Passam hoje 510 anos sobre o acontecimento histórico designado por «Massacre de Lisboa» ou «Matança da Páscoa»-No dia 19 de Abril de 1506 foram mortos em Lisboa entre 4000 e 6000 judeus. Em 1492, quase cem mil judeus refugiaram-se em Portugal por terem sido expulsos de Castela, sob a coroa dual de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os «reis católicos»- D. Manuel I mostrou-se tolerante com a comunidade judaica, mas, sob a pressão da sua esposa castelhana, também em Portugal, a partir de 1497, os judeus foram forçados a converter-se para não ser perseguidos e mortos em praças públicas. Num post que publicamos na edição de hoje, descrevemos sucintamente como ocorreu esse episódio que nos envergonha como povo e que demonstra que não eramos assim tão melhores do que os fanáticos catolicões que habitam o estado vizinho. Mas…
Numa série de artigos aqui publicados há tempos, referíamos o embuste que transforma uma religião numa etnia, referindo o livro Como foi inventado o povo judeu, de Shlomo Sand, um hebreu anti-sionista, professor da Universidade de Telavive que, de forma clara denuncia o facto de, com base em lendas e textos de duvidosa consistência científica, se ter criado um estado num território que tinha donos.
A lenda de Israel é tão consistente como as pretensões que alguns islamistas mantêm quanto ao Al-Andalus – a Península Ibérica. São pretensões sem qualquer sentido, mas que se baseiam em factos históricos – os muçulmanos ocuparam a Península durante séculos. Invadiram-na e colonizaram-na, deixando os povos cristãos que a habitavam prosseguir as suas vidas, pagando um tributo. Essa circunstância não lhes confere qualquer direito. Pois a criação do Estado de Israel constitui um absurdo ainda maior do que o regresso da Península Ibérica ao domínio islâmico. Porque, no caso dos islâmicos, o regresso à Península seria tão lógico como o disparate de voltar o Brasil a ser colónia portuguesa – tem por base situações históricas. No caso de Israel, seria como os pigmeus, considerando-se os legítimos liliputianos ocupassem as ilhas Seychelles, reivindicando ser ali Liliput, a sua pátria ancestral. A pátria ancestral dos árabes é a Arábia. A pátria ancestral dos judeus não existe. O livro Como foi inventado o povo judeu, vem repor na ordem do dia um tema que tem sido abordado em registos que percorrem toda a paleta cromática das opiniões, das posições ideológicas, das crenças religiosas.
Saliente-se a isenção política, a honestidade científica, com que alguns judeus analisam a questão da Palestina. Para além deste livro, mia dois exemplos: a professora israelita Idith Zertal (1944), professora de História e Filosofia Política na Universidade de Basileia, nascida antes da fundação do Estado num kibutz de Ein Shemer, ficou entusiasmada por finalmente ver traduzido em hebraico – a obra de Hannah Arendt (1906-1975) «Origens do Totalitarismo» – e outro, um ensaio da própria professora Idith Zertal – «A Nação e a Morte», na tradução em castelhano. com o título La nación y la muerte. La Shoah en el discurso y la política de Israel – shoah é palavra hebraica para Holocausto. Idith Zertal, ao referir-se à ocupação dos territórios palestinianos, diz:. «Governar outro povo de uma maneira tão brutal é devastador também para nós». E condena o recorrente argumento do Holocausto como explicação e justificação para tudo, inclusive para o facto, de usarem sobre outros uma violência brutal, assumindo apesar disso o papel de eternas vítimas.
O Holocausto não foi uma mentira; foi um crime odioso. Porém, foram os nazis e não a Humanidade no seu conjunto quem cometeu esse crime. Israel procede como se a shoah lhes tivesse aberto um crédito ilimitado e que lhes permite cometer, por seu turno, crimes odiosos. Os seis milhões de pessoas que morreram sob a acusação de ser judeus, eram na verdade alemães, russos, húngaros, polacos, que professavam a religião judaica. Morreram por pertencer a uma etnia que não existe e em nome de uma história que a ciência histórica desmente.
Tal como no dia 19 de Abril de 1506 aconteceu em Lisboa.
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Meu Xará:
Orgulho-me em participar de um grupo cuja plêiade é audaciosa, opinando sobre temas controvertidos, pouco “se lixando” pra que os demais pensem, com uma coragem que me surpreendeu, mormente sobre o catolicismo.
Um dos meus primeiros trabalhos publicados por vocês foi “A Ave Maria de Gounod”, igualmente adverso aos interesses do Vaticano, pelo que julguei que seria muito contestado. Ao reverso, recebi um grande número de elogios.
Mas as pinceladas históricas que deste ao teu trabalho foram tão elucidativas, especialmente porque, por aqui, quase nada temos sob o enfoque de um lusitano, que, orgulhoso com um dos meus pares no “blog”, repassá-lo-ei para ex-colegas professores de História, lacuna que, enfatizo, será preenchida pelo que externastes.
Parabéns, parceiro e aguardarei tua próxima matéria.
Em 19 de abril de 2016 10:14, A Viagem dos Argonautas escreveu:
> carlosloures posted: “Passam hoje 510 anos sobre o acontecimento histórico > designado por «Massacre de Lisboa» ou «Matança da Páscoa»-No dia 19 de > Abril de 1506 foram mortos entre 4000 e 6000 judeus. Em 1492, quase cem mil > judeus refugiaram-se em Portugal por terem sido expulso” >