
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O sistema financeiro é uma ameaça maior que o terrorismo

Paul Craig Roberts, The Financial System Is A Larger Threat Than Terrorism
paulcraigroberts.org, 8 de Março de 2016
No século 21 os americanos têm andado distraídos pela ultra cara “guerra contra o terror.” Milhões de milhões de dólares terão sido adicionados à conta dos contribuintes e muitos milhares de milhões de dólares dos contribuintes em lucros para o complexo militar /e de segurança, a fim de combater insignificantes ” ameaças externas “, tais como os talibãs, que continuam a não serem vencidos e isto desde há 15 anos. Durante todo este tempo, o sistema financeiro, de mãos dadas com os responsáveis políticos, tem feito mais danos aos americanos do que os terroristas poderiam alguma vez infligir.
O objectivo da política do Federal Reserve e do Tesouro dos EUA de taxas de juro zero é o de querer apoiar os preços dos instrumentos financeiros cada vez mais alavancados e mais fraudulentos que o sistema financeiro não regulamentado sempre tem andado a criar. Se a inflação for devidamente medida, estas taxas zero seriam então taxas negativas, o que significa não somente que os reformados não tiram rendimentos das suas aplicações de reforma mas também que a poupança é uma aposta perdedora. Em vez de obterem juros com as suas economias, cada um de nós paga ainda juros o que reduz o valor real das economias feitas.
Os bancos centrais, economistas neoliberais e a imprensa prostituída defendem as taxas de juro negativas, a fim de forçar de forçar as pessoas a gastarem mais em vez de pouparem. A ideia é de que a economia está a ter fracos resultados não pelo falhanço da política seguida mas porque o povo entesoura o seu dinheiro. A Reserva Federal e o seu círculo de economistas e jornalistas prostituídos mantêm a ficção de que a existência de muitas poupanças apesar de na publicação do relatório da própria Federal Reserve se poder ler que 52% dos americanos não podem levantar $ 400 sem necessitarem de vender bens pessoais ou de pedir o dinheiro emprestado.
http://www.federalreserve.gov/econresdata/2013-report-economic-well-being-us-households-201407.pdf
As taxas de juros negativas, que têm sido introduzidas nalguns países, como a Suíça e ameaçam sê-lo noutros países, as pessoas-a-ter causado evitar o imposto sobre os depósitos bancários, têm levado as pessoas a evitar as taxas sobre os depósitos nos bancos retirando as suas poupanças em notas de grande valor facial. Na Suíça, por exemplo, a procura a nota de 1000 Francos Suiços (cerca de US $ 1.000) aumentou acentuadamente. As notas de grande valor facial representam 60% da moeda suíça em circulação.
A resposta dos depositantes face às taxas de juros negativas resultou, na opinião dos economistas neoliberais, tais como Larry Summers, em pedidos de serem eliminadas as notas de grande valor facial a fim de tornar mais difícil para as pessoas manterem os seus encaixes nominais fora dos bancos.
Outros economistas neoliberais, tais como Kenneth Rogoff querem pura e simplesmente a sua eliminação de modo a que haja apenas moeda electrónica. O dinheiro electrónico não pode ser eliminado dos depósitos bancários, excepto se o gastarmos. Com a moeda electrónica como a única forma de dinheiro, as instituições financeiras podem utilizar taxas de juros negativas, a fim de roubarem as poupanças dos seus depositantes.
As pessoas poderão ser levadas a recorrer ao ouro, prata e a outras formas privadas de dinheiro, mas os outros métodos de pagamento e poupança poderão ser banidos e o governo poderia conduzir operações de controlo a fim de suprimir as evasões de moeda electrónica com sanções mais duras.
O que esta imagem mostra é que o governo, os economistas e os jornalistas prostituídos são cidadãos aliados contra os cidadãos que querem uma independência financeira a partir da sua poupança pessoal. Os formuladores e decisores das políticas económicas têm ideias bizarras sobre a economia e aqueles que têm o controle sobre as nossas vidas avaliam os seus próprios esquemas mais do que valorizarem o nosso bem-estar.
Este é o destino da maioria das pessoas nas chamadas democracias actuais. Qualquer remanescente controlo que as pessoas tenham sobre as suas próprias vidas está-lhes a ser tirado. Os governos servem alguns grupos de interesse poderosos cujas agendas resultam na destruição das economias anfitriãs. O offshoring, a deslocalização, dos empregos da classe média transfere rendimentos da classe média para os proprietários e executivos das grandes empresas, mas também mata o mercado de consumo de bens produzidos localmente, isto é produzidos no próprio país, a favor dos bens e serviços deslocalizados. Como Michael Hudson escreve, o offshoring mata o país que o pratica. A financeirização da economia (NT- o parasita da economia) também mata o hospedeiro (NT- a sociedade, a economia real) assim como os proprietários das empresas. Quando os executivos das empresas, e muitas delas grandes empresas, contraem empréstimos em bancos, a fim de impulsionar os preços das acções e os seus prémios de desempenho através da recompra dos mesmos títulos, os lucros futuros são convertidos em pagamentos de juros a bancos. Os fluxos de rendimentos futuros das empresas são financeirizados. Se os fluxos de rendimentos futuros falham, as empresas podem ser encerradas por falência e os seus proprietários igualmente levando a que os bancos se tornem eles mesmos os novos proprietários destas empresas.
Entre o offshoring dos empregos e a conversão de mais e mais fluxos de rendimentos em pagamentos para os bancos, há cada vez menos rendimentos disponíveis para serem gastos em bens e serviços. Assim, a economia não cresce e em termos de longo prazo cai numa trajectória de declínio. Muitos americanos hoje pouco ou nada podem pagar na base do saldo disponível do seu cartão de crédito. O resultado é o crescimento maciço de dívidas que nunca não podem ser pagas. É estas são as pessoas que são capazes de responder ao seu serviço da dívida e que os bancos passaram agora a sobrecarregar com comissões draconianas. A forma como as empresas de cartão de crédito o fazem actualmente , se alguém paga fora da data limite ou se deixa cair em atraso um pagamento ou se o seu pagamento é devolvido pelo banco, é-se imediatamente penalizado durante os próximos seis meses com uma penalização à taxa anual de 29,49%. Hoje, são numerosos os americanos que não podem efectuar o mínimo pagamento sobre o seu saldo na carta de crédito.
Na Europa, países inteiros estão a ficar praticamente falidos. A Grécia e Portugal terão sido forçados a entrar em liquidação dos activos nacionais e dos seus sistemas de segurança social. Assim, muitas mulheres terão sido forçadas à pobreza e à prostituição em que o preço por hora de trabalho sexual de uma prostituta tem caído e está actualmente em cerca de US $ 4,12.
Em todo o mundo ocidental, o sistema financeiro tornou-se uma máquina na exploração das pessoas e traduz-se numa enorme ineficiência na sociedade por má afectação dos seus recursos. Existem apenas duas soluções possíveis. Uma delas é desmantelar os bancos demasiado grandes, demasiados grandes para poderem falir, e fazer deles bancos mais pequenos e bancos locais como existia antes da concentração que a desregulamentação promoveu A outra é nacionalizá-los e coloca-los a funcionar apenas no interesse do bem-estar geral da população.
Os bancos são actualmente muito poderosos para que qualquer destas duas soluções se possa verificar. Mas a ganância, a fraude e o comportamento em que lhes interessa servir os seus próprios interesses, dos sistemas financeiros ocidentais, ajudados e incentivados pelos governos , pode estar a levar a uma tal ruptura da vida económica que a ideia de um sistema um sistema financeiro privado se tornará tão abominável no futuro como o nazismo é hoje.
Paul Craig Roberts, The Financial System Is A Larger Threat Than Terrorism — editado a 8 de Março de 2016. Texto disponível em:

Acho que falta mencionar que os valores opostos ao que é referido no texto estão ausentes na sociedade. Só através de um esforço muito consciente e decidido é que se quebram certas ideias e comportamentos. Porque no fundo qualquer conversa de café queixa-se da prostituição da imprensa e dos intelectuais mas os participantes seriam os primeiros a aceitar tal oferta – se tivessem algo de valor a acrescentar ao sistema. É preciso outra fibra para viver de forma diferente disso.