Chamava-se Germano da Fonseca Sacarrão, para decifrar o nome “G.F. Sacarrão”, com o qual o professor assinou as centenas de títulos de artigos e livros científicos que constam do seu currículo. Teremos nós, que promovemos esta homenagem, alguma relação colegial com o biólogo?
Talvez, a despeito da atividade literária e editorial em que se movem acima de tudo os seus dois amigos que promovem esta homenagem. Além da amizade, houve um magistério, próprio não daqueles que muita informação transmitem, sim dos que sabem passar o conhecimento através do exemplo, do desafio intelectual, da partilha de valores culturais e até do riso – ele gostava de contar anedotas.
Tão próximos que somos do Surrealismo, algo teremos enviado dele para o mestre em embriologia, evolucionismo, ornitologia? Talvez. Talvez um fruto da rebeldia ou do acaso objetivo, algo como a surpreendente história da Pêga-azul, uma espécie asiática, confinada na Europa a um híbrido perímetro luso-espanhol na zona de Barca d’Alva. Quanto menor o espaço habitado, maior o valor científico das espécies, no paradigma evolucionista. Tanto valor tinha a Pêga-azul, Cyanopica cyanus, que deu nome a uma importante revista científica, a Cyanopica.
Tal como o Celacanto, kafkiana personagem do conto homónimo de Herberto Hélder, os lagartos gigantes de Cabo Verde, a nossa salamandra preta (Chioglossa lusitanica) e outras notáveis espécies, a Pêga-azul, já depois da morte do seu biógrafo, ou ornitólogo, para sermos mais rigorosos, escapou à prisão dos modelos darwinianos e explodiu demograficamente para Sul, tornando-se uma praga. A libertina perdeu todo o valor que lhe fora concedido pela comunidade científica.
Eis um destino surrealista que decerto o Prof. G.F. Sacarrão, democrata e bem humorado cidadão, teria partilhado connosco e não o inverso, na expectativa de uma bela risada, ele que, sendo evolucionista, nunca deixou de criticar o Evolucionismo, sempre que a isso obrigavam exageros do neo-darwinismo ou escândalos como o de Trofim Lysenko. Afinal, quem sabe qual a origem desta surrealidade?
Não nos esquecemos dos mestres e ainda menos dos bons amigos. Quando a lembrança é boa, todas as ocasiões são boas para os homenagearmos.


