Faltam poucos dias para a grande conferência de 25 de fevereiro em que se dará o primeiro encontro da nova administração da Câmara Municipal sobre a difícil questão do trânsito aquático, tendo em vista a aprovação de um novo Plano que o regulamente. Pois se é verdade que Veneza não tem carros, não é igualmente verdade que não tenha trânsito, como um olhar minimamente atento pode comprovar passando pelo Grande Canal ou em frente à Praça de São Marcos. Transporte de passageiros e mercadorias, ambulâncias, polícia e bombeiros: tudo passa pela água.
São várias as categorias profissionais tocadas pelo assunto e às quais o Presidente da Câmara Luigi Brugnaro pediu para expressar um parecer, em particular condutores de táxis, gondoleiros e transportadores. Há quem peça para eliminar as portarias que limitam a passagem por baixo da ponte de Rialto, proibindo o trânsito aos barcos a motor em certas faixas horárias; há quem aponte para a dificuldade de acesso e peça novos desembarcadouros; os gondoleiros apenas solicitam maior fiscalização para que as normas vigentes sejam cumpridas.
O quadro regulamentar da viabilidade veneziana tem-se complicado nos últimos anos, após o aumento considerável de barcos, viagens e velocidade média, originado pelo surto dos fluxos turísticos. A situação caótica determinou a necessidade de garantir maior segurança, sobretudo na sequência de um acidente ocorrido em agosto de 2013 perto da ponte de Rialto, que envolveu uma gôndola e um vaporetto e ocasionou a morte de um turista alemão e o ferimento da filha. Evidentemente que o impacto mediático do caso desencadeou um forte debate interno e despertou consciências relativamente ao descontrolo em que o trânsito aquático tinha caído.
Mas o trânsito intenso também constitui um perigo para a própria sobrevivência de uma cidade tão delicada como Veneza, fragilizada pelo movimento das ondas levantadas pelo vaivém dos barcos motorizados e a erosão dos alicerces dos edifícios e das margens dos canais. Não se pode esquecer, ainda, o problema da poluição devido ao grande consumo de combustível que o trânsito pela rede de canais implica, agravado pela falta de uma fiscalização eficaz da velocidade dos meios de transporte; a fiscalização, de resto, é complicada pela diversificação dos limites impostos às diferentes categorias de embarcação e nas diferentes áreas da rede de canais e no resto do espaço navegável (uma diversificação que atualmente vai dos 5 aos 20 quilómetros por hora, com várias possibilidades intermédias).
É pena que a pressão do turismo esteja, mais uma vez, a ameaçar a cidade e, ao mesmo tempo, a impedir os próprios venezianos de manter, por exemplo, a tradição de viver a cidade deslocando-se privadamente de barco. Não é por acaso que a cidade tem a gôndola entre os seus símbolos e que os palácios nobres tradicionalmente contavam com uma “porta de água” muito mais importante do que a entrada por terra.