CARTA DO RIO 109 – Rachel Gutiérrez

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Apesar do choque com a saída da Inglaterra da União Europeia, que repercutiu no mundo inteiro e também entre nós; apesar de mais uma revelação bombástica da Operação Lava Jato sobre o ex-ministro de Lula e de Dilma, Paulo Bernardo, que é acusado de ter desviado 100 milhões de reais para o Partido dos Trabalhadores e para ele mesmo; apesar da decretação de Estado de Calamidade do Rio de Janeiro, pelo governador interino, Ernesto Dornelles; apesar do processo de impeachment que se arrasta nos depoimentos intermináveis das 40 testemunhas arroladas pela Defesa da presidente afastada Dilma Rousseff, quando a Acusação se limitou a convocar apenas seis e mesmo assim é taxada de “golpista”… apesar de tudo isso, vou falar de outros assuntos.

Em primeiro lugar, quero prestar uma homenagem a dois grandes aniversariantes do dia 27 de junho.

O primeiro é Gaston Bachelard, célebre filósofo da ciência e o mais apaixonado estudioso da criação poética, que nasceu em 1884, em Bar-sur-Aube, na região da Champagne, foi professor da Sorbonne e morreu em Paris em 16 de outubro de 1962. Deixou livros imprescindíveis para quem procura compreender a poesia como A psicanálise do Fogo, A poética do devaneio, A água e os sonhos, O ar e os sonhos, A terra e os devaneios da vontade, A poética do espaço etc.

O segundo é o nosso João Guimarães Rosa, médico e diplomata poliglota, nascido em Cordisburgo, em 1908, Minas Gerais e falecido no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1967, três dias após ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras. Deixou além de poemas, algumas dezenas de contos, reunidos em livros como Corpo de Baile, Sagarana, Primeiras estórias e Terceiras estórias, e a monumental epopeia Grande Sertão; veredas, aventura linguística e poética, livro absolutamente mágico incluído pelo Clube do Livro Norueguês, em maio de 2002, entre os 100 melhores livros de todos os tempos.

E só por curiosidade resolvi rever a Carta do Rio nº 9, publicada  em 21 de junho de 2014, depois da qual já escrevi uma centena, que começava mencionando o horror da guerra e do massacre de civis na Faixa de Gaza e uma série de notícias extremamente tristes.

Como se a menininha Esperança me tivesse influenciado, a seguir mudava subitamente de assunto. Assim:

Para não ficar só nas tristezas, decidi evocar aqui pensadores e ativistas que procuram mudar o quadro da realidade a partir de suas visões de mundo e de seus engajamentos. Em primeiro lugar, duas mulheres: uma norte-americana nascida na Áustria, e uma espanhola, nascida na Argentina. A primeira, Riane Eisler, a celebrada autora de O Cálice e a Espada, um estudo multidisciplinar que complementa os nossos conhecimentos da História e da Antropologia desde a mais remota antiguidade, e de The Real Wealth of Nations , ainda não traduzido em português, que trata de incluir na economia e na política o papel fundamental dos que exercem o que ela chama de caring, que podemos traduzir como cuidado. É a valorização do que tem permanecido oculto, ignorado e em geral não remunerado: os trabalhos domésticos, o cuidado com as crianças, com os velhos e com os doentes, atribuições quase exclusivamente femininas sem as quais a humanidade não sobreviveria. Dito assim, parece uma visão simplória da realidade, mas Eisler discute sistemas econômicos, questões de mercado, desenvolvimento sustentável e democracia participativa, tudo o que atrai e congrega os intelectuais e cientistas que preconizam as indispensáveis transformações sociais.

A segunda pensadora igualmente admirável é a filósofa do ecofeminismo, Alicia H.Puleo que, na defesa do planeta na qual inclui os que chama de animais não humanos, denuncia “a evidente irracionalidade do complexo econômico tecno-científico globalizado que conduz à catástrofe ecológica e aprofunda as injustiças sociais…”.

E por uma dessas estranhas coincidências, ou sincronicidades junguianas, ao ligar a televisão um pouco mais tarde, deparei com uma entrevista do programa L’invité, da TV5 francesa, no qual o entrevistado era um índio com um grande cocar colorido e o lábio inferior deformado por um pedaço redondo de madeira. Tratava-se de ninguém menos do que o famoso Cacique Raoni Metuktire, da etnia caiapó, nascido em Mato Grosso e grande ativista ambiental respeitado internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas.

O conhecido jornalista Patrick Simonin, com muita deferência, parecia entender o que lhe dizia o índio naquela língua estranha (língua que pertence à “família linguística Jê”) e o índio também parecia entender o francês do entrevistador. Suponho, naturalmente, que o programa tenha sido editado, mas nem por isso deixei de me emocionar ao ver o índio já idoso – ele nasceu em 1930! – tão cheio de energia e de entusiasmo.

Audiência Raoni com Presidenta Marta Azevedo
Audiência Raoni com Presidenta Marta Azevedo

Com plena consciência, Raoni se diz um defensor do planeta. Tem-se vontade de chorar. Porque é impossível não pensar no que fizemos e continuamos fazendo aos índios, nós, os ditos civilizados, os que não respeitamos a Natureza, os que menosprezamos esses Outros, que já estavam aí quando os brancos apareceram, que pertencem a culturas multimilenares e sempre souberam viver em harmonia com a terra, com os animais e com as plantas, com os elementos, com a vida.  Nós, que deveríamos considerá-los nossos mestres, arrogantemente tentamos impor-lhes nossos costumes, nossa língua, nossa cultura, como se lhes fôssemos superiores. E invadimos suas terras. E destruímos seus rios em nome do progresso e da riqueza. Lembremos apenas Belo Monte.

Li, depois, no  site da comunidade caiapó:

      Em busca de apoio à demarcação das terras indígenas, integrantes da etnia Guarani-Kaiowá estão na França e vão a Genebra para uma série de reuniões com líderes europeus, em sua primeira viagem ao continente. Em Paris, a porta-voz Valdelice Veron fez um emocionado apelo por socorro na conferência Consciências para o Clima, que contou com a presença do presidente francês, François Hollande.

E eis aqui outra denúncia:

O desmatamento do Mato Grosso do Sul para o cultivo de soja e cana de açúcar está provocando o lento genocídio dos índios que moram no estado – denunciaram nesta quarta-feira, em Paris, membros do povo indígena Guarani-Kaiowá.

Estamos vivos, mas estamos a morrer aos poucos“, afirmaram hoje dois representantes dos índios Guarani-kaiowa, da Amazônia, que foram a Paris lançar um grito de alarme perante a desflorestação e a expropriação das suas terras.

O espantoso é que os nossos jornais não publicaram nada sobre isso. Quem, se gritássemos, nos haveria de ouvir entre os poderosos do mundo?

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