A COR DOS HOMENS/1-por Fernando Correia da Silva

Prefácio

                                          Rachel Gutiérrez

 

 

Rachel GutiérrezDe um livro excepcional é difícil dizer-se a que gênero pertence. Assim acontece com A Cor dos Homens, de Fernando Correia da Silva. Fábula, realismo fantástico, surrealismo, alegoria política? É tudo isso e muito mais. Ficção onde a verdade é mais verdade, onde “tudo me parece estar a acontecer num só presente”, onde a estética dá espaço à ética e a uma visão filosófica da história. O texto é enxuto: as frases são curtas e o uso de apostos torna sua lógica implacável e irônica. Uma prosa poética aliciante, rítmica, fluente e caudalosa.

O livro que traz como epígrafe belos versos de um poeta negro, Langston Hughes, é dividido em quatro partes de tamanhos desiguais, mas de similar intensidade e subdivide-se em quarenta e quatro pequenos capítulos, quase versículos. O título da primeira parte, ou abertura, é Formoso Rosto; o da segunda, uma espécie de interlúdio, é Cantata; o da terceira é Formoso Sangue; e a conclusão, ou quarta parte é o Requiem. E podemos dizer que o livro todo é um Requiem para um sonho que morreu. O sonho pelo qual o escritor lutou a vida inteira, o da igualdade e da justiça.

O inquieto “descobridor de mundos”, que vivera 20 anos no Brasil, desde seu romance Mata Cães, de 1987, estava “fundamente arraigado no lastro decepcionante deixado pela revolução de 25 de abril, em Portugal”, como disse Nelly Novaes Coelho em sua valiosa apreciação daquele livro. E também disse muito bem Mafalda Ivo Cruz quando definiu Correia da Silva como alguém que “estava sempre momentaneamente desesperado, mas sempre bem disposto”, quando analisou seu romance histórico Lianor. À exemplo de seu próprio personagem Júlio Vera, de outro excelente romance, Querença, o escritor se refugiava no paradoxo, no tom picaresco e no sarcasmo. Em A cor dos homens, no entanto, parece-nos que o tom é mais sombrio, sério, nebuloso e desesperançado como o delírio de seu narrador. Neste romance, a exuberante imaginação de Correia da Silva criou um universo fechado e simbólico onde, em consequência de uma peste misteriosa, algumas das piores mazelas dos animais políticos que somos se exacerbam. A atmosfera é de decadência e medo, o medo do outro, esse outro igualado na aparência pela estranha cor lilás da doença, mas ainda suficientemente diferente para ameaçar os poderosos, os que sempre se beneficiam da prepotente dominação sobre os mais fracos.  Com implacável acuidade, Correia da Silva retrata daqueles a arrogância, a sede de poder, os vícios arcaicos e o egoísmo, em suma: “o círculo fatal que devora a nossa estirpe”, como admite um deles, o próprio narrador.  E esse universo fechado e trágico, graças à beleza da escrita, à sua força poética e ao seu alcance metafórico abre-se então e convida-nos a pensar sobre as questões não resolvidas: a da sempre latente luta de classes e a da dialética do Senhor e do Escravo.

Um livro, sem dúvida, necessário.

Leave a Reply