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Introdução à série “A crise civilizacional e a crise do ensino, num mundo em profunda policrise”
Coimbra, em 24 de Abril de 2026
Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Temos estado a estabelecer quais os textos que devo utilizar numa série muito longa que tem como tema A crise civilizacional e a crise do ensino, num mundo em profunda policrise. A série está praticamente pronta, entrou-se na fase de revisão, uma fase que dá mesmo muito trabalho. Podemos, no entanto, ir arrancando com a sua edição.
O dia de hoje, 24 de abril, foi Dia do Livro. No telejornal do almoço ouço alguém que está a ser entrevistado e que diz que um dos livros mais importantes que leu foi o livro de J.D. Salinger O Apanhador no Campo de Centeio. Nem o nome do autor nem o título do livro me eram estranhos, mas nunca li Salinger. Isso trouxe-me à memória dois artigos que tinha preparado para a série acima referida. Estes dois textos são a transcrição de dois programas da estação de rádio Atlantic, onde a maioria dos jornalistas do jornal The Atlantic falam da importância que os livros tiveram na adolescência de cada um deles. Ao lê-los percebe-se que o jornal tem uma equipa de trabalho de luxo! É de livros que se fala nestes dois artigos, é de livros que se fala em toda a série e para introdução falemos também de livros, falemos da nossa prática como professores na Faculdade de Economia onde trabalhámos até 2012
Em tempos, quando na Faculdade de Economia era professor de Economia Internacional, e ao longo de décadas, introduziram-se diversos sistemas de avaliação contínua. Um deles, o mais simples de todos os que foram utilizados, consistia na elaboração de um trabalho e da leitura obrigatória de um livro de cultura geral em economia. A seleção era feita por mim. Comprava anualmente quatro a cinco livros em francês, pagos do meu bolso, selecionados ao longo do ano pela leitura de Alternatives Economiques e sobretudo do Le Monde. Lia-os, escolhia depois o livro que julgava mais adequado para os alunos em questão, falava com os meus colegas de trabalho na disciplina e desde que obtido o seu acordo negociava com a editora Terramar a edição do livro.
O acordo com a editora era mais ou menos o seguinte: eu garantia um mercado de 200 exemplares daquela obra e oferecia a revisão da tradução que normalmente a editora pagaria aos seus revisores. Esta oferecia um exemplar a cada um dos meus assistentes, eu não precisava, tinha o original, e três exemplares para oferecermos a quem entendêssemos. A Biblioteca dispunha do seu exemplar, e este era livro obrigatório na disciplina, e era assim marcado com um círculo vermelho assinalando-se assim que aquele não podia sair do espaço da Biblioteca.
Este tipo de acordo era renovado anualmente sendo cada livro utilizado alternadamente durante dois anos. Porquê assim? Por duas razões bem simples: 1) para que o estudante fosse obrigado a comprar o livro e não a vendê-lo no ano seguinte; 2) para que depois do trabalho feito sobre o livro este trabalho não viesse a ser oferecido ou vendido aos colegas do ano seguinte;3) e para que o mesmo não acontecesse ao livro, a cair nas mãos de um vendedor de livros em segunda. Era necessário levar os estudantes a gostar de ter livros como companhia. Esta era a nossa forma de lutar contra a iliteracia já bem sentida na Universidade.
Para além da exigência sobre o livro, exigia-se a presença em 75% das aulas práticas, a sua presença era registada em ficha assim como o seu comportamento académico em cada sessão de trabalho. Sublinho que marcávamos presenças e não faltas, nunca eram considerados os atestados médicos porque o que estes fazem é justificar faltas e nós o que registávamos era comportamentos dos presentes em aula e não das ausências.
O aluno era obrigado a apresentar na aula prática o livro respetivo e o professor selecionava um capítulo que o aluno teria de resumir fazendo um texto na ordem das 5-10 páginas. Esse seu texto acompanhava o trabalho específico que fazia para a disciplina para discussão oral. Repare-se no que escrevo: o estudante apresentava o seu livro, o docente escolhia o capítulo e registava essa escolha na sua ficha de presenças, ou seja, o estudante era obrigado a Comprar o Livro. Quando o livro me era apresentado, eu olhava para a primeira página e por vezes o livro vinha com essa página em branco. Quando tal acontecia, eu perguntava imediatamente: o livro é seu ou é emprestado? Se é seu, assine-o, se não é seu, não aceito a marcação de capítulo.
Um dia aparecem-me no meu gabinete duas estudantes: uma nativa e outra africana para eu marcar o capítulo a cada uma delas. Pego no livro e nem o abro. Digo, este livro tem aqui uma marca e esta marca significa que o livro não pode sair da Biblioteca. Ora o meu gabinete não faz parte da Biblioteca, logo o livro não pode estar aqui e se não pode estar aqui, deste livro não posso tirar nenhuma marcação de capítulos. Além do mais, cada estudante tem de ter o seu livro, teriam de estar aqui dois mais porque este não é de nenhuma de vocês. A rapariga africana, triste não disse nada. Percebi o seu silêncio e doeu-me.
A estudante africana estava envergonhada. A aluna portuguesa estava revoltada: Explico-lhe porque é que as condições estabelecidas foram aquelas e não outras. Os estudantes que gostam de ler, gostarão de ter as estantes da sua casa com livros com os quais apreenderam a ser gente, ou não gostam de ler, são estudantes e isso é uma contradição, como estudantes têm então de aprender a ler: o caminho faz-se caminhando e porque é assim, é necessário impor que se caminhe, é obrigatório que se caminhe. Aqui assinalo os textos de Nicholas Carr e de Maryanne Wolf que serão publicados na nossa série sobre as resistências que se ganham contra a leitura.
Dá-se da parte desta estudante uma reação brutal dizendo que tem direito de escolher os livros de que gosta e não tem de estar submetida ao gosto dos outros. Dei-lhe uma explicação que aqui reproduzo em termos de conteúdo, não de forma, pois já passaram mais de duas décadas sobre isto. Sabe, este método de avaliação dá-me muito trabalho e tem, pois, elevados custos pessoais, em tempo e em dinheiro. Eu pago para fazer isto e tenho direito a exigir uma contrapartida aos estudantes para quem trabalho gratuitamente e esta contrapartida é muito simples: é a satisfação de presenciar a elevação do vosso nível cultural e científico sendo certo que ambos os níveis estão ligados.
Porém, não deixo de lhe dar razão, reconheço que a senhora tem direito de escolher ler o que quiser e os regulamentos garantem-lho; mas tem de ser coerente na sua liberdade de escolha, não pode escolher um sistema de avaliação que me dá, a mim, o direito de lhe impor um livro, seja ele qual for, e dizer-me que não aceita imposições. Coerentemente então só tem de fazer uma coisa. Sair deste gabinete e ir a exame final fora do sistema avaliação contínua que rejeita. Também tenho o direito, uma vez que não são aceites as minhas condições, de apenas a ver pelas costas. E as duas alunas saíram do meu gabinete e à saída disse à aluna africana: amanhã quero falar consigo. No dia seguinte veio ter comigo. Ofereci-lhe o exemplar. Quanto ao livro ter saído da Biblioteca a razão é simples e é semelhante ao facto de lhe ter oferecido um exemplar: os estudantes africanos tinham fracos apoios das instituições portuguesas e dos respetivos países de origem e os funcionários tentavam ajudá-los tanto quanto podiam, como eu o estava a fazer ao oferecer-lhe o livro.
O livro escolhido desse ano foi o livro de René Passet, A Ilusão Neoliberal – O Homem é Joguete ou Actor da História? E René Passet veio à FEUC fazer uma conferência, no âmbito da disciplina de Economia Internacional. Veio gratuitamente, sublinho. Eu e a minha colega Margarida Antunes fomos buscá-lo à estação, a Coimbra B. Era identificável pela sua boina basca. A seguir fomos almoçar, a um restaurante de nível médio. Imaginemos que tenha sido a Via Lusitânia. Numa outra mesa estava um colega meu. Por delicadeza convidámo-lo a sentar-se na nossa e sentou-se. E. lamentavelmente, face a uma figura de relevo intelectual, o meu colega passou a almoço a falar do seu interesse por cães. Senti-me envergonhado. Do último livro de René Passet, da sua obra, da sua vida de homem de esquerda nem uma só palavra naquele almoço. E este meu colega, era daqueles que defendia que nos deveríamos adaptar aos alunos que temos e não o inverso, e não a obrigação de fazermos de tudo o que nos for possível para que os estudantes se adaptem ao que deles, nós e a sociedade, devemos esperar. Duas posições antagónicas, a do meu colega que sabia muito de cães e para quem ser professor é um emprego a desempenhar com o mínimo possível de chatices enquanto a nossa posição significa que ser professor é sobretudo assumir perante tudo e todos que a sua prática académica se pauta por um espírito de missão. Parafraseando os professores Jack Liddell e Walt Hunter na base de um poema de Walt Withman e em textos publicados na nossa série diremos: deixemo-nos de parar onde os estudantes estão, passemos a parar um pouco mais à frente e esperar que eles nos alcancem. Esta foi sempre a minha prática académica, o que se ilustra com o caso de Economia Internacional acima exposto.
Citando para o efeito o poeta Walt Withman em Song of Myself poderemos dizer que com ele se rejeita a posição do meu colega, e se defende elegantemente a minha posição, sendo que pelo autor essa posição é descrita de uma forma muita bela, que eu nunca seria de capaz de escrever, mas sou capaz de a sentir e tenho-a sentido ao longo da minha vida. Diz-nos Walt Withman:
Failing to fetch me at first keep encouraged,
Missing me one place search another,
I stop somewhere waiting for you.
Chegados aqui, cabe-me dizer que profissionalmente a postura da Margarida Antunes como docente não é em nada diferente da minha e, portanto, a lógica do poema de Walt Whitman aplica-se-lhe igualmente a ela ou, talvez com mais força de razão, se aplique mais a ela que a mim. Porquê o talvez? Porque eu saí da FEUC em 2012 e aquele mundo mudou muito, muitíssimo mesmo até agora, mas para muito pior e numa evolução que se acelerou com a reforma de Bolonha e piorou depois por outros desarranjos que se fizeram até ao insulto científico com o seu novo plano de curso de Economia. Nestes desarranjos brilham disciplinas como. Responsabilidade Ética e Sustentabilidade e uma outra dita Projeto Integrador, esta a valer por duas disciplinas normais. Do meu ponto de vista isto são disciplinas de nada e disciplinas de nada só se aguentam com a atribuição de notas altas aos alunos. Isso é verificável, mas isto é a técnica a que muitas vezes assisti ao longo de quase 40 anos de docente. Se foi sempre assim, porque é que não o há de ser agora onde o facilitismo é muitíssimo maior. Os nossos textos da série, tomando os EUA como referência, falam-nos do declínio da cultura e um declínio tão forte que se começa a falar em morte da cultura.
O trabalho sério que era feito na FEUC era bem aceite e havia muita consideração por ele pela parte dos catedráticos mais velhos, fossem eles Romero de Magalhães, José Veiga Torres, Boaventura de Sousa Santos, Teresa Pedroso Lima, José Reis, Pedro Ferreira. Toda esta gente séria saiu e o que ficou foi a carreirismo mais desenfreado que alguma vez vi numa instituição universitária. Até se concorre ao lugar de catedrático de uma área onde não se é formado! O peso dos catedráticos de aviário faz-se agora necessariamente sentir e o pêndulo virou para o sentido inverso já referido.
Tem-se dúvidas disso? Vejam-se as equivalências dadas na transição de planos de curso de Economia, 2022-2023. Mais ainda, veja-se se se confirma a evolução das notas. Veja-se também a instabilidade do serviço docente de quase todas as mulheres docentes na área de Economia ao longo destes últimos três anos. Portanto, o trabalho sério, profundo, dedicado como no meu tempo de FEUC, o espírito de missão, é hoje ostracizado e de que maneira. Manter esse espírito hoje, e a Margarida Antunes mantém-no, é muito mais difícil do que era no meu tempo, para mim e para a equipa que trabalhava comigo, a Margarida Antunes e o Luís Peres. Percebe-se o uso da proposição talvez .
Como vos disse anteriormente, estou a preparar uma série muito longa sobre A crise civilizacional e crise do ensino num mundo em profunda policrise. Um dia destes começarei a editá-la e dentro dela está a transcrição de dois programas de rádio do The Atlantic sobre a importância de ler livros na juventude.
Uma grande parte da série que será editada está ligada à leitura, aos mecanismos mentais da aprendizagem a ler, e uma outra parte da série é dedicada à análise da situação atual em que os estudantes não leem, o contrário que foi a vida de adolescentes dos jornalistas de The Atlantic que nos falam de livros que leram enquanto adolescentes.
A série desenvolver-se-á de acordo com a seguinte estrutura:
A crise civilizacional e a crise do ensino, num mundo em profunda policrise
I. Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
II. A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para
III. Da educação da infância à de jovem adulto. O grande fiasco das sociedades atuais
IV. Linhas de resistência e de mudança- relembrar e reaprender com o passado
V. A crise da Universidade, com a sua dissolução dos saberes, a expressão máxima da crise na Democracia


