
Nenhum ser humano há que não tenha sido vítima ou que esteja livre deste companheiro, que é o medo. Desde os primeiros anos, desde o início de período de consciência, se defronta a criança com tão enigmático sentimento que lhe provoca estranhas reações de angústia, de alerta, de luta ou de paralisia. É como se fosse inerente à própria condição existencial. E prossegue pela vida do adulto, sempre lhe acompanhando em maior ou menor grau, às vezes que que ele se liberte desse mal completamente.
Afirmei, anteriormente, que a dor, tanto física quanto psicológica, é UM AVISO, um alerta de algo está errado. De forma um tanto parecida, o medo tem atuado como um protetor, mas de modo e num conjunto um pouco diversos. A analogia não é perfeita em ambos os casos. Analisemo-lo:
Desde os primórdios tinha o homem que enfrentar a diversos inimigos desconhecidos e condições físicas que atentavam contra a sua existência. Assim, criou seu próprio espírito e proteção para que pudesse sobreviver, incorporando na consciência um sentimento arraigado, vindo das profundezas da alma, sujeito a transmissões através de genes, cujo elemento protetor herdamos. Para que pudesse sobreviver, era necessário estar precavido contra os elementos contrários da natureza. Assim, durante a noite tinha que se prevenir contra animais ferozes, que estavam prontos para devorá-lo. Como não enxergava no escuro, a noite era-lhe sempre uma desconhecida. Foi assim que nasceu o medo do escuro, onde tudo podia acontecer. O medo uma defesa, o medo um alerta, o escuro uma incógnita. Mas foi um estado de consciência necessário à sobrevivência da raça humana, colocando em alerta as suas faculdades de defesa. As demais formas naturais de medo, como de cair de um precipício, ou do trovão ou de quaisquer outras manifestações da natureza têm o mesmo sentido: o de proteção. Observe como o medo coloca a pessoa em atitude de luta, tornando-a ou agressiva ou cautelosa. Ele, portanto, foi necessário em determinado estágio da evolução da humanidade para que ela subsistisse.
Algo, porém, ocorreu com esse sentimento: de benéfico, passou a tornar-se nocivo, quando o ente humano transpôs determinada fase de seu desenvolvimento e quando já não mais era necessário para a continuidade da espécie. Foi quando passou a dominar a natureza, a subjugar os animais, a dirigir o curso dos rios, a regular as plantações e a colheita e a obter o domínio dos alimentos. Passou a predominar no homem um outro tipo de temor: o medo de seu semelhante. O receio envenenou-lhe os sentimentos, aumentando a contaminação que possuía.
A emoção não pensa e nos acostumamos a ver perigo por toda a parte, quando julgamos que algo ou alguém possa ferir-nos, ou seja, uma ameaça à nossa integridade física ou até mental. Exemplo moderno do acima exarado, são os refugiados das guerras na Europa e do Oriente Médio que, presentemente, estão acobertados e disseminados por diferenciados países do Velho Mundo: se ouvem o ronco do motor de um avião sobre suas cabeças ou um som sibilante não identificado, sentem, instantaneamente, arrepios por todo o corpo.
Medo é muito mais do que sentimos, quando borbulha o suor na testa, quando as mãos tremem, os joelhos batem um no outro, quando há um vazio na “boca do estômago”, quando todos os músculos ficam tensos, quando sentimos um arrepio na espinha, uma secura na garganta, quando, enfim, pensamos na possibilidade de PERIGO IMINENTE, parecendo cair sobre nós os temores que fazem as tripas se mexerem sozinhas. Estamos sob uma situação de medo, são enviadas mensagens ao nosso cérebro, dando-lhe conta desse receio. Mas isso é apenas parte da emoção total, pois confundimos esse processo com o estímulo aos nossos sentimentos, não entendendo que essa é a maneira que o nosso organismo reage ante a algo que nos faz sentir a apreensão, envolvendo -mesmo até- o nosso espírito.
Mas a emoção de perigo não representa, necessariamente, o medo. Para alguns, como os desportistas radicais, é a adrenalina, o combustível, o desafio para fugirem da rotina.
Não devemos, porém, confundi-lo com a NEUROSE, que, para FREUD, provém de complexos sexuais que remontam à infância; para YUNG, trata-se, geralmente, de perturbações do desenvolvimento da personalidade. Ao lado dessas grandes perturbações do psiquismo, observa-se, também, as perturbações menores que caracterizam as “personalidades neuróticas”: na hipocondria, o sujeito preocupa-se com a saúde; na impotência ou na frigidez, é incapaz de experimentar os prazeres normais da sexualidade; na depressão, abdica diante das dificuldades da vida.
Muitos dos nossos temores nada têm a ver com o perigo físico, e, mesmo sem sofrer um desequilíbrio nervoso, vivemos, quase sempre, sob uma tensão nervosa por nós mesmo criada: temos pavor da sogra, respeito ao chefe, temor ao padre, medo do inferno, receio de não “segurar” uma necessidade fisiológica. Temos medo até do deus católico, pois ensinam aos fiéis serem “tementes a Deus”. Mas ele não é infinitamente bom? Por que temê-lo?

Efusivos parabéns ao meu dileto amigo e mestre Carlos Reni por mais este artigo tão bem explicativo.
No azo, deixo aqui registrado meu forte e destemido abraço.
Ary Franco