A COR DOS HOMENS/7 – ROMANCE DE FERNANDO CORREIA DA SILVA

5. Avoantes

 

Frigia escapou-se e aqui estou eu na solidão da sala grande. Lembro-me então da preta que fugiu da sova. O que estará ela a fazer agora? A chorar? Pezinhos de lã entro na copa, a escutar o que se passa na cozinha. Ela não chora, está mas é a preparar o jantar. Pelo cheiro é carne estufada com ervas aromáticas que apanhou na horta. Deve ser uma delícia, lá dedo para a cozinha tem a preta…

Enquanto manipula fogão e panelas, Sara começa a cantar, é nascente que tem dentro do peito. Nos seus versos, palavras e frases irrompem articuladas como se fosse branca a modelar as orações. Usa o crioulo para tagarelar e o vernáculo para cantar. Uma vez tentei obrigá-la a falar correctamente. Não conseguiu, começou a rir, gritei-lhe, atrapalhou-se, acabou a chorar.

Sinhô Voss, Sinhô Voss, iô qué falá cumo branco peró iô num sabe, iô num pode.

Não era malícia ou fingimento, na verdade não podia, verifiquei, era incapaz. Mas se é a própria Sara, preta ignorante, quem inventa as letras das suas canções, como consegue a música alçar-lhe o verbo ao nosso nível? Como consegue que ela passe a desenhar e a dizer frases com tanta correcção? É mistério, capricho divino, portanto ninguém pode explicá-lo. É como se ela fosse duas, uma a falar, outra a cantar. É como se a musa, seduzida pelas toadas, de repente baixasse ao corpo da cozinheira…

Ouço-a a cantar, voz de contralto, poderosa. Fico em silêncio mas reparo que acaba de modificar a letra da sua canção. Terá sido por causa dos tabefes:

 

— É formosa a Tua cor,

aleluia!

aleluia!

formoso o rosto dos homens.

Ó Senhor, nosso Senhor,

mas porque batem os homens?

Nunca pensei que eu pudesse vir a ser professor de canto…

Inconformado, outra vez quis tirar a limpo o mistério da correcção daqueles versos, predicados a concordarem com o sujeito, adjectivos com substantivos em género e número. E até a prosódia exemplar… Perguntei a Sara:

— Ouve lá, não tenhas medo, nem te ponhas a chorar que eu não te bato. Mas vê lá se consegues explicar-me porque é que tu cantas que nem um anjo e falas que nem cavalgadura…

Tranquilizada pela minha prévia declaração de intenções, ela a encolher os ombros, a limpar as mãos ao avental, a levantar os braços ao céu, a voltar a rir:

 

— Sinhô Voss, iô falou vedade, iô num sabe mesmo.

— Se tu não sabes, então quem sabe?

— Os anjo sabe.

Eu a pensar que era deboche, eu a rosnar:

— Estás a gozar comigo?

Não se assusta, até sorri enquanto abana a cabeça:

Sinhô Voss, iô num gozá cum Mecê, nunca. Iô fala di anjo qui monta os cavalim branco.

— Os anjos montam os meus cavalos?

— Iô num fala dess cavalim. Iô fala di cavalo di Deus, Sinhô Voss, cum asa, cum tudo.

— Os anjos montam os cavalos de Deus?

— Monta si Sinhô. Monta os cavalim avoante.

— Onde? Aqui, no meu Condado?

— No Condado num Sinhô. No Paraíso, Sinhô Voss, no Paraíso eles monta… É tudo avoante, anjo, cavalim, mi cançon também.

Eu disse que era a musa. Ela diz que é um anjo. Nada a fazer. Jamais conseguirei alcançá-la, desliza numa onda atravessada.

(continua)

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