A GALIZA COMO TAREFA – Assim a noite passa – Ernesto V. Souza

diarios

Para Rosabel Candal Bouzas, com carinho e admiração

O cheiro a liberdade, o recendo a soberania, a convocatória a re-pensar tudo: nação, cultura, história, elite, género, crítica e estilo chegou esta semana em forma variada: pelas redes, nos comentários lúcidos das amigas e também pela caixa dos correios, que como nos contos orientais, trazia livros em inglês, desde a Índia, e livros amigos da Galiza. Pacotes e envelopes a falar do comércio global do livro, objeto e mercadoria, textos e construção do pensamento. Tertúlias na Internet e impressos de toda parte que conformam collage e murais do que pensam as pessoas entre as que me movimento, ideias que escuto e leio, por escolha.

Entrou também mui fresco pela caixa de correios, o livro com os textos com que o Carlos Calvo, esse particular discípulo de Fanto Fantini, sorteia às infinitas grades, mentiras, censuras, injustiças e armadilhas da sua prisão, erodindo, na formulação geométrica e análise explícita da sua, as maiores e implícitas, as feitas de ambivalências e espelhos: a do confinamento, em que os mais de nós andamos sem saber, neste Estado.

Muita merda no sistema, é, como diz um outro preso, convertido para sempre em personagem, num rascunho. Merda à direita, à esquerda, arredor, e especialmente por riba. Saudade das companhas, dos discursos, das ausências, dos comentários, dos materiais, da casa, da terra; dor nas travas, nas limitações, na ausência de calor familiar e amical, de amor e de sexo. Notas soltas nas que se nos aprende e nas que se nos deixa, tanto, por dizer.

Que contraponto, imenso, com as opiniões dos jornais e os trabalhos “académicos”, o destes Diarios, melhor retalhos, desenhos e textos soltos, escritos na prisão e agora editados pela meritória e cada vez mais sólida Através. Cada dia mais pesa a escrita mercenária dos média, a soldo dos poderes económicos e políticos. Que contraste com a falsa erudição; com essa cultura que atafega como muro infranqueável de livros, torres de exclusivas edições, portas de caríssimas encadernações, legitimidades de pergaminho e papel, feitas dogma e lei. Muralha chinesa visível das alturas, barreira levantada para os poderosos se protegerem dos bárbaros, dos outros, dos desclassados, dos sans-culottes. Muro e armazéns imensos para comércio do capital cultural, banca académica e sentido do juro com que as elites sabem sempre lhe tirar partido ao que se escreve.

Mas não, para que lhes continuar o jogo. Não hoje, deixemos os senhores importantes estas disputas para sabermos quem ocupa e predomina nesse campo dominante, entre os dominados, na primeira fila da defesa, no labirinto do capital cultural, como esbirros dos verdadeiros senhores detentadores do verdadeiro capital. Hoje, prefiro gorentar, esse profundo sabor a liberdade, do livro de Carlos. E é tal a dignidade, a claridade da sua escrita, faz-se tão evidente nestes tempos de misérias cainitas, cegueiras de barato e borracheiras de orgulho.

Gosto também justo por isso das longas cartas que encaminha Xosé L. Santos Cabana, testemunhando, com um humor sardónico e ferido a história das visitas, dos objetos, dos processos, dos pequenos momentos sequestrados, compartilhados, ou negados, nas narrativas dos pequenos quotidianos do meu admirado Antom Santos, sempre gramsciano e convertido na inteira narrativa paterna em um Ivão Denisovich, condenado, como tantos outros, a ver passar os dias e as noites.

Porque para além de tudo, o Carlos, Sechu Sende bem o sabe enxergar, é um detetive pós-colonial, que analisa com as técnicas mais diversas da análise paisana e a erudição bibliográfica os símbolos da elite e do poder, a narrativa imposta que há que saber de cor e repetir. Que aponta e destaca, nos detalhes marginais de um livro ou um velho filme, uma cantiga, um costume a autonomia concedida da Nação à nação.

O livro de Carlos Calvo deveria estar na mao de muita gente. Nas cafetarias dos liceus, nas bibliotecas públicas, nos albergues de montanha, nas salas públicas dos hospitais, nos salons de cabeleireiros, no revisteiro dos bares. É desses livros que facilitam a vida porque a explicam. [do Prólogo]

Bom discípulo de Fanon, Said e Bhabha, sabe narrar o que lê, destacando na escrita e pela escrita como a historiografia e a antropologia cultural, a crítica de departamento linguístico e literário universitário, muito devem às técnicas narrativas, das que aprenderam a importância da perspectiva dada pelo narrador para fingirem a verossimilhança que se passa como objetiva.

O Carlos, ecologista, feminista, solidário, cosmopolita e viajante com a mente é uma personagem desta trama negra, que vai contando aos poucos e ao acaso, passando de matute, neste estilo pessoal próprio, a narrativa coletiva e a oralidade dos companheiros da cadeia, as vivências do seu périplo intelectual anómalo pelas mais diversas bibliotecas das prisões, os códigos, a linguagem, as normas escritas e os usos não escritos, junto com as reflexões antropológicas sobre o ambiente rural galego e as suas normas, literatura, costumes e usos que servem de contraste.

Bibliofilia extraordinária do imediato, lucidez absoluta de um leitor clarividente convertido em narrador e personagem narrativo comum a figuras históricas da intelectualidade rebelde e marginal. Bebedor de tantas fontes, recluso da realidade mais absurda, sabe evidenciar-nos os truques e os tropos das linguagens e contrastar por toda a parte a existência de um narrador omnisciente ou homodiegético, e doutros nunca protagonistas, em função da perspectiva e do objetivo da grande narração. Conto, anedota e ilustração, tal e como na Esmorga, são cousa da imprensa, dos guardas e prova ante os juízes.

Quem é “os outros”, e como nos ler? como lermos esse nós imaginário e suspeito ao poder que define a narrativa? Os Diários são um vento de perguntas, uma voz rebelde e tranquila que sorri e diz, simplesmente, por que aceitamos a narrativa imóvel e fixada, as imagens da classe dominante, os seus símbolos, o seu domínio? Contemplo o muro, a história, as personagens que se nos escolhem para falarmos, escrever e debater.  A narrativa de quem? Da classe dominante que nos condena à prisão, à exclusão, ao desterro?

Assim a noite passa. Rumorosos
susurram os pinhaes meditativos

Antero de Quental, Os Captivos.

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