Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Grécia, o braço de ferro europeu
Encontro com Yanis Varoufakis : « É tempo de abrir as caixas negras »
CHRISTIAN SALMON, sítio Mediapart
Há uma semana, o ex-ministro grego das finanças Yanis Varoufakis esteve em França a convite de Arnaud Montebourg. Tive a possibilidade de o encontrar, uma boa oportunidade de estar para além de uma personagem-ecrã, narcisista e provocadora, imagem que os meios de comunicação social construíram e veicularam com o objectivo de o descredibilizar. É um homem caloroso, aberto à discussão e preocupado não somente pelo futuro do seu país mas com o da Europa também.
Com a sua cabeça rapada, o seu casaco em cabedal e as suas camisas azul-eléctrico, ele apareceu repentinamente nos ecrãs do mundo inteiro como um personagem de uma série TV, mais larga que a vida, uma espécie “de House of Cards” à europeia, no decorrer da qual as formas e as exigências da deliberação democrática foram sacrificadas pelos meios de comunicação social com uma dramaturgia dos acontecimentos e com exigências meramente narrativas da intriga. Nesta nova estação da crise grega, “It’ s the romance not the finance” (é o romance e não a finança) que permitiu uns bons dias em termos de audiências dos meios de comunicação social – (leia-se a Grécia contra a Europa: a guerra das televisões). Mas para lá da personagem-ecrã, narcisista e provocadora que os meios de comunicação social construíram e veicularam, quem é Yanis Varoufakis?
Os meios de comunicação social primeiro adoraram-no. Comparado a Bruce Willis pela cadeia pública de TV alemã ZDF, felicitado pela sua “virilidade clássica” pela Stern, qualificado “de icon sexual ” pelo jornal Die Welt, próximo dos meios conservadores de Angela Merkel, Varoufakis fez a unanimidade dos meios de comunicação social que reconheceram nele “um interessante personagem , uma story. A palma cabe ao magazine Stylebook que escreveu este comentário: “O seu estilo cool é algo que não se pode perder ”, sob o título: “Pobre mas sexy!”. Mas as negociações endureceram-se, os comentários alteraram-se, o seu look deixou de ser cool, encontram-lhe de repente ares “de um segurança de uma boite nocturna “. “Os comportamentos relaxados que caracterizam Varoufakis, afirmava The Financial Times, vão bem para além de uma questão de estilo. Simbolizam a mensagem segundo a qual Syriza, o partido da esquerda radical no poder em Atenas, é um movimento anti-establishment e cuja intenção é a desafiar a ortodoxia de que a Alemanha é a chefe de fila. ” O responsável da rubrica “Fashion” do Guardian observava que o estilo de Varoufakis marcou os espíritos em Londres. “Um casaco em cabedal e uma camisa jazzy, isto não é um comportamento habitual para uma reunião internacional de financeiros ”…
As semanas passam, os editorialistas não demoraram a perceber o perigo “da Varoufmania” nascente. O novo ministro grego das finanças estava a tornar-se um herói popular. O duelo Varoufakis/Schäuble (o ministro alemão da economia) ameaçava ser favorável ao primeiro. Porque tudo opunha os dois ministros das finanças: a geração, o estilo, “a cultura” política. O herdeiro de Helmut Kohl era o sobrevivente de uma geração política entretanto desaparecida enquanto o seu colega grego encarnava o futuro e fixava-se em Barack Obama. O inflexível Dr. Schäuble defendia os interesses nacionais da Alemanha quando Varoufakis falava em nome da Europa. Um, áspero e frio como o aço , pertencia à galáxia Gutenberg, gravada no mármore da experiência vivida. O outro pertencia ao planeta Internet, móvel, flexível, adaptável.
Wolfgang Schäuble e Yanis Varoufakis © Reuters
Poderiam-se multiplicar até infinito o jogo das oposições, um contraste mais que evidente entre dois universos narrativos, uma caracterização ideal para um argumentista. Mais a necessidades da intriga se impunham, mais se afastava a perspectiva de um compromisso. A arbitragem entre interesses contraditórios apagava-se a favor de uma confrontação fictícia que escapava às leis da negociação para obedecer às leis de uma intriga cuja resolução podia ser apenas o triunfo do vencedor e a humilhação do vencido.
O tom alterou-se abruptamente. O que era surpreendente fica deslocado. O radical chique deu lugar “ao choque Varoufakis”, “o cool” tornou-se uma falta de gosto sobre a cena muito “policiada” “das instituições”. Foi-se até ao ponto de difundir sobre uma grande cadeia alemã um vídeo onde este fazia um dedo de honra dirigido aos Alemães. Varoufakis no país do f…! “Não temos os mesmos códigos, não temos os mesmos referentes, não temos as mesmas maneiras de comportamento …”, diz a correspondente do Le Monde em Bruxelas: “O look muito rock do Sr. Varoufakis, o seu lado de Bruce Willis – cabeça rapada, aspecto de atleta, camisa aberta e blusão de cabedal –, com o ar de subir a um rinque cada vez que chega às reuniões do Eurogrupo, o andar.”
Como é que este homem que aparece repentinamente na cena política e mediática há menos de um ano atraiu tanto ódio por parte dos líderes europeus e dos meios de comunicação social dominantes? Que tipo de homo politicus é ele ? É um brilhante economista perdido na política? Um pobre negociador que falhou em convencer os seus parceiros europeus? Um político que dá lições aos outros ? Um provocador como o descreveram durante tanto tempo os meios de comunicação social dominantes? Como distinguir o homem real do homem fictício? Varoufakis e o seu f…? É um excelente economista mas um mau político de acordo com as palavras de Alexis Tsipras cuja história dirá se ele foi um melhor político? Um marxista heterodoxo como se definiu ele mesmo num ensaio autobiográfico escrito bem antes da sua nomeação e publicado pelo jornal The Guardian em Fevereiro passado? Porque é que este homem que apareceu repentinamente sobre a cena mediática e aí está há menos de um ano e atraiu tanto ódios por parte dos líderes europeus e pelos meios de comunicação social dominantes? Quem tem medo de Yanis Varoufakis?
Quereria neste artigo tentar responder à estas perguntas. Para isso, é necessário certamente expulsar os fantasmas, desligar os ecrãs e esquecer as imagens mediáticas e os falsos rumores que poluíram a sua acção durante os cinco longos meses do guerrilha mediática que o opôs aos representantes atuais da União europeia. Mas porque perder tempo ? Os leitores de Mediapart estão bem informados e sabem o que valem estas figuras impostas… Para compreender que tipo de homem político é Yanis Varoufakis, não é suficiente voltar as costas ao personagem público construído pelos meios de comunicação social. É necessário tentar compreender a sua relação com a política para além da função ministerial que exerceu.
Encontro com Yanis Varoufakis: “É tempos de abrir as caixas pretas”
(continua)


