CONTOS & CRÓNICAS – No plaino abandonado um poeta cercado – a memória da guerra colonial na poesia de Fernando Assis Pacheco – 3 – por Margarida Calafate Ribeiro

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(continuação)

constrói ao mesmo tempo que reafirma a eficiência desta poesia enquanto testemunho contribui para aliviar o poeta do “acto de sofrimento e de exorcismo”27 que está na origem dos seus versos. Ao longo dos poemas de Catalabanza, Quilolo e Volta Assis Pacheco vai respondendo com actualização pormenorizada a diferentes modalizações da pergunta inicialmente feita e que desencadeou a lembrança da guerra na memória do poeta impelindo-o para a narração. Responde ao destinatário interveniente em “Nambuangongo em Maio”, que demanda histórias da guerra – “Então cheguei/ e eram casas/ de madeira, roupa/ secando sua lama/ no arame em volta (…) (mas conta, conta até ao fim)” (…) e eram (repete🙂 casas/ (repete🙂 morros, cães (…) cercando a igreja branca “(das quais?)”28; responde às imagens que se lhe tornam presentes ao folhear “uns papéis que sobraram”29; responde a um “tu” que invade os poemas e que exige o testemunho do poeta como prova de sobrevivência – “É vivo que me queres – matarás-me/ se vivo te disser que me vi morto?/ O cano da pistola tenta o vivo./ Assim eu só voltei para contar-te (…) Cala já. Não perguntes. Tenho medo/ que ao som da tua voz acabe a minha.”30 – e finalmente responde ao seu modo de ser de poeta que é cantar “mesmo que apeteça mandar um balázio/ no peito de adobe”31, “mesmo de gatas”, como dizia José Bação Leal, na epígrafe escolhida por Assis Pacheco para este seu livro. Mas ao longo do livro as dúvidas sobre a capacidade do poeta construir o seu poema assaltam-no, não tanto pela falta de engenho ou arte, mas pelo pudor e dor que o assunto envolve:

“Sei fazer alguns versos mas nem sempre. (…) Sei fazer versos mas doem. (…) Sei fazer versos. Ou seja: nada.”32

Em “Dembos”, segunda secção do livro, é traçado o mapa de uma geografia angolana que é a geografia toponímica, temporal, emocional e imagística da guerra a sério: Balacende, Zala, Catalabanza, Quilolo, Quijinga e Nambuangongo são os espaços que preenchem o imaginário português e angolano desta guerra e títulos de alguns dos poemas que vão desfilando à frente dos nossos olhos de leitores, como fotografias que vão dando rosto ao que antes só tinha um nome e projectando o percurso do poeta ao longo de uma paisagem monótona e sufocante: aquartelamentos miseráveis, morros enigmáticos, picadas onde espreita a morte, casas de adobe, arame farpado, populações mais ou menos miseráveis e um punhado de homens jovens, que com o poeta, tenta literalmente, sem heroísmos ou fantasias, sobreviver. Não estamos pois em presença das envolventes e exuberantes paisagens africanas a que o imaginário ocidental nos habituou, nem dos heróis que Jaime Cortesão ainda viu nas terras da Flandres ou António de Cértima nas guerras das campanhas africanas33 . As coordenadas paisagísticas a que um discurso descritivo e algo repetitivo nos habitua, revelam antes uma paisagem interior que filtra todos os elementos exteriores mostrando sempre por detrás da paisagem como “Depois do capim, depois da poeira (…) a imagem terna deste rosto em pedaços”34 ou, por outras palavras, a cor do medo, da angústia e da morte.

A este espaço cercado de onde não há “evasão possível” num sentido físico e psicológico, junta-se uma vivência que regista uma passagem de um tempo feito de semanas “de tardes paradas!” a “hora a hora empurradas”35 que corrói e degrada – veiculada pela fragmentação sintáctica em que o poema se constrói e visível nas imagens de burocratização do horror da guerra e nas consequências físicas e psicológicas – dada em paralelo com a ideia de um desgaste inútil, de “um tramanso em vão”. Eram homens já meios mortos meios vivos, já meios homens meios cães, como fica visível no poema “Os Cães”, cujas características o poeta vai interiorizando até com eles se identificar a si e aos seus companheiros num processo de metamorfização dado no poema pela passagem alternada da terceira à primeira pessoa verbal (singular e plural) e de uma semântica ligada à vivência animal que se infiltra na descrição de uma vivência humana, convertendo assim o mundo dos homens no mundo dos cães: ambos parados em frente do arame do quartel ou rodando em círculos intermináveis de espera e abandono.

“Eram loucos. Alguns deles eram loucos, parados uma tarde inteira ao pé do arame, esquecidos, sobre o pó, gemendo lentamente, sei de fonte segura que eram loucos, (…) coçando-me incansável nas pontas do arame, e logo ladro, gemem, “está um trapo”, uma merda, a merda destes cães deitados porque em pé, percebes, eu já não (aguento) e fiz o possível, fizeram o possível por apenas gemer somente, cães que somos dez, vinte, chama-me “Niassa”, ou “Tejo”, vinha deitar-se aqui, e principalmente rodam, rodam sempre vou rodando à velocidade incrível da bala. Eram loucos.”36

Tornam-se assim claros os contornos alarmantes da imagem de alargamento do cerco – de Portugal para Angola, ou do centro para a periferia – a que há pouco aludi, metaforicamente apontados pelo poeta desde o seu primeiro livro em Nambuangongo, lugar arquétipo de uma violenta perdição pessoal e colectiva no imaginário português e angolano desta guerra37.

“Olha, Nambuangongo! As bombas explodem na mesa de cabeceira. (…) Explodiam às três e às quatro. Morri uma sexta-feira, uma quinta, no dia seguinte davam-se massas ao faxina para recolher tudo para o balde – ossos, tripas, tudo.”38

(continua)

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