CARTA DO RIO – 107 por Rachel Gutiérrez

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Festejou-se neste domingo o “dia dos namorados”, outra das muitas criações do comércio para faturar ainda mais. E pessoas são logo entrevistadas, seja porque são poucas as notícias interessantes ou porque os canais de TVs precisam de uma quota de banalidades para alternar com as tragédias e os escândalos divulgados todos os dias. Então, jovens em começo de namoro, ou velhos casais heroicamente constantes, ganham seus cinco minutos de fama para falar de seus relacionamentos amorosos, como se amor, casamentos e finais felizes de contos de fadas fossem eternos e sempre os mesmos.

Já vamos longe dos casamentos de antigamente quando à moça se recomendava que tivesse em relação ao futuro marido “muita tolerância, compreensão, etc.,” e quando o rito católico do casamento prescrevia a ela “obediência ao marido”, e a ele, que desse “proteção à esposa e à futura família.”

O mundo mudou muito e além dos casais convencionais, sabemos que existem relações homoafetivas, casamentos gays oficializados ou não  e novas configurações familiares que ainda não receberam da mídia suficiente atenção. Faz poucos dias, por exemplo, que alguns jornais e TVs noticiaram o que há menos de dez anos seria absolutamente inimaginável: “casal gay terá filho gerado no útero da mãe de um deles.”

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Vale a pena transcrever a notícia assim divulgada pelo site Hiperness: Julien ama Jefferson, que é filho de Quitéria e Carlos, que serão avós de Ezra, gerado por inseminação in vitro. Até aí, seria só uma família moderna, valendo-se da fina tecnologia para que um casal homoafetivo possa ter seu filho. O diferencial dessa história, no entanto, é justamente o útero: o filho de Julien e Jefferson está sendo gerado na barriga de Quitéria. A avó de Ezra foi quem ofereceu o útero para que o neném pudesse crescer e nascer.

Lembro de ter lido numa revista norte-americana, creio que da  década de 1990,  uma notícia bastante chocante –  para aquela época – sobre duas mulheres e dois homens, dois casais gays, que se consideravam pais (os quatro!) de uma linda menina que nascera da fecundação artificial no útero de uma delas pelo sêmen recolhido de um deles. Os casais pertenciam, se não me engano, à cidade de São Francisco, do vanguardista estado da Califórnia. E a foto, que ilustrava a primeira página da revista, mostrava a criança no meio do feliz quarteto dos genitores.

Voltemos à história mais recente da mãe-avó Quitéria: Foram dois embriões, um com sêmen de Julien, outro de Jefferson, e duas doadoras anônimas de óvulos. Os embriões foram fertilizados fora do corpo, in vitro, e somente um embrião deu certo, e eles não sabem qual: para todos os efeitos, o filho é dos dois. Evidentemente, não há nada de Quitéria no bebê, que serviu somente como um abrigo para a gestação de Ezra.

É “um Admirável Mundo Novo” que nem Aldous Huxley poderia imaginar.

Mesmo durante a Revolução Russa, quando se imaginou que o Estado se encarregaria da educação das crianças para que homens e mulheres pudessem trabalhar dando o máximo de si à sociedade,  Lênin, o revolucionário, mostrou-se muito mais conservador do que o teórico Friedrich Engels, que disse o seguinte,, quando lhe perguntaram que repercussões teria o regime comunista na família:

Transformará as relações entre os sexos em relações puramente privadas, concernentes às pessoas que delas participem, sem que a sociedade tenha de intervir. Esta transformação será possível no momento em que for suprimida a propriedade privada, forem educadas as crianças em comum e destruídas as duas bases principais do casamento atual: a submissão da mulher ao homem e a dos filhos aos pais.

Ledo engano! Mesmo que ele também tenha perguntado:

Não bastará isso para que se desenvolvam, progressivamente, relações mais livres, e também para que a opinião pública se torne menos rigorosa quanto à honra das virgens e à desonra das mulheres?  (isso em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado).

Não era o que, por sua vez, pensava Lênin que, numa carta à Ignez Armand, a comunista francesa longos anos sua amante, escreveu:

Creio que a “reivindicação do amor livre” (…) é na presente situação social uma reivindicação burguesa e não proletária.

E, ainda preocupado com o dito amor livre – que as mulheres passaram a comparar à simplicidade de beber um copo de água, perguntou:

Mas, por acaso, uma pessoa normal, em condições normais, se meteria em plena rua a beber água da lama ou de um copo cujas bordas hajam passado por dezenas de lábios?

Na cabeça de Lênin, por mais revolucionário que possa ter sido, o normal seria : aos homens, a liberdade; às mulheres, o recato e a submissão. (E quem já participou de reuniões de partidos de esquerda nos tempos modernos, sabe que as vassouras e os cafezinhos continuaram sempre nas mãos das mulheres enquanto os homens se encarregavam dos planos e das decisões).

Muitas décadas passadas, depois de tantas mudanças, sabemos bem que nas relações entre os sexos, hoje em dia, o verbo ficar adquiriu novos sentidos: hoje, jovens “ficam”, se relacionam, talvez namorem ou se envolvam apenas em busca de novas experiências para só mais tarde assumirem, ou não, algum tipo de compromisso ou projeto comum.

São difíceis e tortuosos os caminhos da liberdade. O dia dos namorados pouco tem a ver com isso, mas o amor continua a existir, é claro, e pode se manifestar de várias formas.  Será que ainda existe  o Amor ao Próximo, aquele que  pregam todas as religiões? Acredito que sim. E o desejável seria que transbordasse para uma nova forma de generosidade e de solidariedade como a que levou Bill Gates a se preocupar com os que têm fome na África, por exemplo. Como a que levou Angela Merkel a receber um número considerável de refugiados na Alemanha. O mais desejável, porém, seria que as fortunas gastas em campanhas eleitorais, como a mais recente de Hillary Clinton que conseguiu ultrapassar os gastos do milhardário Donald Trump, fossem destinadas ao combate à fome no mundo, ao amparo de centenas de milhares de crianças, ao auxílio a todas as vítimas das guerras absolutamente indefensáveis, irracionais e estúpidas deste nosso tão insensato mundo.  Como seria desejável, no Brasil, que todo o dinheiro roubado da Petrobras fosse devolvido aos cofres públicos e aplicado na educação dos jovens para que menos meninas ficassem grávidas aos 12 e 13 anos, e menos meninos (geralmente estupradores) se tornassem traficantes, assaltantes e bandidos, como acontece.

Só assim, quem sabe, teríamos tempo e leveza para festejar um “dia dos namorados” menos alienado do que o que o comércio capitalista a cada ano nos propõe.

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