Pouco mais de uma semana decorreu sobre a decisão britânica do Brexit. Serenadas as primeiras ondas de choque a sensação que prevalece é de perplexidade generalizada. No Reino Unido (RU) as vozes mais sonantes do Brexit parecem não saber o que fazer, enquanto os que apostaram no Bremain hesitam em tomar conta do leme. Com alguma lógica dirá Cameron, “quem fez a cama que se deite nela”. Nos centros de decisão da UE (será que existem?), a situação não é mais clara. Enquanto os que se sentem mais diretamente atingidos rangem os dentes e se esforçam por empurrar o RU, urgentemente, para lá do Canal da Mancha, outros, mais sensatos, aconselham cabeça fria, uma saída que tem de ser negociada convindo, por isso, clarificar com quem e o quê se vai negociar.
Para além dos efeitos previsíveis que a saída do RU arrastará noutros Estados-membros, a prazo, nomeadamente o efeito dominó que reforçará, por um lado setores eurocéticos em prol do desmembramento da UE, por outro lado dinâmicas cisionistas dentro de alguns Estados-membros na cola das eventuais cisões escocesa e irlandesa, há outras ameaças à estabilidade europeia que suscitam reflexão.
Há um ponto de fricção que, ao contrário do que se pensava, a “harmonia” da coesão europeia não resolveu e que poderá agravar-se com o Brexit. Estou a pensar em Gibraltar.
Gibraltar, o rochedo-sentinela na porta ocidental do Mediterrâneo que foi o “mare nostrum” dos romanos e é hoje, cada vez, mais a fronteira norte-sul na Euráfrica, é uma herança simbólica do império vitoriano da potência marítima global, o tal em que o sol nunca se punha. Tinha o valor geoestratégico dos pontos-chaves, que controlavam as entradas e saídas dos mares interiores para os grandes espaços oceânicos. Com, entre outros, Port Said e Aden, Ormuz, Malaca, asseguravam à Royal Navy o domínio dos pontos de passagem obrigatórios das grandes rotas transoceânicas. Foram posições determinantes do império colonial britânico, onde Londres foi procurando manter influência estratégica mesmo após o fim do domínio político. Em alguns desses pontos a sua presença foi substituída pelos EUA, conforme estes lhe foram sucedendo como potência hegemónica global, ainda que com diferente estatuto, já que a era colonial se extinguira.
Em alguns casos, como o de Gibraltar, o recuo estratégico do RU deixou situações de facto que geraram novas contradições, de soluções difíceis.
A presença britânica dera lugar à emergência de uma comunidade local, complexa, mescla de descendentes de colonos britânicos imigrados que se fixaram e de naturais da própria região e vizinhas, que passaram a assumir-se como britânicos e se declaram firmes na demarcação em relação aos vizinhos espanhóis-andaluzes. A reivindicação de uma identidade própria, reforçada pela recusa da ditadura franquista e pela diferença de nível de vida nos tempos difíceis do pós-guerra, constituiu um obstáculo à possível negociação do regresso do território à sua envolvência original.
O problema é muito semelhante ao que ocorreu nas Falkland (Malvinas), ao largo da costa sul Argentina, no início dos passados anos oitenta, que deu origem a uma guerra mas cuja solução política continua em aberto.
A pertença plena do RU e da Espanha ao mesmo espaço europeu da UE, não conseguiu contribuir para a resolução do contencioso de Gibraltar. Entretanto foi mantido no dossier dos “assuntos pendentes”, pois Madrid também tem dificuldades em gerir esta questão. Os gibraltinos recusam a adesão mas, mesmo que houvesse uma brusca alteração no sentido de voto em consequência do Brexit, com que estatuto se integraria Gibraltar numa Espanha dividida em regiões? Que reflexos teria nas atuais pretensões autonómicas do País Basco, da Catalunha e da própria Andaluzia? E os efeitos externos, como reagiria Marrocos à espera de uma oportunidade para levantar a questão de Ceuta e de Melilla que Espanha teima em manter sob ocupação para compensar a sua ausência de Gibraltar? E se Marrocos agitar os fantasmas de Ceuta e Melilla que aproveitamento fará a Frente Polisário no Sahara Ocidental para reacender as suas reivindicações?
Neste momento estes problemas, estes focos de conflitos respeitam a cada um dos Estados-membros da EU e não a esta como entidade supra-estatal. Mas com a evolução tendencial para a UE ampliar as suas responsabilidades em domínios como a política externa e a segurança e defesa comuns, poderão vir a ser dossiers delicados para Bruxelas. Problemas que não tiveram soluções diplomáticas enquanto o RU estava “in”, poderão tornar-se focos de tensão quando o RU estiver “out”.
Com o Brexit muita água ainda vai correr debaixo das pontes do Tamisa. Mas muita água também vai correr entre as margens rochosas do estreito de Gibraltar.
Há, na região, um complexo jogo de compromissos que se equilibram: Gibraltar (RU), Ceuta e Melilha (Espanha), Sahara Ocidental (Marrocos). É um equilíbrio precário que dificilmente resistirá à quebra de uma das pernas do tripé.
Obrigada pelo excelente artigo. Maria
Partilho, excelente artigo.