Para o J. R. Pichel Campos, há muitos anos na nuvem pioneiro.

Há momentos em que as mudanças passam de simples retificações ou melhorias sobre mais do mesmo para re-estruturações ou a substituições de elementos que alteram todos os sistemas, as tradições e as verdades. Normalmente começam como tendências que se espalham, e que precipitam novas propostas, tecnologias ou técnicas que, por sua vez, modificam as maquinarias, as estruturas, os sistemas e finalmente as formas, os relacionamentos ou a concepção do trabalho.
É pensar apenas, para contextualizar, na limpa cursiva humanística, originária naquela minoria letrada no século XIV, que tanto rejeitava tudo quando a gótico cheirasse, e na posterior evolução da tipografia, da leitura, da cópia e do livro; ou pensar na máquina de vapor, cuja evolução como ferrocarril, modificou a concepção da geografia, o uso dos recursos, o comércio, e as viagens por terra (em velocidade e quantidade) até daquela regidas, desde a invenção das estribeiras, apenas pelos fôlegos dos cavalos e a limitada potência da tração animal.
Há mudanças e há tempos de mudanças, nos que, talvez por sermos protagonistas, não temos perspectiva.
A Internet, desde os anos 90 e com a interconexão pela Web, deu possibilidade para que a gente se relacione, se reconheça entre afins distantes como coletivo, a que estabeleça grupos, a que forje fidelidades e referentes novos para além dos próximos e nacionais; e também para que aprenda muita cousa sem intermediários, ou sem se incorporar em sistemas regrados de ensino.

Isto tudo está a modificar radicalmente o sentido, a percepção de lealdades, de afinidades, de fidelidades e portanto o espaço fixado como “comum”, as “fronteiras mentais” das comunidades e, de passagem, reabre a evolução das “línguas comuns”.
Desde a aparição destas tecnologias, as línguas não se constroem mais a partir de modelos anteriormente válidos, na tradição de estado que as originou no século XIV-XVI, nem na conformação nacional dos séculos XVIII, XIX e XX.
Todas as línguas estão a deixar de ser património e referência identitária nacional, ao serem confrontadas com utentes diversos de todas as partes do mundo. Algumas línguas, por causa da história espalhadas nas sete partidas do mundo, no nosso tempo perdem ainda mais o sentido ou a orientação estatal que até nada lhes era próprio. Quanto é maior o número de utentes e a maior número de espaços e sites o pessoal descobre formas, usos, mitos, crenças, que não acostumavam, mas em reação e após as oportunas brigas, debates e confrontos, os grupos passam a prescrever – a democracia triunfou na rede – o que os mais dos utentes acatam.
As práticas escritas são costumes e aprendizado, têm muito de artesanato e portanto de horas de repetição até que os movimentos, os usos, tornam hábito. A ortografia é basicamente um hábito, a tal ponto que muita gente afeita aos teclados se surpreenderia de que ortografia lhe tira mais de papel e pena.
Mudar o hábito é um problema e exige um esforço de reaprendizagem, como quando mudamos de ferramentas ou de software; os galegos, neste início de século XXI, encontram-se, curiosamente, na sua ausência de bagagem e por causa dos seus debates sem solução, mais livres do que ninguém para aprender a escrever com uma ortografia própria e interoperável com o resto de utentes da “língua comum”.
E vão re-construindo para si e construindo a olhos dos outros utentes utilizando o que Internet oferece num clique, incorporando as tradições, modelos e práticas doutros e oferecendo as suas reflexões, experiências e tradições, talvez muito distantes, para construir, aos poucos na nuvem, uma ferramenta compatível com a identidade e a utilidade.
