EDITORIAL – AINDA O LIVRO

Na passada quinta-feira, dia 7, realizou-se em Barcelona o fórum Edita Barcelona, organizado pela Associação Internacional de Editores (IPA), que reúne 60 organizações, associações de classe, de 50 países. Como frase-chave desta reunião, ficaram as palavras de Richard Charkin, presidente da IPA -: “O ego do editor leva-o a julgar-se melhor do que o escritor”.  O presidente da IPA  apela para que se  evite que a Google ou a Apple atinjam uma situação de monopólio no universo do livro.

Diário de Bordo - IIO jornalista do El País,  Alberto García, comenta com graça que este apelo é como se «o representante máximo do futebol mundial afirmasse que o futebol actual  insultou a bola ao prescindir da sua presença durante uma partida da modalidade e que urge devolver-lhe o protagonismo, dando-lhe o papel principal,  que nunca deveria ter perdido”.  O  inglês Richard Charkin (1949), além de presidente da IPA é o director de Bloomsbury (chancela dos livros da personagem Harry Potter). É, pois, um editor experiente, um homem que quando fala sobre edição deve ser escutado atentamente.

Jorge Martins, Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tem a seu cargo a cadeira de Sociologia do Livro que integra o Curso de Especialização em Técnicas Editoriais, uma pós-graduação do Departamento de Filologia Românica, costuma dizer nas suas aulas que «em edição, não se acha – testa-se». Na realidade, nos muitos anos que vivemos nesse mundo, assistimos a numerosas falências, a fortunas desaparecidas em edições comercialmente falhadas; pelo contrário, os êxitos de pequenas casas que cresceram e vingaram, os dedos de uma mão chegam para os contar.

O editor confia no seu feeling (e não há dúvidas que esse sentido existe e, por vezes, funciona). Hoje em dia, não basta que um livro seja bom – o público tem que acreditar na sua excelência (mesmo que ela não exista) – no fundo, o livro é um produto e a sua comercialização obedece às regras do marketing que levam os consumidores a acreditar que um determinado iogurte «regula o trânsito intestinal», que há gelados particularmente «crocantes» e por aí fora… Os editores que editam livros cujas edições recolhem quase totalmente aos armazéns, têm muitas vezes razão – esses fracassos atingem obras-primas (que algum génio futuro poderá descobrir daqui por cem ou duzentos anos); em contrapartida, livros que não passam de lixo cultural, constituem êxitos de vendas.

Desde que a prensa de Gutenberg tornou a aquisição de livros possível a gente a que os códices nunca poderiam chegar, o problema existe. Porém, o presidente da Associação Internacional de Editores, alerta para outro problema que afecta o negócio da edição: «Nós, os editores temos estado tão obcecados em vender que perdemos a noção do que é a trave-mestra do nosso oficio: ser sócio do autor; fomos desleais com ele, obcecados com as fusões e com o volume de vendas. O ego do editor foi de tal modo inflacionado que nos julgamos mais importantes do que o autor, um pouco como o ego dos treinadores dos clubes ingleses de futebol… e vejam como estão agora».

Este editorial já vai extenso e amanhã prosseguiremos com o tema. Hoje fixemos estas duas noções básicas: o editor não deve confiar apenas no seu «faro» – deve auscultar as preferências do público. Se for bem sucedido, não deve esquecer que a figura central do sucesso é o escritor. Como acontece no futebol – os verdadeiros protagonistas são os jogadores e ao treinador cabe o mérito de os ter colocado nos lugares mais adequados às suas características e de ter definido uma táctica correcta.

E só mais uma coisa: a realização do fórum Edita Barcelona justifica que lhe dediquemos dois editoriais. Na segunda-feira, não falaremos de livros. Quem sabe se não teremos de quebrar uma regra de ouro deste blogue – falar o menos possível de futebol?…

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