , da reforma de museus, arquivos e bibliotecas, projetos de universidades e residências de estudantes, programas de estudo, escolas de arte, escolas agrárias, portuárias e industriais, pedagogia moderna, do debate sobre a alma da nação, do regionalismo, o cooperativismo, universidades populares, o esoterismo, a arte nova, o teatro contemporâneo, a música, coros, a etnografia, o folclore, os semanários políticos de pensamento, as ideias de cooperação entre as forças políticas de esquerda republicana, e até dos mesmos modelos de prosa levantadas sobre a mais profunda erudição e modernidade.
A obra de Viqueira, os Vilar Ponte, Vicente Risco, Eloy Luis André, Castelao, Otero Pedrayo, Risco, os Carré, Lugris Freire, Manoel António, Amado Carvalho, Álvaro Cebreiro, Vitor Casas, Ánxel Casal e ainda Álvaro Cunqueiro e Urbano Lugris pareceria incompleta sem as vozes de Teófilo Braga, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Bernardino Machado, entre outros que visitaram, conheceram de primeira mão a Galiza e mantiveram contacto e relacionamento com as Irmandades e mais os mestres da geração anterior por eles citados e os tirados das crônicas antepassadas e resgatados como referentes.
Entre 1910 e 1923 os ecos do Sul do Minho são fundamentais para entendermos parte da agitação republicana na mocidade galega. Fervilhante década a dos anos 10, em que Fernando Ossório, Anton Vilar Ponte ou Leandro Carré morariam, marcados para sempre, nesse Portugal renascente.
