ERA UMA VEZ UMA MENINA CHORONA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Era uma vez uma menina chorona, de olhos tristes que se encostava às paredes da escola, que se assustava quando os rapazes passavam por ela a correr…

Era uma , que pelo seu ar desleixado, fazia os rapazes gozarem com ela. Apontavam para ela e riam-se, e ela fazia um sorriso tímido como que a pedir desculpa por estar ali, por estar desleixada.

Não era culpa dela o estar desleixada, a mãe não a deixava mudar de roupa e, tomar banho era só de vez enquanto.

A água era cara e era cortada muitas vezes. Muitas vezes iam buscar água, com um balde, a uma torneira pública.

A menina tinha vergonha.

Mas veio um dia em que a menina veio com roupa nova, lavada e bem penteada. Todos olharam para ela com espanto. Não podia ser ela!

Começaram a fazer perguntas e ela respondia com lágrimas.

O fotógrafo ia à escola tirar fotografias, se os pais autorizassem. A mãe autorizou, a filha tinha que estar bonita como as outras crianças, e esmerou-se na roupa, na higiene e no penteado.

Mas, é claro, quando chegaram as fotografias esta menina não tinha dinheiro para a pagar… por um dia ela tinha-se sentido igual aos outros, mas sob reserva.

E novamente se sentiu igual quando vários meninos e meninas disseram que não podiam levar a fotografia porque não tinham dinheiro, mas que as mães iam à escola ver as fotografias.

A esperança cresceu, mas as fotografias continuaram nas mãos do fotógrafo.

– Olha que bonita está a minha filha, se não fosse ela ser assim…

Ninguém percebeu o que era ser assim chorona, com medo dos rapazes.

Só ela e a sua confidente sabiam porque ela era assim.

Esta menina vivia com um casal que não era pai nem mãe dela.

Esta menina tinha sido dada para adopção. Enquanto foi pequenina era a bonequinha deste casal, quando cresceu, começou a pedir coisas que os “pais” não podiam dar.

A menina começou a sentir-se gente quando era alvo da atenção dos outros. A menina não se sentia pessoa porque não tinha o carinho dos “pais”.

Por artes mágicas, esta e outras meninas tiveram a fotografia em que estavam “tão bonitas”, como diziam as mães.

Esta fotografia fez a diferença na vida desta “família”.

A auto estima, a coragem de viver tomaram vida na menina e nos “pais”.

A menina era igual a outras tantas meninas que viviam no seu bairro degradado.

– Eu não sou chorona, também tenho uma fotografia!

A menina fez-se mulher, e hoje anda no facebook orgulhosa de si própria.

 Um pequeno pormenor: estes “pais” não eram nem os pais biológicos, nem os pais adoptivos… estes “pais” responsabilizaram-se perante uma tia que tratariam bem esta menina até ela ser grande. E foi assim.

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