No CCB dia 29 de Outubro das 18:00 às 19:00
Literatura e Humanidades
Obra de Luís de Camões
Isabel Almeida
Cada obra é única, e no entanto relaciona-se com outras, de múltiplo e intenso modo. Talvez seja este o paradoxo que faz da poesia uma razão de deslumbramento e um infinito desafio à descoberta. Quando em causa está um autor como Camões, tudo isso ressalta. No século XVI, em tempo de Renascimento e Maneirismo (i.e., em tempo de constante diálogo com os clássicos), valorizou-se a imitação – e a palavra teve na época um sentido que hoje precisamos de recuperar e compreender. Imitar significava aprender com aqueles cuja qualidade era objecto de admiração e respeito. Não se tratava de reduzir a escrita a uma mera cópia, mas sim de assumir uma ligação, exigente e vital, a modelos estimados. Daí que a imitação trouxesse consigo a emulação. Apes, ut aiunt, debemus imitari… Nas Epístolas a Lucílio (LXXXIV, 3-4), Séneca celebrizara uma metáfora que ao longo de Quinhentos voltou a ser aplicada e que fala por mil discursos: o poeta é como uma abelha, vário é o seu alimento, mas próprio o travo do mel que produz.
Na poesia de Camões, pratica-se, assim, um jogo audaz e difícil: há que ser semelhante e ser diferente; há que insinuar ou mostrar de onde se parte e aonde se chega, porque é nessa sintonia ou nesse desencontro que em larga medida o significado se constrói. Quer isto dizer que a leitura tem de estar atenta, ser curiosa e capaz de escutar as vozes que se cruzam, flagrantes ou discretas, num texto.
Não custa fazer uma experiência: olhe-se primeiro, como quem contempla uma ilha, as endechas a Bárbara escrava (“Aquela cativa / que me tem cativo”). Depois ensaie-se colocá-las em perspectiva, comparando-as com vilancetes do Cancionero General de 1511 ou do Cancioneiro Geral de 1516, ou com a ode II, 4 de Horácio, ou com o Canzoniere de Petrarca, ou com o versículo 1, 5 do Cântico dos Cânticos (“Nigra sum sed formosa”). Seja como for a leitura (decidida a isolar ou a articular a composição, até com outras do mesmo poeta, como a ode “Aquele moço fero”), será uma experiência reveladora e sem preço. Da integração das redondilhas num horizonte mais ou menos amplo, porém, resultará a nítida consciência da sua complexidade. Repare-se: Camões não afirma apenas, de forma explícita, que a cativa “parece estranha” mas não é “bárbara”: reitera-o subtilmente, na aproximação e na distância que cria com textos que no seu ecoam.
Nunca entraremos em pleno na oficina do poeta, mas podemos entrever as suas escolhas e fazer perguntas que abram caminhos de entendimento. Será esse o nosso trabalho, explorando exemplos da lírica, da épica e do teatro de Camões.
Isabel Almeida
A autora não segue o novo acordo ortográfico
Produção | CCB

