Era uma vez um menino nascido num bairro de casas pré fabricadas com telhados de zinco ondulado…
Era uma vez um bairro de casas pré fabricadas com telhados de zinco ondulado que foi construído para servir de abrigo a quem vivia onde se construiu a ponte Salazar, agora 25 de Abril.
Este bairro nasceu para ser provisório e foi-o até 1998.
No bairro havia uma escola colada às casas.
A escola era o porto de abrigo de uma população pobre, marginalizada pela cidade.
A escola era o refúgio de muitos adultos, pais e mães de alguns alunos, quando havia rusgas da polícia, era o alibi perfeito. Estavam na escola por causa do filho…
Era um bairro com muitas crianças tornadas adultas à força. Com 7 anos tomavam conta dos irmãos mais novos, enquanto a mãe dormia depois de uma madrugada clandestina de prostituição.
Fugiam com a droga que era para vender, quando os polícias entravam nas suas casas. Iam ao domingo ver os pais que estavam presos.
Iam com baldes buscar água à bombas de incêndio quando não a pagavam, faziam uma “puxada” de electricidade quando não pagavam a electricidade.
Iam a Alvalade roubar nas lojas para depois venderem…
Eram crianças crescidas ao som do pontapé e do grito, à sua volta viam o desconforto de cada um.
Eram desconfiadas, não acreditavam em ninguém, sentiam que iam ser traídas.
Cresciam na rua, dormiam no chão, levavam pancada, morriam de overdose, traficavam droga, faziam pequenos assaltos nas paragens dos autocarros.
Mas um dia o bairro inteiro chorou, o bairro inteiro injuriou uma mãe que tinha ficado sem o seu bebé. O mesmo bairro fez as pazes com a mãe e chorou o seu desgosto. Não tinha sido por mal. O filho mais velho estava na escola e ela não tinha televisão.
O bebé chorava com fome sempre que ela queria ver a telenovela na casa da vizinha.
O bebé tinha fome, a mãe fez o biberon. A mãe abraçava o seu bebé num misto de afecto e de contratempo.
Aqueceu o biberon e deitou o seu bebé no sofá, rodeado de almofadas que o aconchegavam de um mundo que nunca chegou a conhecer… Aconchegou-o ainda mais , pôs-lhe o biberon na boca e fez com que as suas mãos pequeninas o segurasse, enquanto bebia o leite quentinho.
A mãe já volta.
A má da telenovela foi descoberta, amanhã saberia o resto…
Mas o resto não foi a má da telenovela. O resto foram lágrimas, gritos, insultos, apaziguamento e uma dor sem fim…
A mãe queria que ele estivesse sossegado a beber o seu leitinho, nunca pensou que o bebé se pudesse engasgar para sempre…
Era uma vez um menino, nascido num bairro de casas pré fabricadas com telhados de zinco ondulado, que não conheceu o mundo nem os meninos da sua rua.