TEXTOS DE REFLEXÃO SOBRE A CRISE NA EUROPA E OS MIGRANTES – MIGRANTES: O GOLPE MORAL DOS EDITORIALISTAS – EGOÍSMO OU GENEROSIDADE, QUAL A SUA OPÇÃO? – por ELISABETH LÉVY

refugiados - I

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

refugiados - V

5. Migrantes :  o golpe moral dos editorialistas

Egoismo ou generosidade,  qual a sua  opção

Elisabeth Lévy, Migrants : le putsch moral des éditorialistes – Égoïsme ou générosité, saurez-vous choisir votre camp?. 

Revista Causeur, 14 de Setembro de 2015

 

Que um certo  jornalismo  adore argumentar  pelo menos tanto quanto informar, não é coisa muito nova. O apelo divulgado na  quinta-feira no ” Libération”  – e de onze outros jornais europeus – deixou-me relativamente indiferente. “Nós, os jornais da Europa, nós unimo-nos  para exortar os nossos dirigentes a agirem  de forma decisiva para gerir esta tragédia humanitária e impedir que outras vidas se percam  …”

Primeiramente, não está claro quem é que poderia ser contra isso. Quem iria querer que vidas humanas sejam perdidas? Quem poderia dizer que o melhor seria não fazer nada ? Estejam seguros, não eu. Mas devemos ter o direito de saber que parte da miséria do mundo se quer  receber e em que condições.

E depois, este  jornalismo de grandes causas e de grandes consciências   é uma especialidade francesa, já nos habituámos a este  ronronar de satisfação  que dita em todas as ocasiões o que pensar – sem grande efeito, de resto. Um pouco de Zola, um pouco de Malraux, uma pitada de Kessel ou de Frantz Fanon, sentimentos heróicos ou patéticos, o apelo  à fraternidade humana  – acompanhado de sentenças de  exclusão da referida  fraternidade contra qualquer pessoa que não pense como se quer que se pense.  Se alguém  quer perceber um pouco mais  sobre este novo clero, Régis Debray disse-o desde há muito  tempo.

Era previsível, a tragédia a que nós estamos a assistir,  sem a ver  e sem a compreender,  estimulou como nunca o entusiasmo dos nossos grandes pregadores e de alguns outros meios de comunicação. As empresas fazem as suas campanhas  sem vergonha organizando apelos aos donativos, as prefeituras a declararem-se  candidatos para o acolhimento de migrantes. Finalmente, alegra-se o jornal  Le Monde, “os artistas franceses saem da sua  reserva.” “Longe está a raiva que se tinha gerado”, escreve  um outro jornal  sem estar a fazer ironia. Ufa, eu não tinha notado que esta tinha  voltado, mas é necessário que ela saia. Engraçado, num tal burburinho, todas estas pessoas que afirmam estar a quebrar o silêncio.

Eminentes editorialistas congratulam-se que uma fotografia tenha feito  mover as coisas. Isto deixa-me mais indiferente do que o medo   de  que a política do meu governo seja ditada por uma fotografia. E, depois,  no meu ponto de vista, deveríamos abster-nos  de fazer falar as crianças mortas. Porque se acaba sempre por fazê-las dizer  qualquer coisa. Neste caso, este pequeno menino seria, tem-nos seringado os ouvidos sem nunca estar assumirem o trabalho de o demonstrar, a imagem da culpabilidade europeia. Pessoas gentis,  maldosas, nada mais que isso.

A uma situação complexa, os meios de comunicação social por conseguinte opuseram uma grelha de leitura muito simples. Procurar  reflectir, dizer outra coisa que as palavras mágicas “acolhimento”, “abertura”, “generosidade”, é já ser-se sujo. Aqui, onde haveria a  necessidade de compreender o conjunto das causas que conduziram este pequeno rapaz a morrer sobre esta praia turca, repete-se sucessivamente que são os novos judeus a fugirem do novo nazismo. Mas isto significa interditar o acto de pensar. Desde há uma dezena de dias, esta chantagem emocional (em que Slobodan Despot muitíssimo bem descreveu a força da chantagem emocional) atingiu uma intensidade inédita. Egoísmo ou generosidade, cada um que faça a sua escolha! Cada um mostra  a sua emoção como uma medalha, enquanto que o que seria meritório, seria de resistir um pouco a  esta emoção.

Dito isto, o  “eu acuso”, a imprensa publica todas as quatro manhãs e eu teria esquecido o apelo dos doze jornais europeus se Alain Finkielkraut não tivesse chamado  a minha atenção sobre o seu carácter escandaloso. “É uma tomada de poder! ”, disse-me  o meu caro professor.  De facto, esta aliança de doze jornais para ditar a sua política aos governos eleitos  de que  não têm nem a legitimidade, nem as responsabilidades, traduz   uma curiosa concepção da distribuição dos papéis. “Espera-se deles que nos dêem o saber  necessário para pensar, mas eles não querem descrever, eles querem  prescrever”, irrita-se   Finkielkraut.

É verdade  que esse  texto não parece ter levantado as massas nem comoveu  significativamente os governos checo, húngaro e outros refractários ao acolhimento de massa. Quanto aos  nossos  governantes, os da velha Europa, tentam andar sem rodeios  entre as espectativas  dos seus eleitores e os diktats dos meios de comunicação social – e como sacrificam frequentemente os primeiros para agradar aos segundos, acabam sempre por  perder. Em antecipação, os ministros do Interior vão bem ter que  traduzir toda esta emoção em acção – que começará esta segunda-feira em Bruxelas por uma vasta negociação feita sob a fórmula “ aceito  tanto e tu tanto” o que nos levará  para muito longe das  grandes palavras e dos grandes princípios. Acontece  que este zunzum humanitário  só pode  incentivar os que hesitam, nos campos de refugiados da Turquia ou da Jordânia, a tentar em a aventura europeia enquanto que as opiniões públicas estão relativamente receptivas à entrada na Europa. De tudo isto, os meus estimáveis confrades lavam-se as mãos: o seu raio é a convicção, não a responsabilidade. É por isso que se pode pelo  menos  falar de uma tentativa de golpe de Estado militar moral.

Há mesmo assim  um aspecto quase cómico, nesta crise dramática, é que a França empalhe-se sobre as questões  que não se levantam. Pode-se pedir-se se for necessário para se acolherem os  refugiados, e quanto ou como. O aborrecido,  é que vai ser necessário obrigá-los porque, decididamente, não querem vir  para o nosso país. Invocar-se-ão   todas as rotas migratórias tradicionais, os empregos alemães, o desemprego francês. De acordo, mas preferem mesmo a Inglaterra e o custo da vida em  Londres. Então, um pensamento terrível nos assalta: e se a França tivesse realmente saído demasiado da História, mesmo para  as pessoas que lhe  tentam escapar?

*Photo: Sipa. Numéro de reportage : SIPAUSA30133408_000009.

Elisabeth Lévy, Revista Causeur, Migrants : le putsch moral des éditorialistes – Égoïsme ou générosité, saurez-vous choisir votre camp?. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/migrants-merkel-syrie-immigration-34551.html

Leave a Reply