O papa Francisco bem se esforça por dar à igreja católica romana, da qual é o chefe supremo, uma dimensão de humanidade-fraternidade. Quer a todo custo branquear a história de dois mil anos de cristianismo, o de Paulo-Pedro-Constantino, imperador de Roma. Neste sentido, acaba de protagonizar mais um dos seus muitos gestos protocolares que tanto agradam aos grandes media. No dia 17 deste primeiro mês do ano 2016, visitou a maior sinagoga de Roma. Uma visita tecida de boas maneiras, de parte a parte, com os respectivos chefes vestidos com aquelas roupas que os segregam dos demais seres humanos. De um lado, o papa, todo de branco, incluído o inseparável solidéu, no cocuruto da sua cabeça; do outro lado, o chefe da sinagoga com um manto branco sobre a roupa escura e um solidéu preto, um pouco mais pequeno do que o do papa. No final daquela encenação-teatro, é visível em ambos o ar satisfeito de missão cumprida. Resultados apurados? Nenhum. Pior, solidificaram-se ainda mais as divisões que separam as duas fés religiosas, a judaica e a cristã, ambas bíblico-davídicas, nenhuma jesuânica.
Veio ao de cima, na consciência de cada um deles, sem nunca chegar a verbalizar-se, todos os ódios, saques, insultos, assassinatos, horrendos crimes cometidos de parte a parte, sobretudo, dos cristãos católicos romanos contra os judeus, durante estes dois milénios de cristianismo. E tudo, porque o cristianismo insiste em dizer que o messias/cristo já veio e é o salvador do mundo, enquanto o judaísmo continua a reclamar-se de o único povo eleito de Deus e ainda espera a chegada do messias/cristo. Com este diferente ser-pensar-escrever-falar bíblico, judaico, cristão, islâmico, cada um destes sistemas de poder quer o mesmo – ser o único dono e o único senhor do mundo, nomeadamente das mentes-consciências dos demais povos das nações, para, desse modo, eles serem salvos!!! Como se alguma vez o poder fosse via de salvação, quando é a via histórica mais eficaz de dominar-roubar-matar os povos das nações.
No discurso papal, na sinagoga, há uma referência à Shoah, o Holocausto, durante a II Guerra Mundial, “a mais desumana barbárie”, que custou a vida a “seis milhões de pessoas”. Faltou ao papa acrescentar que o chefe de semelhante barbárie, o alemão Hitller, chegou ao poder máximo na Alemanha, com o público apoio dos bispos cristãos e que o próprio Hitler é um dos filhos-frutos do cristianismo imperial, inicialmente fundado, na sala de cima do Cenáculo, por Pedro e Tiago, irmão de Jesus, pouco tempo depois da sua morte crucificada. Não houvesse cristianismo e não teria havido o holocausto. E, se houvesse, seria muito provavelmente de sinal contrário, concretamente, da responsabilidade do judaísmo, cujo Deus é “o Deus dos Exércitos”, o mesmo do Credo de Niceia-Constantinopla, omnipotente, omnisciente, omnipresente, o assassino por antonomásia, que está por trás de todas as guerras e de todos os terrorismos, só que com distintos nomes. Por isso, o inimigo n.º 1 dos seres humanos e dos povos, em nome do qual Jesus, o filho de Maria, camponês judeu de Nazaré, é crucificado. Porque, na sua omnifragilidade humana desarmada, é o primeiro e o último ser humano da história a ver que semelhante Deus é um ídolo, o ídolo dos ídolos, nos antípodas do Deus que nunca ninguém viu e se nos dá a conhecer nas suas próprias práticas políticas-económicas maiêuticas.
Nunca o papa de Roma poderá conhecer-acolher, menos ainda praticar, o Deus de Jesus, a Omnifragilidade absoluta. Papa e Deus de Jesus são de todo incompatíveis. Mesmo que Francisco desistisse hoje de papa, seria sempre, como clérigo no grau máximo, um seguidor e praticante do Deus do judaísmo, o da Bíblia, nunca de Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus, e que nele se nos revela, tanto quanto é possível aos seres humanos conhecer-praticar Deus. Neste tipo de mundo judeo-cristão-islâmico, hoje, em versão laica, secular, o mundo do poder financeiro global e armado, é estruturalmente impossível acolher-praticar Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus. Só se tivermos a audácia de vivermos nele, sem nunca, em momento algum, sermos dele. Ou, dito em linguagem evangélica, jesuânica, não bíblica, nem judeo-cristã-islâmica: se tivermos a audácia de vivermos permanentemente em deserto. O que faz de quem protagoniza esse ser-viver, um Ninguém, um Maldito, um Não-existente, como historicamente aconteceu e continua ainda a acontecer com Jesus, o filho de Maria.
Esta visita do papa à maior sinagoga de Roma remete-nos, de imediato, não para idênticas visitas dos seus dois imediatos predecessores, Bento XVI e João Paulo II, mas para a visita de Jesus, o filho de Maria, em meados do ano 28 desta era cristã, à sinagoga de Nazaré. O Evangelho de Marcos, o mais antigo dos 4 Evangelhos canónicos, e o Evangelho de Lucas registam, cada qual a seu modo, essa ida de Jesus à sinagoga de Nazaré, onde ele próprio se havia criado. A mais antiga das duas narrativas, ambas antropológica-teologicamente escandalosas, pelo que nos revelam de rejeição total e absoluta de Jesus, por parte dos presentes, familiares e antigos vizinhos e conhecidos, incluídos, é a de Marcos. Mas a de Lucas, posterior à de Marcos, é a única a revelar-nos o mais trágico resultado final da ida e da intervenção de Jesus na sinagoga de Nazaré, a aldeia onde se havia criado. Concretamente, o da sua expulsão, seguida da frustrada tentativa de o levarem a um monte alto, com o objectivo de o precipitarem daí abaixo e o matarem. Tal o escândalo que o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus que Jesus é entre nós e connosco e que verbaliza lá dentro!
Nem mesmo os familiares, mãe incluída, se revêem nesse Evangelho ou Boa Notícia Deus, o de Jesus, muito menos se revêem no Deus que nunca ninguém viu e nele, pela primeira e última vez, se nos dá a conhecer, nomeadamente, nas suas práticas políticas maiêuticas e nas suas palavras, cheias de Sabedoria-Fragilidade humana desarmada, não de Saber-Poder armado e financeiro.
Abramos, pois, o Evangelho de Marcos, 6, 1-6 e o Evangelho de Lucas 4, 16-30 e deixemo-nos surpreender. Só podemos concluir que, entre a ida do papa Francisco e dos seus dois imediatos predecessores à maior sinagoga de Roma e a ida de Jesus à sinagoga de Nazaré, a aldeia da Galileia, onde havia nascido e sido criado, há um abismo intransponível. O mesmo que existe entre o Deus dos papas, o mesmo do judeo-cristianismo-islamismo (Bíblia e Alcorão), e o Deus de Jesus. Bem se pode dizer que são duas realidades paralelas que nunca se encontram.
Na narrativa de Marcos, Jesus surpreende tão negativamente os familiares e os antigos vizinhos que o viram crescer, que eles se perguntam: “Não é este o camponês-carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” E na de Lucas, os mesmos concidadãos de Jesus querem pura e simplesmente matá-lo, na hora!
Acordemos. Afinal, são três mil anos de “civilização” que têm de ser deitados fora, como se faz ao sal que deixa de salgar. Mil anos de judaísmo, mais dois mil anos de judeocristianismo e, a partir do século VII, desta era cristã, também de islamismo. Urge nascermos da mesma Ruah ou Sopro/Espírito maiêutico de Jesus. Urge mudarmos ontologicamente de ser e de Deus, sermos outras, outros Jesus, agora, terceiro milénio adiante, a base duma civilização outra, plena e integralmente humana, sororal, vasos-comunicantes. Na qual não há mais lugar para a existência de papas, nem de religiões, nem de poderes, apenas seres humanos e povos iguais e distintos, indissoluvelmente unidos, a plena fraternidade feita realidade histórica irreversível.