CONTOS & CRÓNICAS – IMUTABILIDADE – por CARLOS REIS

contos2 (2)

5 A

 

Estava ali a ver o “Expresso da meia-noite” e a ouvi-los – aos ilustres e às ilustres politólogos e politólogas presentes – a cagarem postas sobre o futuro Marcelo e a tecerem tretas sobre o passado Cavaco e ninguém, nunca nenhum deles se aproximou ou evocou (ligeiramente que fosse, em termos de carácter ou de “estilo” –  como eles gostam, eufemisticamente, de mencionar) a esperteza ardilosa do Marcelo ou a estupidez concreta e sólida do Cavaco.

Não. Parece que coisas destas – que são reais e de que toda a gente fala – só podem ficar pelos Cafés, pelas jantaradas ou pelos círculos mais íntimos. Quase como que no antigamente.

Se se pode, por exemplo, evocar a cultura do Marcelo, porque diabo é que não se pode invocar a ignorância congénita do outro, da cavacal figura? Com tantas provas dadas de uma idiotia, de uma boçalidade e de uma total ausência de humor ou inteligência, ao longo dos dez anos que o bom povo o não desmereceu (fora os anteriores) e nele se reviu – não se compreende que tão maviosas e distintas características não possam ser expostas, nestas pretenso-análises, nestes caricatos e contidos conciliábulos televisivos.

Não se pode. O nosso povo é sereno. E é de brandos e broncos costumes. A democracia de séculos de outros países nunca lhe entrou ou entrará nos hábitos nem no bestunto. Continuará a tratar os políticos por senhor doutor ou por senhor engenheiro, sua excelência o senhor primeiro ministro, sua excelência o senhor segundo ministro, sua excelência o senhor presidente da república (huf! Até cansa!) e a achar que “há coisas que não devem dizer-se”. Só falta o “vossa majestade”. Não. Nunca mudará.

Nem ao fim de noventa anos.

Carlos

1 Comment

  1. Excelente análise, com a qual concordo em absoluto. De facto, neste país, inclusive à esquerda, parece manter-se uma espécie de reverência pelas “boas maneiras” que, em seu tempo, a burguesia inventou, aprimorou e ornamentou, para tentar parecer-se com a “nobreza” ociosa, à qual sucedeu, pelo poderio económico e por fusão, e distinguir-se da “ralé” que rapava o prato e dizia “palavrões” (ui!)

Leave a Reply