Panamá Papers – um reflexo do modelo neoliberal | 9. Guardiões do Consórcio dos Meios de Comunicação Protegem o 1% de Ocidentais da Fuga dos Panama Papers- por Craig Murray

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

9. Guardiões do Consórcio dos Meios de Comunicação Protegem o 1% de Ocidentais da Fuga dos Panama Papers

Craig Murray(*)

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3 de Abril de 2016  disponível em  http://www.craigmurray.org.uk

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Quem divulgou os papéis da Mossack Fonseca parece motivado por um desejo genuíno de denunciar o sistema que permite aos super ricos esconderem as suas massivas aplicações, geralmente obtidas de forma corrupta e todas elas envolvidas em evasão fiscal. Estes advogados panamianos escondem a riqueza de uma considerável proporção dos 1%, e a divulgação massiva dos seus documentos deveria ser uma coisa maravilhosa.

Infelizmente o autor da divulgação cometeu o terrível erro de ter recorrido ao Consórcio ocidental dos Meios de Comunicação para publicitar os resultados. Consequentemente a primeira grande peça, publicada hoje pelo The Guardian, é toda ela sobre Vladimir Putin e um violoncelista fraudulento. Na realidade, pessoalmente creio na história e não tenho dúvidas de que Putin é corrupto.

Mas porquê uma tão grande importância dada à Rússia? A riqueza russa é apenas uma pequena parcela do dinheiro escondido com a ajuda da Mossack Fonseca. De facto, rapidamente se tornou óbvio que a informação selectiva está já a começar a cheirar mal.

O Suddeutsche Zeitung, que recebeu a fuga de informação, fornece uma detalhada explicação da metodologia que o Consórcio de Meios de Comunicação utilizou para analisar os ficheiros. A principal investigação que foi feita está relacionada com nomes associados à violação de sanções estabelecidas pelas Nações Unidas. O Guardian escreve também nestes termos e apresenta uma lista de países como o Zimbabwe, a Coreia do Norte, a Rússia e a Síria. A filtragem desta informação da Mossack Fonseca pelo Consórcio dos Meios de Comunicação prossegue diretamente uma agenda governamental do Ocidente. Não existe de todo nenhuma menção à utilização da Mossack Fonseca por enormes multinacionais ou pelos multimilionários ocidentais – os principais clientes. E o Guardian prontamente assegura que “grande parte do material obtido na fuga de informação permanecerá em privado.”

Mas o que é que esperava? A fuga deste material está a ser gerida pelo grandiloquente e ridiculamente chamado “International Consortium of Investigative Journalists” [Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação], que foi fundado e inteiramente organizado pelo Centro para a Integridade Pública dos EUA. Os seus fundadores incluem

Ford Foundation
Carnegie Endowment
Rockefeller Family Fund
W K Kellogg Foundation
Open Society Foundation (Soros)

entre muitos outros. Não se espere uma genuína denúncia do capitalismo ocidental. Os segredos sujos das multinacionais ocidentais permanecerão por publicar.

É de esperar conflitos na Rússia, Irão e Síria e em alguns diminutos países ocidentais “a balancearem ” como a Islândia. Um ou dois vetustos países amigos do Reino Unido poderão ser sacrificados – alguém já com demência.

Os meios de comunicação pertencentes ao Consórcio – o Guardian e a BBC no Reino Unido – têm um acesso exclusivo à base de dados que o leitor e eu próprio não poderemos ver. Eles protegem-se a eles mesmos digamos de verem sequer informação sensível das multinacionais ocidentais por olharem apenas para aqueles documentos que foram evocados por investigações específicas tais como as violações passiveis de sanções das Nações Unidas. Nunca se esqueça que o Guardian destruiu as suas cópias dos ficheiros Snowden na instrução do processo pelo MI6.

E se eles investigassem na base de dados da Mossack Fonseca sobre os proprietários de todos os meios de comunicação e as suas empresas, e sobre todos os editores e jornalistas seniores dos meios de comunicação? E se investigassem na base de dados da Mossack Fonseca todos os quadros responsáveis da BBC? E se investigassem na base de dados da Mossack Fonseca todos os doadores do Center for Public Integrity e as suas empresas?

E se investigassem na base de dados da Mossack Fonseca todas as empresas que estão nas bolsas de valores ocidentais, e todos os milionários ocidentais que aí encontrassem?

Isso seria muito mais interessante. Sei que a Rússia e a China são países corruptos, não é preciso dizerem-me isso. E se olhássemos para coisas que pudéssemos, aqui no ocidente, enfrentar e fazer algo a esse respeito ?

E se o Consórcio, jornalistas ao serviço das multinacionais deixassem as pessoas verem os dados reais?

ACTUALIZAÇÃO

Centenas de milhares de pessoas leram este texto nas 11 horas seguintes à sua publicação – apesar de ser de noite aqui no Reino Unido. Foram publicadas 235.918 “impressões” no twitter (como lhe chamam no twitter) e mais de 3.700 pessoas até agora partilharam o texto no Facebook, trazendo grande número de novos leitores.

Relembraria que este blog é produzido gratuitamente para o bem público e republicações ou reutilizações deste artigo ou qualquer outro material serão bem- vindas, sem necessidade de qualquer outra permissão.

 

(*) Craig Murray, licenciado em História, foi embaixador britânico no Uzbequistão, de onde foi removido em 2004, na sequência de denúncia de o MI6 ter utilizado informações fornecidas pelas autoridades uzbeques que as haviam obtido através de torturas.

Ver o original em:

https://www.craigmurray.org.uk/archives/2016/04/corporate-media-gatekeepers-protect-western-1-from-panama-leak/

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