CARTA DO RIO – 96 por Rachel Gutiérrez

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Recebi outra visita da Esperança, aquela menininha “de nada”, que costuma, num golpe de mágica, saltar do poema de Charles Péguy para conversar comigo. Desta vez, ela veio muito preocupada com o sentido da palavra Utopia. E me pediu uma definição bem simples, que explicasse também “para que serve a Utopia”. Ora, lembrei-me logo da belíssima fala de Eduardo Galeano, atribuindo a um seu amigo, o cineasta argentino Fernando Birri, a melhor resposta possível a essa questão. Resolvi rever, então, com Esperança, o vídeo que o youtube conserva. Mas antes, decidimos também saber quem era esse amigo de Galeano.

Descobrimos que Fernando Birri nasceu em Santa Fe (13/03/1925) e está com 90 anos! Estudou cinema na Itália e ao retornar à Argentina, tornou-se o “pai” do Novo Cinema Latino-americano.  Mas o que mais agradou à Esperança foi o nome que deram a uma retrospectiva de sua obra, no Festival Internacional de Cinema de Innsbruck (Áustria), que o premiou em 2008 :  “Sonhar com os olhos abertos”. E eu percebi no brilho dos olhos de Esperança que ela já estava começando a entender o que tinha vindo me perguntar.

Voltamos ao vídeo de Galeano e escutamos atentamente o que ele diz que Birri respondeu quando um estudante, em Cartagena, lhe perguntou para que serve a Utopia:

A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho 10 passos, ela se afasta 10 passos. Quanto mais eu a busco,  menos a encontro porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo. Boa pergunta, portanto – para que serve? Pois a Utopia serve para isto: para caminhar.

A menina Esperança, muito contente, bateu palmas e, olhando-me com especial cumplicidade, afirmou convicta: O Brasil precisa caminhar!

 – Sim, Esperança, respondo tristemente porque tenho a impressão de que ninguém mais enxerga o horizonte. Como diz, num artigo de hoje (27/03) o historiador José Murilo de Carvalho: “Entramos de novo em enlouquecida marcha de insensatez que exclui o diálogo e a negociação. Os adversários não têm mais nomes, mas apelidos insultantes: são petralhas e coxinhas, corruptos e golpistas; o vocabulário comum está a desaparecer: impeachment, procedimento legal para afastar governantes, virou golpe; (…)”

E o filósofo Márcio Tavares do Amaral ontem (26), escrevendo sobre o mar e a praia, dizia belamente: “Se é a areia quem fala, a maré baixa é a verdade da praia. Se são as águas, a maré cheia é a verdade do mar.” E adiante, preocupado com nosso país de agora: “Quando olhamos para o Brasil, hoje, encontramos tudo branco no branco ou preto no preto. (…) O problema é que preto no preto não se lê. Nem branco no branco. (…) O mundo perdeu o ritmo. As marés ficaram suspensas. Não há mais abraço do mar à terra. Quando o mundo para assim, a paz acaba, a guerra vem. Duro e aterrorizante que seja, é preciso reconhecer: estamos em guerra. E não era preciso.” Perdeu-se a possibilidade do diálogo, perdeu-se o que anima a caminhada. E a chamada do artigo de Cacá Diegues, o cineasta, neste domingo é: Se não começarmos a domar nosso ódio por quem não pensa como nós, em breve estaremos nos matando em nome dos temas de nossa crise.

Em um discurso para sindicalistas (“petralhas”) o ex-presidente Lula, na quarta-feira (23) fez um apelo para que cobrassem do Juiz Sérgio Moro informações sobre “prejuízos” que as investigações da operação Lava-Jato estariam causando à economia. Isso é o que se chamaria colocar uma lenha muito suja na fogueira. E uma distorção da verdade que só não vê quem não quer. Como já se disse, é como se culpássemos o médico pelo câncer do paciente.

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No entanto, além de repetirem tolices como essa, alguns defensores de Dilma e Lula insistem na tecla de que o impeachment é um golpe e um atentado à Democracia.  E não conseguem entender quando, por exemplo, o presidente da OAB, (Ordem dos Advogados do Brasil), Claudio Lamachia, explica que “impeachment é o remédio jurídico da nossa democracia”. E acrescenta: “Nossa instituição (a OAB) defende e pratica a democracia e chegou a uma decisão quase unânime com relação a um tema (impeachment) extremamente delicado.” E respondeu a um jornalista que  lhe fez a pergunta  (em 27/03) :  “Defensores do governo comparam o impeachment a um golpe, qual a sua opinião?”  – “Acho a comparação totalmente descabida. (…) Quando se busca questionar a própria lisura de um processo de impeachment, está se desconhecendo a Constituição.” E quando o jornalista menciona as críticas do ex-presidente à Lava-Jato e ao Poder Judiciário, diz: “(…) Temos de acreditar nas nossas instituições. O que cabe ao Poder Judiciário, seja de Curitiba ou do STF, é dar respostas céleres e julgar de forma isenta esses processos e nos termos da Constituição.”

 Na carta enviada pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, na terça-feira, 22 de março, a mil e duzentos procuradores, lê-se o seguinte:

“Esse belo trabalho (Lava-Jato) – estou convicto disso – tem as condições necessárias para alavancar nossa democracia para um novo e mais elevado patamar se, e somente se, soubermos manter a união, a lealdade institucional, o respeito à Constituição.”

Esperança, com sua sagacidade de menina e com sua fé no futuro, se adianta e exclama: Tudo isso ressoa como um anúncio da “caminhada” que a Utopia inspira e guia: “esse alavancar da nossa democracia para um novo e mais elevado patamar.” E insiste: Não está aí um horizonte que ajuda a caminhar?

Menos confiante do que ela, volto a me entristecer quando leio Artur Xexéo, colunista do Segundo Caderno de domingo, porque já sofri pelo mesmo motivo: “Gente que dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimiga. Um muro foi erguido para me separar desses amigos. (…) Como, do lado de cá do muro, me decepcionei com o ex-líder operário, o lado de lá deu pra dizer que sou de direita.”

E Xexéo termina seu artigo com palavras que eu também assino:

“…para encerrar, roubo dos petralhas sua palavra de ordem: sinto muito, mas não vai ter golpe. Sérgio Moro vai ficar. “

Esperança, então, completa: Para que se possa caminhar!

3 Comments

  1. Acumulo vários ex-amigos também. Estavam comigo nas passeatas dos anos de chumbo e nas da Diretas Já. Hoje em dia, quando falam, mal os reconheço.

  2. Pois. E num país onde tudo é branco sobre branco e preto sobre o preto e o ódio se inscreve no preto e no branco, a OAB é neutral, objectiva, a sua “opinião” constitui a tão esquiva “verdade absoluta”? Os advogados não pertencem maioritariamente (e inevitavelmente, chatice) às “classes dominantes”?
    Independentemente do que penso sobre o que se passa no Brasil e dos pecados a que nenhuma força política parece escapar, onde o maior perigo político parece vir de uns novos fanáticos, chamados “evangélicos”, indubitavelmente reaccionários e civilizacionalmente retrógrados, que facilmente atraem uma população maioritariamente pouco formada e informada, haverá alguma intervenção pública que não assuma a defesa de um dos “lados”. Até agora, não vislumbrei nenhuma.
    Já agora: estou farto do “impeachment”, que eu saiba, palavra inglesa, muito usada nos EUA (será mero acaso, a importação?). Ninguém sabe traduzir a inglesice para português? E pensava eu que o Brasil era menos provinciano que Portugal…

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