A GALIZA COMO TAREFA – duas capelinhas – Ernesto V. Souza

Na Europa, a história nacional, enquanto história nacionalista, é discípula predileta (ou adaptação na modernidade) da história da religião que, neste caso, é a do cristianismo. Simplificando, esta história sempre criminal. É basicamente uma constante de justificação e legitimação dos poderes imperantes e discursos dominates para os que se escreve.

Por isso mesmo, a necessidade de cada presente determina a explicação dos presentes passados, próximos e remotos e provoca a também constante eliminação, furto ou dissimulaçã0, na escrita e re-escrita das partes mutilas, ausentes, censuradas, desquadradas, contraditórias, ou simplesmente justificativas de doutrinas, discursos, políticas, opções e palavras démodé.

É por isso que, como na viagem, para ver com os próprios olhos, resulta tão proveitoso fugir dos centros e caminhos transitados, esquecer os guias e os letreiros grandes e percorrer com vagar as periferias, ir ler nos livros não recomendados, nas cartografias em desuso, na velha imprensa, nas bibliotecas de pequenos lugares esquecidos, em velhas histórias, contemplar os monumentos e os documentos, como quem bebe doutras fontes ou contempla paisagens doutras perspectivas.

A quem pervagar pela Valeta, a capital fortificada da ilha de Malta, hoje república soberana e estado da Europa, é recomendado visitar entre outros muitos locais, espaços e monumentos, a Co-catedral de São João. Erigida entre 1573 e 1578, sob encomenda do Grão-Mestre Jean de la Cassiere é a igreja conventual da Ordem dos Cavaleiros Hospitaleiros de S. João, ou Cavaleiros de Malta.

Um dos mais elegantes exemplos do barroco pleno, é também espaço de homenagem, memória e enterramento dos seus principais. O interior, extremamente ornamentado, com esculturas lavradas na mesma pedra arenito característica da ilha, tapeçaria, frescos, pinturas e douraduras, tem a particularidade tão própria da ideia barroca da fama e a morte, de ter as capelas e o piso de mármore, para além das criptas, conformando uma série de túmulos legendados e coloridos, que abrigam uns 400 cavaleiros e oficiais da ordem.

A catedral contém oito ricas capelas, cada um das quais representa em sentido do altar e numa clara hierarquia, a cada uma das oito “Langues” (capítulos ou seções) da ordem e estão dedicadas ao seu santo padroeiro

No lado esquerdo da igreja estão: a capela dos Anglos (que também inclui os Bávaros) e anteriormente conhecida como a Capela das Relíquias; a Capela da Provença dedicada a São Miguel; a Capela da França dedicada à Conversão de São Paulo; a Capela da Itália, dedicada a Santa Catarina e a Capela da Alemanha dedicada a Epifania de Cristo.

No lado direito da igreja, existem as seguintes capelas:

A Capela do Santo Sacramento anteriormente conhecida como Capela da Nossa Senhora de Filermos (Rodes). A Capela da Auvérnia, dedicada a São Sebastião. A Capela de Aragão (em que se inclui a Navarra), hoje denominada de Catalunha (cujo governo autónomo pagou o restauro), Aragão e Navarra, dedicada a São Jorge e por último a Capela da Espanha que reúne, com Castela, Portugal (hoje com letreiro Capela de Castela, Leão e Portugal), e está dedicada, como não podia ser menos e se representa no óleo central, ao Senhor Sant-Iago. Os monumentos tumulares nesta capela, na qual se destacam os brasões com os castelos e os leões e as armas de Portugal são os dos graõs-mestres  Antonio Manoel de Vilhena e Manuel Pinto da Fonseca.

Visto que Malta, na altura que o imperador Carlos I a cedeu (1530) pelo tributo de um falcão à ordem para bastião na defesa da cristandade contra o Turco, provinha da parte aragonesa do patrimônio familiar dinástico, não deixa de ser fascinante – hoje – o testemunho dessas velhas divisões.

Sem fazermos caso dos rotulados novos, a leitura dos brasões e das paredes é interessante, Alemanha, sem a Bavária; por uma parte a França e por outra a Auvérnia (e Aquitânia com ela) e a Provença; Castela com Portugal conformando Hispania e os territórios para além do Ebro noutra unidade, dado que como é sabido a Navarra do Sul, foi incorporada militarmente em 1512 aos domínios do Império aragonês.

 

 

 

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