CARTA DE VENEZA – PESSOA SEM PESSOA – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Realizou-se hoje na Universidade Ca’ Foscari de Veneza, sob o patrocínio da Embaixada de Portugal em Roma, do Instituto Camões e da Fundação Calouste Gulbenkian, o colóquio Pessoa sem Pessoa, precisamente no dia em que se completam os 80 anos sobre a morte do poeta.

Parafraseando as palavras proferidas por Eduardo Lourenço no começo da sua conferência, não há provavelmente cidade mais onírica do que Veneza para invocar Pessoa e, de facto, num cenário deslumbrante e com uma encantadora vista para o Grande Canal, a majestosa Sala Baratto acolheu uma audiência de mais de cem pessoas e criou um ambiente propício ao estudo e à partilha de conhecimentos e visões críticas sobre a poética de uma figura inesgotável da literatura portuguesa e mundial.

Encontraram-se aqui vários académicos conhecidos internacionalmente, tanto italianos como portugueses

(http://intra.unive.it/phpapps/eventi/allegati/event_3281211_2.jpg),

no intuito de reacender a reflexão sobre o autor partindo do Livro do Desassossego e em particular das palavras de Bernardo Soares: “Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira”.

Na fronteira invisível entre a ausência e a essência, como refere a sinopse do evento, tentou-se relançar uma leitura da produção pessoana que não seja meramente filológica, em prol de abordagens críticas mais amplas, integradas e enriquecedoras, ultrapassando qualquer cristalização da crítica.

Ausência, abdicação, desistência, interstícios, feridas são apenas algumas das incisivas palavras-chave que marcaram a leitura da obra pessoana, num diálogo renovado entre Pessoa e os seus contemporâneos, mas também com a filosofia (Heidegger, Adorno, Badiou entre outros), sem prescindir de uma ética da crítica literária através da atualização da literatura no presente e na história atual, com a sua paisagem de sangue e naufrágios.

Foi assim que hoje Veneza falou português e na nossa língua questionou-se sobre poesia e atualidade.

 

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