Sigo o exemplo, faço como os dinossauros que vivem no fundo do pântano: subo à superfície e contemplo o que, de minúsculo, se passa à minha volta. Vejo que a cidade continua a alastrar de oriente para ocidente, parece querer acompanhar o percurso do sol. Pena é que as ruínas comecem a devorá-la no mesmo sentido, de nascente para poente. Lá em cima, no planalto, no Condado, continuam a galopar os meus cavalos. Brancos eram eles antigamente, mas agora já não sei.
A bruma aproveita-se da minha surtida, logo tenta enfiar-me o capacete.
Sacudo a cabeça. De repente lembro-me que tudo começou a degradar-se com a peste. Ninguém morreu, contudo peste. O vírus inesperado, o febrão, o delírio de três dias, a queda do cabelo.Voltaria a crescer, porém liso, até as carapinhas dos pretos, ex-pretos. Um mês a recozer a 39 graus. Na ressaca, coisas como escamas a cair, por debaixo a nova pele. Passámos todos a ser lilases, os que foram brancos, os que foram pretos, coacção. Filho de homem lilás, ao nascer, lilás já era. Aconteceu em Palmira, no país, no continente, no mundo inteiro. A uns e a outros, a eles e a nós. Os meus pais já tinham falecido, felizmente. Digo felizmente pois o lilás mudou tudo, também a cadência da vida a que estavam habituados, subversão.
Em Palmira tivemos notícias da Capital: logo depois da peste houve distúrbios e revoltas, pretos, ex-pretos, a marcharem pelas ruas com archotes e cruzes incendiadas, a saquearem casas e lojas, a lincharem brancos, ex-brancos, homens e mulheres, velhos e crianças, a vingança por que esperavam desde sempre. Também foram linchados alguns pretos, ex-pretos, só porque falavam como brancos. Pessoal doméstico, mordomos e governantas, certamente. Foi essa a primeira confusão do lilás. Sob a nova cor diluía-se a verdadeira identidade de cada qual.
Houve ainda alguns suicídios de cavalheiros brancos, ex-brancos. Bem entendo o desespero. O lilás era, e continua a ser, a grande ameaça da promiscuidade racial. Não se troca de pele como se muda de camisa.