Uma página de nossa história foi virada. Sem violência, sem golpe de Estado, apesar da contumaz “narrativa” do Partido dos Trabalhadores, apesar do discurso de despedida em que a presidente Dilma Rousseff, afastada de acordo com as leis do processo de impeachment insistiu, mais uma vez, em se fazer de vítima de uma “inominável injustiça”. E o que é mais grave: fez ameaças, anunciou viagens pelo país e pelo mundo para “continuar a luta” por uma suposta democracia em perigo e atacar o governo que ora se instala, constitucionalmente, e lhe garante 180 dias para preparar sua defesa junto ao Congresso.
E o país vem ganhando uma nova cara: nunca se falou tanto em política, nunca se acompanhou com tanto interesse os acontecimentos da Câmara e do Senado; nunca se leu nem se discutiu assim, entusiástica e às vezes exacerbadamente, sobre os rumos que o país possa tomar. A longa crise gerou uma extraordinária politização do povo brasileiro. O que significa, sem dúvida, um avanço.
Que dizem os analistas, os cientistas políticos, os jornalistas investigativos, os sociólogos e os historiadores? Ler os jornais e as revistas tornou-se uma forma reencontrada de conscientização e de enriquecimento intelectual. E graças às informações veiculadas pelas rádios e TVs, o interesse dos que leem menos também foi despertado. “Há males que vêm para o Bem!” diz o povo há tanto tempo.
Para um cientista político, a decepção com a esquerda se explica pela tomada de consciência de que o lulopetismo não passou, em última análise, de “um socialismo como história da Carochinha”. Suas bases ideológicas não eram suficientemente realistas nem sólidas. Muitos dos que se consideravam, ou se consideram “marxistas”, na verdade conhecem pouco Marx e sua visão de mundo. Limitam-se a repetir slogans mal assimilados e a atribuir uma suposta superioridade ética ao PT, que representaria a vontade popular enquanto os outros, os não petistas, seriam os empedernidos reacionários de sempre, os inimigos, os imperialistas, a elite “ de olhos azuis” etc,. etc. Discurso antigo e gasto.
E aquela história da Carochinha foi alimentada pelo culto da personalidade de Lula e pela demonização sistemática da “elite”. Outro analista, diz que a ingenuidade de uma grande maioria da população identificou “a compra da tela plana (da TV) com a conquista da cidadania.” E que a afirmação de que “resgatamos milhões da pobreza” já não convence grande parte da própria classe trabalhadora, para a qual o exercício da democracia começou de fato a existir graças à tecnologia que mudou com efeito extraordinário as formas de comunicação. E foi o avanço tecnológico que propiciou o uso dos celulares e da internet nas organizações dos grandes protestos, a “voz das ruas”, que ressoou no Congresso e mobilizou a discussão dos parlamentares sobre a admissibilidade do impeachment de Dilma. A insatisfação geral com os desgovernos do Executivo e com a falta de responsabilidade dos eleitos, além da “consciência de que seus direitos não estavam sendo respeitados” levou o povo a desejar um outro tipo de Democracia, a chamada democracia representativa, sim, “para acabar com o populismo paradoxalmente fascista ( do ‘nós e eles’) “ que separa e não unifica, como conclui outro comentarista. A população quer participar mais. Faz-se agora, diante de nós, um “redesenho” do comportamento da sociedade.
Fernando Gabeira encerra seu artigo de hoje (15/06) no jornal O Globo com esta lúcida observação:
Em vez de acreditar em salvadores, será preciso conhecer e discutir as condições básicas que levam os governos brasileiros à ruína moral, independentemente de suas propostas moralizadoras. Redentores caíram no mesmo buraco. São responsáveis por seus erros, mas também é preciso desmontar as armadilhas do caminho.
Michel Temer terá de enfrentar enormes desafios e, como escreve também hoje Merval Pereira, “o presidente interino ainda não é uma figura reconhecida nacionalmente, e dependerá do que fizer a sua popularidade.”
Pessoalmente, devo dizer que gostei do primeiro discurso bem articulado, objetivo e sóbrio do professor e constitucionalista Michel Temer, novo chefe do governo provisório que poderá se estender (com a provável condenação de Dilma) até dezembro de 2018. E percebi uma faceta de sua personalidade que me agradou. Descontraído, duas ou três vezes em sua primeira fala como Presidente à Nação, Temer referiu-se às “obviedades e trivialidades que se via obrigado a repetir”, demonstrando com isso um fino senso de humor, coisa rara entre políticos. No entanto, não pareceu esquecer a gravidade da ocasião e, além de nos tranquilizar com a afirmação de que protegerá com todo o empenho o trabalho da Lava Jato e os projetos sociais que deram certo, foi elegante ao declarar seu respeito (“institucional”) à presidente afastada.
No Ministério das Relações Exteriores, que será chefiado doravante por José Serra (um dos 3 únicos representantes do PSDB no novo governo), podemos já vislumbrar modificações alvissareiras: uma declarada independência em relação aos países ditos “bolivarianos” que reproduzem a narrativa do “golpe” (Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba e Nicarágua) e a retomada de relações mais eficientes com os países da Europa e com os Estados Unidos, dos quais estivemos quase duas décadas afastados.
Mas, como escreve com sua habitual contundência Eugênio Bucci na revista Época:
Ainda veremos nas ruas e nas estradas as manifestações de gente que põe fogo em pneus velhos e põe a culpa de tudo em Michel Temer. Virão tempos de mais gritaria. A tensão vai subir. Depois, as passeatas “contra o golpe” vão minguar, pois o dinheiro para financiá-las vai escassear. (…) Venha pela frente o desfecho que vier, ninguém mais vai conseguir esconder o óbvio: quem feriu de morte o projeto de poder do PT não foi a imprensa burguesa, não foi o mefistofélico Sergio Moro, não foi a profana aliança entre PSDB e PMDB – foi apenas o próprio PT.