NO LIMITE DA DOR. A TORTURA NAS PRISÕES DA PIDE. COORDENAÇÃO DE ANA ARANHA/ CARLOS ADEMAR – por MANUEL SIMÕES

livro&livros3

Este livro (Edições Parsifal, 2014) começou por ser um programa de rádio, na Antena 1, realizado por Ana Aranha, emitido semanalmente a partir dos começos de 2014. Foi um projecto que entrevistou diversas pessoas que passaram pela dura experiência das prisões da PIDE, as quais se dispuseram «a ir ao mais íntimo do seu sofrimento», partilhando-o publicamente.

image

Feitos os contactos, o programa contou com o relato de Aurora Rodrigues, Conceição Matos/Domingos Abrantes, Edmundo Pedro, Fernando Rosas, Georgina Azevedo, Helena Pato, Joaquim Monteiro Matias, José Luís Pinto de Sá, José Pedro Soares, Justino Pinto de Andrade, Luís Moita e Maria Custódia Chibante.

O “inquérito” não obedeceu a um esquema rígido, variando de acordo com os intervenientes, sem deixar de abordar o tema angustiante do “falar ou não falar” na polícia, tendo em conta situações traumáticas como foram os interrogatórios que pretendiam conduzir à humilhação e à despersonalização na expectativa de atingir o grau-limite da suportação física e psíquica.

No seu excelente prefácio, Irene Pimentel dedica a este tema uma reflexão pertinente sobre uma questão tão complexa que o programa radiofónico não quis evitar. É evidente que o comportamento depende de muitos factores, de formação ideológica em primeiro lugar, e abrange um quadro extremamente variável, desde os casos em que o limite para não falar seria a morte, até depoimentos em que os inquiridos resistiram à tortura física mas não à tortura psicológica. Do conjunto dos testemunhos, Irene Pimentel evidencia, portanto, «questões de carácter ontológico, de questionamento sobre a morte e a vida, a convicção e preparação política e ideológica e, em suma, acerca do comportamento do ser humano em situação-limite» (p. 11).

Além de historiar a criação da PIDE e do seu funcionamento (sem esquecer a colaboração de médicos e dos juízes nos tribunais plenários), Irene Pimentel aborda o problema dos interrogatórios consoante as classes sociais, a filiação partidária (os militantes do PCP e, mais tarde, os da FAP, por exemplo, sofreram violentíssimas torturas) e até a distinção de género, havendo modalidades específicas para os homens e as mulheres do Couço. E não esquece, partindo sempre dos depoimentos dos que sofreram na própria carne os vários tipos de tortura, a função dos torturadores como elementos de uma máquina submetidos a prévia aculturação até se transformarem no grupo de torcionários.

Todos os participantes do programa de Ana Aranha guardam sequelas de ordem orgânica e psíquica. E todos consideram que «a Revolução foi tão branda» que deixou impunes os pides e seus mandantes; não foram julgados e “acabaram reintegrados na função pública» (p. 29). Mas o programa radiofónico, agora transposto para livro,  teve o mérito de reavivar a memória dos portugueses, de modo a que tão nefandos crimes não caiam no esquecimento colectivo.

Os Autores, na “nota de abertura”, justificam a publicação em volume (ideia de Carlos Ademar) «para que a memória não se perca; pelo Homem e contra todas as formas de tirania» (p. 36). Parece-me apenas que, ao tentarem explicar os caminhos pós 25 de Abril, usam uma fórmula demasiado expedita que, sem dúvida, quer ser “politicamente correcta”: «Ventos de mudança sopraram fortes e todas as utopias pareciam possíveis, mas os mais pragmáticos levaram a melhor» (p. 33).

Leave a Reply