EDITORIAL: «Evolução de mentalidades»

logo editorialAtribuímos à palavra evolução um sentido que, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, nos chega do francês évolution que, por seu turno descende do latim evolutione. – desenvolver, percorrer, ler. Usada pelos revolucionários de 1789, aparece pela primeira vez grafada em português num texto de 1810. Conceito moderno, pois, vulgariza-se com as investigações de Charles Darwin, sendo muitas vezes usada de forma abusiva – como inadequado empréstimo da biologia à ciência política. Inadequado porque enquanto o percurso do homo habilis para o homo sapiens, passando pelo homo erectus, percurso que ao longo de mais de dois milhões de anos,vem dos primeiros hominídeos aos actuais seres humanos, dá ao vocábulo uma acepção  de ascendência que no plano dos comportamentos sociais não faz sentido. Em última análise significaria que a espécie está a ficar mais inteligente. Não há dúvida de que os comportamentos mudam, até em função das descobertas científicas e do avanço tecnológico – senão veja-se o que  o telemóvel e a Internet trouxeram  ao comportamento social. Mudança de mentalidades, estaria mais ajustado à realidade.

E não pode haver dúvidas quanto a essa mudança – um citoyen de 1789, poderia mandar guilhotinar um communard de 1871 e até mesmo um contestatário de 1968 tem dificuldade em dialogar com um revolucionário  actual . Povavelmente o de há meio século acabará por classificar o actual como reacionário. Nestes quase cinquenta anos que  distanciam uma época em que era proibido proibir de um tempo em que os animais voltaram a falar, custa, para quem os percorreu, compreender como é possível num regime democrático, eleger para cargos de direcção política e para cadeiras de magistratura, imbecis e corruptos como os que enxameiam executivos de países como (por exemplo) Portugal. E aqui, o diálogo entre um «comuna» de 1974 e um «democrata» de hoje, também não seria pera doce.

Em 1789, a burguesia queria esmagar a aristocracia; a Comuna e o meio século seguinte foram gastos a conquistar um estatuto honroso para o proletariado (em 1917 sonhou-se com a ditadura do proletariado). – era o« tempo das cerejas» – o operário não queria baixar os olhos perante o patronato.  De 1936 a 1945, o capital, em guerras fratricidas, estabeleceu as coordenadas da aldeia global – todos compram sapatilhas Niky e comem Korn Flakes ao pequeno-almoço. E para estimular essa padronização  cria-se um inimigo letal e assustador -o islamismo. compram-se uns rottweillrs que ladram versículos e transforma-se trabalhadores em terroristas . E s o terrorismo não chegar, arma-se uma guerra entre tres religioes basicamente iguais.

Os políticos como Obama ou Sarkozy, em 1789,  não seriam  guilhotinados  pela simples  razão de  que  não  teriam  ensejo  de  subir  a  tribunas. A qualidade da demagogia desceu a níveis primários. Se  lermos  os  discursos  do  período que antecedeu   a ditadura de João Franco,«surpreende-nos como há mais de cem anos a desenvoltura discursiva dos deputados era superior à  pobreza conceptual de hoje. No plano moral, é melhor nem falar – pela suspeita, por vezes infundada, de corrupção ou de traição, houve suicídios. prezava-se a honram coisa que hoje provoca ataques de riso a ladrões e a vítimas de roubo. Hoje, a pulseira electrónica ameaça transformar-se  em  adorno prestigiante.

As mentalidades mudam. Moldadas pelos meios de comunicação social assumem uma passividade rasteira. Será a essa submissão que chamam evolução?

 

ise

 

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