FRATERNIZAR – Maio que te quero Maio, mas sem escravatura E o Capital criou o trabalho = tortura! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Desde que criou o trabalho por conta de outrem, o Capital está sempre a crescer e os seres humanos sempre a diminuir. Diz-se trabalho por conta de outrem, um ser humano concreto, mas é mentira. Todo o trabalho é por conta do Capital. O patrão ou empresário, é apenas o rosto humano por trás do qual o Capital se esconde. O trabalho é coisa de escravos. Escravos e trabalhadores são sinónimos. Nunca nos levam a ver as coisas assim, porque os senhores do mundo – religiosos e laicos – querem-nos escravos, não mulheres, homens livres. Quando sais a pedir trabalho, já aceitaste na tua mente ser escravo do Capital. No seu mundo, não há outra saída. E as que houver são olhadas por ele como politicamente subversivas-conspirativas. O contrato de trabalho faz de ti um escravo. Naquelas horas, não podes dispor de ti. É o Capital que dispõe de ti. Se te paga bem, acabas por sentir-te bem. Tens até orgulho em ser escravo bem remunerado. O Capital está-se nas tintas para o que tu sentes. O que ele quer é que sejas eficiente no desempenho das funções que te atribuiu como sua escrava, seu escravo. E tu fazes-lhe a vontade. Não é o patrão ou empresário que manda em ti. É o Capital. O próprio patrão ou empresário é um escravo do Capital. Pensa-se o dono da empresa. É o escravo-mor do Capital. Um seu joguete que faz dele gato-sapato. Sem tempo para a família. Porventura, até sem família, ainda que a tenha constituído e não a tenha dissolvido. Sem família e sem amigos. O Capital é ciumento. Não aceita concorrentes. Quem aceita servi-lo nunca mais é uma mulher, um homem livre. Nunca. Ainda que pense que sim.

O mais dramático é que já nem damos por nada. A escravatura torna-se o nosso modo de ser-viver. Trabalhadores e patrões ou empresários são os escravos do Capital. Escalões diversos, a mesma escravatura. Só sociedades de escravos, como as nossas hoje, são sociedades onde cresce todo o tipo de desumanidades como as que hoje enchem os jornais e os telejornais. Quando aceitamos ser escravos do Capital, vendemos-lhe a alma, a identidade. Perdemo-nos como seres humanos. Tornamo-nos estranhos aos nossos próprios olhos. Carregados de doenças de todo o tipo. O trabalho é, por definição etimológica, instrumento de tortura. Tripalium, diziam  antigos latinos. Podemos mudar os nomes, não mudamos a realidade. Tortura é tortura. Uma vida de trabalho é uma vida de tortura. As nossas sociedades são constituídas por torturados pelo Capital. Quanto mais trabalhadores, mais torturados. Infelizes. Tristes. Frustrados. As doenças multiplicam-se e cada dia há novas doenças. Até o ar que respiramos anda envenenado. Somos envenenados que envenenam. Por isso cresce o número de hospitais, de farmácias e de fármacos. Os escravos inspiram e expiram desumanidade a toda a hora. A saúde é incompatível com a escravatura. Podes ter força para servir o Capital, mas essa força não é sinónimo de saúde. A saúde, para ser humana, exige liberdade. O escravo é a negação da liberdade. O trabalho é a negação da liberdade. Por isso, a afirmação da doença, da tortura, da escravatura.

Ninguém que aceite ser escravo do Capital cresce em Humano. Tornamo-nos estranhos aos nossos próprios olhos. Acabamos autómatos. Robots. Vivemos para trabalhar. Não chegamos a viver. A vida consciência é liberdade. Arte. Contemplação. Beleza em acção. Movimento. Vento. Canto e dança. Poema. Não se trata sequer de trabalhar para viver. Trata-se simplesmente de viver. Trabalhar para viver é uma contradição. Só escravos do Capital aceitam esse tipo de falar, trabalhar para viver. A vida humana é liberdade. É Vento. É afecto. É relação. É comunhão. É contemplação. O trabalho mata a vida assim entendida. Mata o humano. Não damos por nada, porque já nascemos escravos. Filhos de escravos, escravos serão. Enquanto não decapitarmos o Capital nas nossas mentes, nascemos escravos e geramos escravos. Nunca como neste início do terceiro milénio, fomos tão escravos. Tão torturados. A alienação é o nosso estado habitual, permanente. Já nem sabemos ser simplesmente humanos. Sabemos apenas ser escravos. O Capital mantém-nos cativos nas suas cidades-prisão, nas suas cidades-tortura. Uns sobre os outros. Como formigas.

Aqui nos trouxe o cristianismo de que, ingenuamente, tanto nos orgulhamos. Sem percebermos que o cristianismo é o inimigo n.º 1 da liberdade, da fraternidade, da igualdade, da humanidade, da saúde, da alegria, da festa. Faz do pior instrumento de tortura do antigo império romano, a cruz, o seu símbolo maior. Diz bem ao que vem. Para que existe. A pretexto de salvar os povos, tortura-os a toda a hora. Só o cristianismo podia gerar o Capital e dar-se bem com ele. Depois de o gerar, deu ainda mais um passo e fez dele o seu Deus omnipotente, omnisciente, omnipresente. A cruz do cristianismo está presente em todo o lado. Somos, neste início do terceiro milénio, povos crucificados, povos torturados, povos escravizados, povos adoentados, povos tristes, povos desamparados, povos esfomeados de pão e de beleza, povos asfixiados, povos envenenados. Perdidos em grandes estádios de futebol e em grandes santuários. Em grandes cidades que são outros tantos becos sem saída. Multidões anónimas que se movem segundo as ordens e os gostos do Capital. Corremos a alta velocidade sem saber para onde. Não temos qualquer sentido na vida. Vivemos e não sabemos para quê. O Capital roubou-nos tudo, sobretudo, as razões de viver.

Maio é primavera em flor. Mas sem ninguém ou quase sem ninguém para a saborear. Os lírios do campo mostram toda a sua beleza, bem maior do que a das vestes de Salomão, em toda a sua grandeza, mas não há quem a contemple. As aves do céu cantam as suas inigualáveis melodias e não há que as escute. O Capital escravizou-nos e vivemos só para ele. O contrato que nos liga a ele pode falar em oito horas de trabalho, tortura, escravatura. Mas depois delas, um dia após outro, acabamos cansados e abatidos, tristes e sem vontade para mais nada. Comemos defecamos, copulamos, divertimo-nos, dormimos. O trabalho marca todo o nosso viver, cada dia, do nascer ao morrer. Somos os mais desgraçados dos seres vivos. Desde que o Capital se apoderou das nossas mentes e dos nossos corpos, descria-nos aceleradamente.

Haveríamos de ser artistas, entregar-nos a actividades que nos desenvolvessem de dentro para fora em humano e em relação uns com os outros, numa comensalidade permanente, a cada um segundo as suas capacidades, de cada um segundo as suas necessidades. Haveríamos. Mas veio o Capital com as suas seduções e deixamo-nos embarcar nos seus mentirosos cantos de sereia. Maio deixou de ser Maio. A vida deixou de ser humana para ser cristã. A cruz do cristianismo gerou o Capital e este o trabalho = tortura). Só as actividades criadoras nos fazem crescer de dentro para fora em humano, por isso, em Liberdade. Mas logo veio o Capital mai-las suas seduções. Decapitá-lo nas nossas mentes é preciso. Só assim somos livres, criadores, humanos, sororais, comensalidade permanente. Abandonemos o trabalho, a tortura, a escravatura. Abracemos actividades criadoras de liberdade e de comensalidade. Recuperaremos a saúde, a alegria, a fraternidade, a paz. Podemos então dizer-cantar, Maio que te quero Maio. Maio que te quero Liberdade. Vai-se o Capital. E o cristianismo que o gerou!

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