
Durante a sua meninice, o engº Mota quis ser polícia: “Eram os únicos que não tinham medo dos ladrões” (1). Mas o facto de ser filho varão de um empreiteiro traçou-lhe o destino. Hoje é o “rei” das obras públicas, das operações portuárias, da água, dos resíduos e da logística. A Mota-Engil está em toda a parte e Dom Mota é “O Generoso”. “O Generoso” que emprega ex-ministros e diplomatas. Jorge Coelho, Paulo Portas e Francisco Seixas da Costa são três dos beneficiários.
Jorge Coelho é assalariado antigo do grupo Mota-Engil. Foi mesmo escolhido por António Mota para ser o seu CEO. Entre 2008 e 2013. Actualmente é consultor do Conselho Estratégico. Condição que agora também têm Portas e Seixas da Costa.
O até há pouco vice-primeiro-ministro é consultor para a América Latina e há uma semana lá o vimos estampado na capa de uma revista em plena Havana Velha. Casaco numa mão, pasta noutra e com o ar de quem está pronto para fazer negócios; já o ex-embaixador é consultor para África e há três meses tornou-se administrador da EDP Renováveis.
Tais funções, dizem eles, os que fazem e votam as leis, não são incompatíveis com as suas actividades anteriores. Além de mais, a vida está pela hora da morte, todos eles estão na plenitude das suas capacidades e seria completamente estúpido que as empresas e o país não tirassem proveito das suas boas relações. Nacionais e internacionais.
Ou seja: só por má fé, ou “tese conspirativa” como já disse Portas, é que pode pairar no ar a ideia de que o ex-vice-primeiro-ministro e Seixas da Costa foram contratados para trabalhar na Mota-Engil depois de terem tido papel decisivo para que a Barragem de Foz Tua seja hoje uma obra irreversível.
Uma reportagem exibida no programa “Sexta às 9” no dia 24, quando o pessoal ainda estava atordoado com as “marteladas” da noitada de S. João, dá-nos a conhecer os avanços e recuos de uma obra que garante milhões à empresa de António Mota, à EDP de Mexia e que é uma ameaça à condição de Património da Humanidade do Alto Douro Vinhateiro.
Segundo, Luís Miguel Loureiro, o autor da reportagem, Paulo Portas e a sua sucessora na liderança do CDS/PP, Assunção Cristas (2), então toda-poderosa ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento, mandataram Seixas da Costa para intervir junto da UNESCO.
O diplomata deu boa conta da missão: a UNESCO rasgou o parecer negativo que tinha dado e as gruas da Mota-Engil esventraram o Vale do Tua num abrir e fechar de olhos. A obra está pronta e em breve será inaugurada. Com pompa e circunstância. Evidentemente.
António Mota averba mais uma vitória e Portas e Seixas da Costa estão felizes, pois continuam a trabalhar em prol do país e das empresas que o fazem rumar ao futuro…
(1) Confissão feita a Anabela Mota Ribeiro numa entrevista publicada no “Jornal de Negócios”.
(2) Aquando da privatização da EDP, agora detida pelo grupo estatal chinês, China Three Gorges, o governo de Passos Coelho, escolheu um dos mais importantes escritórios de advogados para assessorar a operação. A Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Soares da Silva e Associados que tinha já a EDP como cliente e Assunção Cristas como advogada. Foi Cristas quem mandou abater 5000 árvores no Vale do Tua, apesar do primeiro parecer da UNESCO condenar a construção da barragem.

Que interessante ,Valeu. Maria