Porque no mundo mengou a verdade,
punhei un dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: – Alhur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que non podemos en novas haver,
nem já non anda na irmaindade.
Airas Nunes
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Resulta extraordinário o cinismo do mundo cultural, político e académico galego. Após quase 40 anos de derrotas e despropósitos, o galego como língua oral normal encontra-se à beira da desaparição nas cidades, permanecendo como língua socialmente marcada no espaço vilego e rural em que ainda se conserva.
Afastado do português, de Portugal e da cultura dos países lusófonos e com o banimento das perspectivas, modelos defendidos pelo reintegracionismo, além da conseguinte censura de textos, espaços, projetos e pessoas, não é muito o benefício logrado.
Consequência ou não, resulta evidente o fracasso da política institucional e académica no relativo à construção dos espaços linguísticos nobilitadores, dos programas educativos re-alfabetizadores e do tecido cultural e editorial necessário para regenerar os modelos de língua culta.
Décadas depois os frutos desta censura, perseguição e exílio, computável na destruição de textos, carreiras profissionais, académicas e de obras e projetos não desenvolvidos, são evidentes. Evidente é também o clima de conflito prolongado por décadas e com numerosas cicatrizes e custos pessoais e grupais.
A divisão e frustração do coletivo, completa-se com uma memória danada que se debate entre esquecer e reivindicar as posições enquanto às novas gerações de galeguistas e ativistas tratam de construir no presente o que não podia ser no passado.
Com um reintegracionismo emergente e esperançado todavia minoritário e um isolacionismo em retirada e desesperançado no controle das instituições e do aparato político e cultural, a Galiza apresenta a fasquia de uma ruína desmoronada na que os habitantes combatem pelos restos, enquanto o conjunto é rodeado por um mar envolvente de castelhanização e destruição cultural sem precedentes.
Neste conjunto os discursos sobre a “lusofonia” como valor e os apelos à celebração do Centenário das Irmandades da fala, resultam tão ridículos quanto cínicos, uma mostra apenas desse mundo artificial e pouco profundo que por décadas serviu de pantalha à mais absoluta falta de sentido, organização, programa e proposta.
