CARTA DO RIO – 113 por Rachel Gutiérrez

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Se esta Carta tivesse um título seria “As várias faces do Medo”.

 No nosso Rio de Janeiro, neste Brasil que vive ainda uma espécie de “sursis” político e às vésperas das Olimpíadas menos oportunas do planeta, temos medo de nossas próprias escolhas. Temos medo de sair da cidade, por exemplo, porque para tanto é preciso ultrapassar a chamada Linha Vermelha, que atravessa diversas áreas carentes e é margeada por 18 favelas dominadas pela atividade criminal do tráfico de drogas. Temos medo de permanecer porque isso implica em enfrentar as alterações do trânsito, bloqueios de ruas e bairros, multidões, barulho, talvez desconforto, com a sensação de isolamento e desamparo, além do temor de que tudo possa dar errado.  E o pior e mais assustador dos medos: o da possibilidade de ataques terroristas, já que o último perpetrado em Munique, por coincidência ou não, nos remete à tragédia dos jogos olímpicos de 1972 naquela cidade.

Fala-se muito que o Brasil não possui um perfil vulnerável a atentados por causa de suas relações razoavelmente estáveis e harmoniosas com os outros países, mas é preciso lembrar que aqui estarão presentes delegações de todos os principais alvos de massacres recentes e que justamente por sermos conhecidos como um país onde reina a alegria e o bom humor, por encarnarmos, por assim dizer, o oposto do jihadismo sejamos capazes de provocar, mais do que quaisquer outros, seu ódio e sua virulência assassina.

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Talvez seja bom não pensar, como quem se esconde ou apela para fugas como essas tão contemporâneas das redes sociais, dos whatsapps da pseudo comunicação constante, dos celulares e dos tablets. Poderia ser  melhor: contrariando Blaise Pascal, nos entregaríamos a entretenimentos, ou ao divertimento porque para Pascal, como sabemos, o divertimento é tudo aquilo que impede o homem de pensar no nada de sua condição, no lugar minúsculo que ele ocupa nos espaços infinitos que o ignoram, ou que dele prescindem. O divertimento, afinal, o impediria de se lembrar de sua morte certa, pois, “não tendo podido curar a morte, a miséria e a ignorância, o homem decidiu não pensar para ser feliz”.

E entre os divertimentos mais em voga, eis que vai chegar, junto com as Olimpíadas, o jogo que já faz sucesso em quase todo o mundo, o Pokémon. Tentando saber de que se trata, fui ao Google e isto foi o que descobri:

“Pokémon (…) é uma franquia de mídia que pertence a The Pokémon Company, tendo sido criada por Satoshi Tajiri, em 1995. Ela é centrada em criaturas ficcionais chamadas Pokémon, que os seres humanos capturam e os treinam para lutarem um contra o outro como um esporte.” (!)

Capturam, quer dizer captam, suponho,  mas vamos a esta outra informação:

 “A franquia começou com um par de jogos lançados para o Game Boy original, desenvolvidos pela Game Freak publicados pela Nintendo. Atualmente, a franquia se estende em jogos, cartas colecionáveis, série de televisão, além de filmes, mangás, e brinquedos. Pokémon é a segunda franquia de mídia de jogos mais bem sucedida e lucrativa do mundo, atrás da franquia de Mario, que também pertence a Nintendo.”

Precisei recorrer mais uma vez ao Google para saber o que significa “mangá” e verifico a infinita extensão de minha ignorância ou de minha desatualização. Pois só agora descobri que mangá é o mesmo que história em quadrinhos ou banda desenhada.

Pois bem. Trata-se dessa sofisticada história em quadrinhos eletrônica, que está apaixonando milhares de pessoas em todo o mundo, cuja chegada se anuncia como um dos maiores acontecimentos da “temporada olímpica”do Rio de Janeiro.

Mais pessoas serão vistas daqui em diante (pelos poucos que não jogam) com os olhos fixos em seus celulares, enxergando cada vez menos umas às outras ou a cidade ao seu redor, sem olhar uma vez sequer para o céu ou para o mar, ou para um ipê florido. Mais pessoas estarão distraídas, divertidas consigo mesmas e com seus joguinhos eletrônicos, o que servirá para exacerbar a infantilização iniciada com os livros para colorir, que fizeram tanto sucesso no ano passado.

Nossos contemporâneos, nestes “tempos líquidos” tão bem descritos pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, têm medo de enfrentar a realidade e seus desafios: medo do verdadeiro conhecimento, que o excesso de informação escamoteia; medo da tomada de consciência da própria finitude,  que pode ser o início de uma reavaliação ou valorização da  vida; medo de assumir as responsabilidades, que a sociedade e a preservação do planeta estão a exigir; medo da decadência e da velhice, que são tão inexoráveis quanto a morte. E ninguém deseja a alternativa: morrer jovem.

E por que temos tanto medo da morte? Já pensei que assim como quando dormimos, na realidade não dormimos, “somos dormidos”, quando morrermos, “seremos morridos”.  Não é assim? Sou eu que durmo ou é o sono que “me dorme”? Então, quando eu morrer, (afastada a hipótese do suicídio) na verdade não vou morrer, “serei morrida”. E a despeito de todos os nossos medos e dúvidas sobre “o além”, tinham razão os filósofos estoicos, cuja reflexão exemplar a respeito do assunto era mais ou menos assim:

– Se existe Vida após a Morte, não precisamos nos preocupar, pois continuaremos vivos… de alguma forma. E, no caso de não existir (para nós) Vida alguma após a Morte, tampouco precisamos nos preocupar, pois não estaremos vivos, (nem conscientes) para sabê-lo. Portanto, não temos com o quê nos preocupar.

Isso não impede que a ameaça do terrorismo nos inquiete, preocupe e angustie. Se milhares de jovens sem perspectivas continuarem a viver mortificados pela insatisfação e a revolta nas periferias das grandes cidades, isso vai facilitar indefinidamente sua sedução e seu aliciamento para as fileiras do ISIS, comandadas por fanáticos que extraem palavras do Alcorão, fora do contexto histórico e as distorcem para que soem como um convite sagrado e uma incitação à barbárie.

Não para me distrair ou divertir, mas para me refugiar numa espécie de fuga acalentadora, sonho com uma Utopia onde os governantes do mundo estão unidos na luta pela conscientização de todos para que se possa cortar pela raiz o perigo terrorista ao descobrir e respeitar os anseios e as aspirações dos jovens desorientados que o falso Islã quer conquistar.

 

1 Comment

  1. A análise mostra com clareza as razões de tantas fugas e alienações dos problemas do mundo moderno e as injustiças e desigualdades sociais que impulsionam os desajustados a agir com o extremismo do terrorismo. Enquanto os governantes mundiais não se unirem para agir em conjunto para enfrentar as questões de intolerância e eliminar com inteligência e firmeza os focos de arregimentação para destruição do humano.

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