A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 2. O PROBLEMA DA CRIAÇÃO MONETÁRIA PARA QUEM NÃO SABE DESTAS MATÉRIAS, por ANDRÉ-JACQUES HOLBECQ – I

Falareconomia1 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

André-Jacques Holbecq
André-Jacques Holbecq 

André-Jacques Holbecq, La création monétaire pour les nuls

Societal.org, 21 de Abril de 2009

 

(Extraits de « Économie monétaire et financière » Collection Grand Amphi, ed Bréal, page 55 et suivantes)

Os bancos primeiro criaram  moeda sob forma fiduciária.  Hoje, esta criação assume muito  maioritariamente a  natureza  de moeda escritural, e implica relações cruzadas entre bancos comerciais.

1 – A origem histórica do processo: a aposta bancária dos ourives londrinos

Os economistas admitem geralmente que o processo de criação monetária  bancária teria aparecido por volta de meados do século  XVII , quase simultaneamente em  Estocolmo, com a emissão de bilhetes de banco por Palmstruch e em  Londres, com a transformação progressiva dos ourives (os  Goldsmiths) em banqueiros.

Ainda que esta tese assente sobre dados históricos às vezes superficiais, é contudo particularmente interessante do ponto de vista analítico, quando se procura perceber o cerne  da criação monetária.

Em 1640, o rei Carlos  Iº, perante as  graves dificuldades financeiras com que se debatia, mandou apreender os lingotes de ouro e o  dinheiro depositados na Torre  de Londres (então Casa da Moeda ). Os mercadores da cidade reagem imediatamente transferindo os seus metais preciosos, sob a forma de lingotes, de pó ou em  peças, e outros objectos de valor, em refúgios considerados como mais seguros, as lojas de ourives. Recebem então, em contrapartida, um  recibo nominal  detalhado, que lhes permite recuperar em  qualquer momento (à vista, ou  seja sem nenhum prazo para levantar o euro ), depois de  terem  pago um direito de guarda módico pela  mesmos objectos que tinham depositado. A loja do ourives não é senão  o equivalente a um simples cofre bem protegido.

Uma curiosidade sobre o nascimento do Banco de Inglaterra

Guilherme  III da casa Orange-Nassau  controlava as Províncias-Unidas  (os Países Baixos em versão larga), a Escócia e a Inglaterra.

Tornado rei da Inglaterra em 1689, graças um casamento “de reconciliação” com Marie II da Inglaterra, envolveu-se numa  guerra marítima contra Luis XIV, aliando-se  com Leopoldo  1° do Santo Império germânico e equipando-se com uma frota invencível composta por  barcos ingleses e holandeses, os melhores da época. Luis XIV venceu-o com as suas conquistas por terra  e impôs-lhe o tratado de RYSWICK em 1697 ao mesmo tempo  que o  reconhecia  como  Rei da Inglaterra.

Com os cofres vazios , pediu um empréstimo de 1.200.000 libras  aos  ricos  comerciantes londrinos que criaram um consórcio privado e exigiram o monopólio de criação da moeda antes de lhe emprestarem o dinheiro : o Bank of England (BoE) nasceu assim em 1694, quebrando com uma tradição várias vezes milenário do direito real (poder de rei) “de cunhar  moeda”.

Contudo, estes ourives vão pouco a pouco transformarem-se em banqueiros de depósito, quando  os seus  recibos passaram apenas a  mencionar  o valor em libras  esterlinas dos  objectos na verdade neles  depositados. Este anonimato é importante, porque o reembolso pode fazer-se simplesmente pelo levantamento do valor  sobre o conjunto das reservas detidas pelo banco, “reserva” composta de elementos permutáveis. Além do mais,  a  partir de  1655, estes certificados de depósitos são criados cada vez mais frequentemente com valores arredondados e  ao portador. O depositante pode então entregar em pagamento directamente o certificado na sua posse, em vez a ser obrigado a ir  retirar as peças antes de as entregar a um seu credor  (com evidentemente a aprovação deste último). Por sua vez, este poderá à sua vontade, quer  utilizar este certificado como meio de pagamento, quer fazer-se reembolsar em espécies no momento e  no  lugar que deseje (os ourives londrinos dispõem então de uma larga rede de correspondentes em todo o reino e no estrangeiro). Estas duas inovações facilitam assim a utilização e a circulação dos certificados e em corolário contribui também para retardar a procura de reembolso  em espécies.

Num tal contexto, os certificados de depósitos não fazem contudo que compensar exactamente o montante em  espécies metálicas presentes nos cofres e retiradas da circulação activa. A massa monetária fica estritamente inalterada, somente  o aspecto material dos pagamentos é alterado, a circulação de papéis  substituem-se parcialmente à circulação metálica.

O balanço de um estabelecimento deste tipo assemelha-se a :

Balanço do ourives com cobertura integral:

Actif

Passif

Disponibilidades em espécies metálicas  : + 10000 £

Certificados emitidos : + 10000 £

Mas os ourives banqueiros vão aperceber-se de que o stock de metais preciosos não desce  nunca abaixo de certo limiar por duas razões:

– em virtude da lei dos grandes números, num  momento dado os depósitos e os levantamentos  compensam-se largamente, em que os  depósitos novos tendem a equilibrar os levantamentos.

– Os detentores dos certificados atribuem uma grande confiança aos ourives, de modo que pedem raramente a conversão.  Não serão sempre presentes para conversão todos os bilhetes que foram emitidos.

Uma cobertura metálica a  100% dos certificados tornou-se  inútil dado que uma pequena reserva (da ordem de um terço naquela  época) é suficiente para  fazer face aos levantamentos  imprevistos. Em vez  de conservarem  este ouro e este dinheiro que “dormem”, mais vale  portanto fazê-lo  frutificar. Em face deste dado, por volta de 1665, os ourives vão então começar a emitir certificados em troca de um título de dívida e não de um depósito em  ouro ou  dinheiro. O ourives entrega  ao seu cliente mutuário,  privado ou público, bilhetes na forma iguais uns aos outros.

Balanço do ourives banqueiro com cobertura parcial

Actif

Passif

Disponibilidades em espécie  + 10000 £
(são espécies imediatamente disponíveis):

Resultados previstos : + 20000
(reembolsáveis a prazo )

Certificados emitidos  : + 30000 £

O valor facial do conjunto dos certificados emitidos (30000 £) é doravante superior ao valor das existências metálicas detidas, a diferença  representa o valor da carteira de efeitos esperados (que figuram nos activos dado que o banco conserva nos seus cofres  estes reconhecimentos de dívidas). Há pois aqui  criação monetária dado que o volume de meios de pagamento disponíveis aumentou.

Do ponto de vista microeconómico, esta nova transformação da profissão de ourives assenta  sobre uma dupla aposta:

– sobre a solvabilidade antecipada do devedor. Um crédito irrecuperável desequilibraria o rácio entre certificados em circulação e reservas metálicas;

– sobre a ausência futura de qualquer procura  generalizada  de conversão de metal. Se todos os detentores de certificados solicitassem ao mesmo tempo o seu reembolso integral, o estabelecimento seria incapaz de lhes fazer face, dado que os efeitos constituem recursos não disponíveis antes do prazo de liquidação  (no caso de procura de conversão superior à normal mas que permanece limitada, é contudo possível recuperar espécies em curto espaço de tempo cedendo  os efeitos esperados aos seus  confrades).

  Do ponto de vista macroeconómico, a moeda torna-se progressivamente uma variável endógena do sistema económico (a sua criação resulta de pedidos de financiamento) e não a resultante do acaso como anteriormente (a quantidade de peças em circulação  dependia  da descoberta sempre aleatória de minas de ouro e de dinheiro). A moeda pode então ser definida como a dívida dos bancos que circula.

Se o princípio fundamental da criação monetária pelos bancos – emitir um crédito sobre eles mesmos que é aceite pelo público como meio de pagamento – está a funcionar  desde o fim do  século  XVII , em contrapartida as suas modalidades práticas mudaram mesmo muito. Por um lado o Estado tem intervindo muito rapidamente no processo (a partir dos anos 1720, as notas  do Banco da Inglaterra fundado em 1694 excederão  o total emitido pelos ourives bancários), seguidamente concedeu-se-lhe  o monopólio de emissão de notas  (em 1742 em Inglaterra). Por outro lado as notas ficaram inconvertíveis  (curso forçado). A criação monetária deixou assim de ter necessidade “do álibi” de uma cobertura ouro,  mesmo parcial, e tornou-se muito maioritariamente moeda escritural. Hoje para poder emprestar, um banco já não  tem mais necessidade de dispor de somas  antecipadamente depositadas.

(continua)

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Ver o original em:

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