ENSAIO BREVE SOBRE O TEMPO – de JOAQUIM PALMINHA SILVA

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Voltamos a publicar Ensaio Breve Sobre o Tempo, em homenagem ao nosso amigo e argonauta Joaquim Palminha Silva, ontem falecido. Materialistas como somos, acreditamos que ele nos vê, e nos vai acompanhar na nossa navegação. A ele, à família e a todos os amigos, um grande abraço.

Quando o Homem se iniciou nas abstracções do pensamento, o Tempo, sempre esquivo, foi um daqueles “espíritos” vagabundos e rebeldes que, voando com grande rapidez, o Homem sempre perseguia sem agarrar, pretendendo segurá-lo como lhe convinha. Na verdade, tudo à sua volta se soterrava, tudo se desfazia, tudo morria… O Tempo não! – Ardia nas chamas do desperdício, mas nunca se consumia por completo. A perseguição do Tempo tornou-se, talvez por isso, uma histórica e contínua caçada onde o caçador (Homem) acabava sendo apanhado pela presa (Tempo) e, assim, sempre perdia o “seu” Tempo…

Enquanto se dedicou quase exclusivamente à agricultura e à pastorícia, o Homem pagava o seu tributo ao Sol, invocando os favores deste para que o ajudasse a domar o Tempo, depois de separar o dia da noite. Testemunha esta tentativa os relógios de Sol…

Orgulhoso como um deus, o Homem deixou a noite em paz, como uma gruta escura por onde vagueavam exibições de sombras malignas que lhe sacudiam a coragem do corpo e da alma, presa apenas à segurança do dia.

A teimosia de medir o Tempo, de o cortar em fatias, através de instrumentos mais ou menos complicados, não se intimidou perante as dificuldades técnicas nem face às mais atabalhoadas abstracções. Na verdade, podemos especular sem fim sobre o objectivo perseguido pelo Homem, na sua tentativa para controlar o Tempo, mas o facto é que nenhuma das propostas de interpretação nos desvendará inteiramente as razões que levaram o Homem à imperiosa necessidade deste trabalho. Seja como for, estou em crer que, seduzido pelas possibilidades do hipotético domínio que o Tempo proporcionava, se tenha procurado rentabilizar os seus supostos ciclos, que se imaginam elásticos, resolvendo-se assim obrigar uns homens a gastarem o Tempo em proveito de outros homens, estabelecendo-lhe um ritmo que escravizou uns em favor de outros, roubando Tempo de vida aos desprevenidos. Enfim, é possível que com estas artimanhas, o Homem tenha inaugurado uma época em que os mais poderosos gastam o Tempo que é propriedade individual dos mais despojados.

Os mais poderosos entre os homens, uma vez armados com seus automáticos e sofisticados relógios, de quase nada fizeram uma ambição e, acreditando-se donos do Tempo, inauguraram a “universal” civilização do tiquetaque!

Todavia, o Espaço, com sua imensa e multifacetada geografia, nunca lhes mereceu tanto cuidado nem tanta preocupação como o Tempo. Os mais poderosos acreditaram mesmo que uma vez instalada a relojoaria sobre a Humanidade, o Espaço não teria mas remédio senão acomodar-se… O que se seguiu depois foi uma verdadeira catástrofe, subdividida em milhares de tragédias humanas disseminadas por todo o Planeta.

Na verdade, o fictício domínio do Tempo, assim “encontrado” pelos poderosos, fez-lhes crer que eram magos cinzeladores, talvez alquimistas capazes de tudo sujeitar às suas necessidades de Poder, de mais Poder, e acreditaram que, tal como o Tempo, o Espaço planetário lhe obedeceria de igual modo, apenas necessitavam de um mecanismo apropriado para o obrigar, em todo o Planeta, a tal obediência…

Entretanto, aconteceu o imprevisto, os poderosos ficaram muito admirados e desgostosos, quando verificavam que tal ou tal Espaço não lhes obedecia. Primeiro ficaram muito tristes, mas logo de seguida, de sobrolho carregado, começaram a imaginar formas de domesticar todo o Espaço ao seu ritmo e duração de Tempo. Afinal de contas o relógio fora-lhes soprado à imaginação por vontade divina, e obedecer-lhe era respeitar a Deus. Não pretendera afirmar outra coisa Johannes Kepler (1571-1630), quando disse aos seus contemporâneos que o Universo era tal qual o mecanismo do relógio. Nesta linha de pensamento, Isaac Newton (1642-1627), “acabou” com as dúvidas de todos os descrentes, “nomeando” Deus relojoeiro e mestre mecânico Universal!

A repartição do Tempo era, pois, algo de transcendente e as sociedades espalhadas no Espaço planetário que pretendiam viver outro tempo histórico, planeavam heresias, praticavam convívios contra-natura!

Porém, estava escrito num livro que poucos conheciam, que o talento e o génio dos que detinham o Poder, “senhores” do Tempo, proprietários da civilização do tiquetaque, que esta, longe de ser um benefício humano, se tornaria paulatinamente um íman de fatalidades e de injustiças sangrentas!

A luta pela recuperação do Tempo, já roubou demasiado tempo de vida à imensa maioria dos despojados! – Enfim, o problema do Tempo foi entretanto compreendido como uma questão estreitamente ligada à Liberdade…

Não é possível que cada homem, isolado, possa ordenar e reter a integridade plena do seu Tempo de vida. – Mas é possível a associação dos homens, cujo Tempo de vida é armazenado e, depois, subdividido em parcelas para ser usado pelos Poderosos, que sempre mantêm os despojados num cativeiro camuflado, a que chamam por vezes “democracia”, como se o nome pudesse mudar a natureza da prática criminosa…

A questão do Tempo é, seguramente, a única questão à volta da qual giram todas as outras, como os ponteiros de um relógio.

Portanto, urge acabar com estas martirizadas perdas de Tempo!

É preciso prender e levar a julgamento quem nos anda a roubar o Tempo!

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