CARTA DO RIO – 81 por Rachel Gutiérrez

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Ah! como eu invejo o meu colega argonauta José Magalhães, que pôde escrever sobre a beleza do outono em sua maravilhosa cidade, na Carta do Porto do dia 12 . Dizia-se antigamente uma “santa inveja”, com medo do castigo talvez. Mas o castigo aqui chegou antes. Aqui temos duas catástrofes devastadoras, se é que catástrofes ainda precisam de adjetivos. Numa delas já falei e é terrível constatar que não foi exagero tê-la qualificado como a maior tragédia ambiental da nossa história e uma das maiores do mundo. Leio agora, na Folha de São Paulo: O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, da Vale e da BHP, é o maior desastre do gênero da história mundial. Considerando o volume de lama vazado (50 a 60 milhões de metros cúbicos) o percurso atingido (600 quilômetros) – maior do que a distância do Rio de Janeiro a São Paulo – e o prejuízo estimado (US$5,2 bilhões), não há evento de maior gravidade registrado em 100 anos de mineração no planeta. E leio a seguir: …as empresas não estão alterando significativamente suas práticas para evitar novas tragédias. Por quê?

“Em uma palavra: dinheiro. Para minimizar custos, escolhem métodos econômicos. É possível construir barragens mais seguras. Para isso é necessário colocar a segurança antes do custo como prioridade.” Foi o que afirmou o geofísico David Chambers, em entrevista à Folha.

Para isso seria preciso colocar os seres humanos como prioridade. Para isso seria preciso olhar para os rostos dos ribeirinhos e trabalhadores agora sem futuro, rostos de infinita tristeza, que espelham suas esperanças transformadas em rejeitos carregados pelo tsunami da ganância e da irresponsabilidade criminosa, assassina.

O Outro e o Rosto, temas tão caros a Emannuel Lévinas e retomados por Zygmunt Bauman em O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Enquanto não enxergarmos o Outro, enquanto não formos capazes de ver o rosto do Outro, e esse Outro que é também a Natureza, nossa humanidade continuará sendo arrastada para o abismo e para a morte do futuro. De tudo. Do Planeta. Da Vida.

Numa entrevista de Marina Silva concedida à Ruth de Aquino, na revista Época de 7 de dezembro, ao responder à pergunta se é preocupante a falta de fiscalização de barreiras no país, a ex-senadora e ex-ministra do Meio-Ambiente disse que temos verdadeiras bombas. Que “entre as quase 15mil barragens, somando todos os reservatórios, só 432 passaram por vistoria em 2014 e pelo menos 1.129 deveriam ter plano de emergência,  mas só 165 têm. Para um empreendimento ser licenciado, deveria haver uma avaliação ambiental integrada e estratégica.” Mais adiante, acrescentou:

Ficamos perplexos quando uma pessoa põe uma bomba no próprio corpo e explode. Aí, alguém bota uma bomba no seio da terra, a bomba agindo ali devagarzinho, um dia você está dando aula, cuidando do filho, plantando, trabalhando, fazendo almoço, e a bomba explode. Vira um desastre natural?

 

E como se o desastre de Mariana não bastasse, temos agora outra bomba que já começou a explodir e não sabemos quantos inocentes vai deformar ou matar. Trata-se da epidemia provocada pelo zika vírus, que  é transmitido pela picada do mosquito Aedes egypti, o mesmo que transmite a dengue e a febre chikungunya. A dengue e a chikungunya, porém, não preocupam tanto quanto a zika porque já foi confirmado que é o vírus desta o responsável pelo aumento do número de casos de microcefalia no Brasil.

 A microcefalia é a má-formação congênita de bebês que nascem com o perímetro encefálico menor do que 33 centímetros, quando o cérebro não se desenvolveu corretamente e, como consequência, o recém-nascido pode morrer ou apresentar sequelas graves, tais como cegueira, surdez ou retardo mental. Moléstia que pode ser causada pelo uso de substâncias químicas pela gestante, exposição à radiação ou por sífilis, toxoplasmose e rubéola. Agora, o aumento brusco do número de casos vem sendo atribuído ao zika vírus.  “A partir da análise de sangue de um bebê morto no Ceará, os pesquisadores chegaram ao que o Governo brasileiro chamou de uma situação inédita na pesquisa científica mundial”, de acordo com notícia divulgada pelo jornal espanhol El País, (que circula em português entre nós, desde 2013). Em anos anteriores, os bebês afetados não chegavam a 200 em todo o território, mas em 2015, até 8 de dezembro, já haviam sido registrados 1.761 casos. Secretarias estaduais e municipais, médicos e cientistas estão mobilizados principalmente no Nordeste, onde o surto é maior, mas a epidemia já se espalhou de forma alarmante por dezoito estados. E seus recursos são escassos, para a Saúde sempre há pouquíssimo dinheiro.

Que vai ser desse Outro, desse bebê que já nasce deficiente, cuja mãe e cujo pai se encontram totalmente desorientados e desamparados diante de uma tal tragédia? Que podemos fazer?

 Escreveu há alguns dias Míriam Leitão: Essas crianças e suas famílias carregarão, solitárias, o peso da nossa incompetência como país por anos a fio. Quando todos pararmos de falar do assunto, as famílias permanecerão sofrendo. Estamos tirando chance do futuro ao deixar, por desleixo, que um mosquito, que prolifera na falta de saneamento, atinja e fira irreversivelmente nossos bebês.

Enquanto os deputados discutem o impeachment da Presidente da República, e brigam entre si e se comportam como se decoro, compostura e diálogo não fizessem parte do jogo político, nenhum deles se lembra de abordar os problemas gravíssimos do país. Nenhum toma a tribuna para defender os que realmente sofrem. É urgente que também se fale nas necessidades básicas da população: no Saneamento, na Saúde, na Educação e na Segurança. Ninguém da Câmara ou do Senado parece reconhecer a importância e a gravidade das catástrofes ambiental e sanitária que nos afetam e desfiguram. Se algum tentar, não será ouvido. Penso de novo em Bauman e no seu livro Cegueira Moral. O país está parado, ou melhor, os políticos se agitam, sim, para conspirar, tomar parte em intrigas, e para se digladiarem, mas continuam no mesmo lugar sem nada resolver nem muito menos representar e defender a nós outros que os elegemos.  Amanhã, 13 de dezembro, é dia de manifestações e de passeatas. Tomara que o povo, nas ruas, consiga dar o seu recado.

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