O MAPA -(A saga do anadel)- A gaivota de veludo – capítulo 12 -por Carlos Loures

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Como gaivota de aveludadas asas, as sombras da tarde caíam docemente sobre a branca cidade que se estendia, indolente, ao longo da margem direita do Tejo. Tingiam de tons róseos a mancha alva do casario imenso, emprestando-lhe uma cor de carne sensual, de flor tornada incandescente pela vermelha ponência do astro-rei. Desculpai-me, mas, com frequência, sou atacado pela tentação de poetar. É, provavelmente, uma tardia forma de compensar anos da minha distante juventude que passei, ao frio, à chuva e ao calor, sentado à mesa que todas as manhãs montava no largo do Pelourinho, acotovelando-me depois com os demais escrivães, a redigir petições, cédulas, certidões, registos e requerimentos a juízes e desembargadores na fria e despojada linguagem de escrivão judicial. Fraquezas todos as temos e esta, a de poetar a esmo e a despropósito, é só uma das muitas que me afligem. Oxalá fosse a pior! Bem, deixai-me lá concluir a poetice – Se vista da banda d’além, a cidade, docemente banhada pela luz avermelhada do crepúsculo, mais me parecia, como já disse algumas laudas atrás, um corpo de uma jovem mulher sensualmente reclinado ao longo do rio, mirando-se no espelho de suas águas.

Direis vós se sois pessoas práticas, esclarecidas e assisadas: – uma cidade é uma cidade, uma jovem mulher é uma jovem mulher, não misturemos coisas que nada têm a ver umas com as outras. Tendes razão. Mas nesta prosa, como já vos avisei, sou eu quem manda e não vós ou a razão. Perdoe-se, no entanto, a um velho frade, de castidade forçada pela disciplina conventual, senão também pela convicção religiosa, o recurso tão frequente a metáforas moderadamente perversas (perversas, em todo o caso). O meu trisavô, o almogárave Bartolomeu, dizia que as moças do seu tempo eram mais belas do que as coevas de meu avô, o então jovem Lopo. A minha cabeça e a minha memória funcionam de forma bem diferente que a do brioso guerreiro – na verdade, quando nas minhas raras saídas do convento, levado pela minha função de ecónomo que me obriga a vigiar as compras, vislumbro saias, sobretudo de moças, todas me parecem bonitas e sensuais. Apetitosas como rosados pêssegos. Está bem de ver que, com o avanço da idade, fui perdendo o senso crítico que em tempos tive, pelo menos em tão delicada, quão profana matéria, pois noutras vai ficando, de dia para dia, menos tolerante, mais severo.

Voltando a Lisboa. Como em Roma, são sete as suas colinas – Castelo, Chagas, Sant’Ana, Santa Catarina, Santo André, São Roque e, claro, São Vicente. As cúpulas das igrejas, tingidas pela luz avermelhada do crepúsculo, brilhavam como túrgidos seios…mas, – é o último aviso a que a mim mesmo concedo – deixemo-nos de metáforas e de comparações profanas. Os tempos não estavam, nem estão, para tal. Na verdade, apesar da luminosa beleza da paisagem, eram tempos difíceis os que naquela era se viviam, aqui e no Reino. Havia muita actividade e iniciativa. A cidade aumentava, transbordando para fora das muralhas. Como uma cebola, desenvolvia-se por sucessivas camadas: o coração era o castelo de São Jorge, logo rodeado pela pedregosa pele da velha cerca moura; a cerca moura era, por seu turno, envolvida por uma malha urbana que a nova cerca fernandina também já não conseguia conter. A cidade crescia em tamanho e importância, expandia-se em todas as direcções, e as últimas casas de morada tocavam já as hortas, vergéis e almuinhas de Enxobregas a Oriente, a praia de Belém a Ocidente…

Nas taracenas da Ribeira das Naus, carpinteiros, calafates, petintais e remolares, aparelhavam os navios das armadas. Navios que, como o que trouxe São Vicente à cidade, tantas vezes serviam de esquife aos que, com destemor ou acicatados pela dureza da vida, se aventuravam oceano adentro. Dizia-se então por essa época que el-rei D. Afonso, a que por mor das suas conquistas na Costa Bárbara iam chamando o africano, enviaria uma armada para castigar o mouro, o Turco, que nos cercava em Ceuta. Nas ruas, muitas eram as mulheres e as crianças de negro, viúvas e órfãos dos que nos mares se haviam perdido, tragados pelas ondas ou assaltados, mortos ou escravizados pelos corsários. A cidade fedia a incenso e ao olor das velas de sebo com que padres escanzelados amealhavam esmolas e, mitigando sua fome, pretendiam em paga dos óbulos esconjurar a aterrorizante ameaça de peste. Havia mercadoria à venda, mas ao preço a que aqui chegava quem a poderia comprar? Eram – e são, tempos de fartura para os senhores e de escassez para vilões e pobres, queixavam-se as comadres, como se não tivesse sido sempre assim:
– Ó tiozinho diga-me lá a como vale o quintal da fava, pois quero comprar-lhe onça e meia? – Ditos e graças dolorosas como esta tornaram-se populares nestes tempos de fome, pois o povo sempre encontra maneira de troçar da própria desgraça. Talvez seja uma forma de lhe poder sobreviver. No entanto, diga-se em verdade, que a miséria já fora pior em tempos anteriores. Porém, com as desgraças do passado, da peste, dos tormentosos dias dos assédios e das guerras com Castela, podiam bem os da agora. O que os preocupava a todos era a míngua em que viviam. O preço do trigo, da cevada, dos legumes, das carnes, da caça., do azeite, dos figos, amêndoas e tâmaras da manteiga salgada que chegava da Flandres, do ferro que importávamos da Biscaia, do aço e do breu que nos vinham de Florença e de Milão, das lãs que comprávamos a Aragão, do papel que tínhamos de comprar a França e a Veneza, do açafrão, retrós, pano de lã e seda solta que éramos obrigados a comprar aos nossos vizinhos de Castela… Das bolsas dos pobres, cada ceitil que saía provocava um suspiro de tristeza. Também enviávamos para os outros portos europeus alguns produtos, sobretudo o vinho que se fazia em boa quantidade por quase todo o país – o branco, o tinto e o bastardo. Algum azeite se vendia aos estrangeiros, bem como frutos secos, figos e passas de uva, sobretudo. E tecido, de linho principalmente, pois o linho cultivava-se em muitos pontos do nosso território. Desde há anos começara-se no Algarve a pescar atum com apreciável intensidade, lançando numerosas almadravas por toda a costa. O processo de salga, que, dizem, aprendemos com os sicilianos, permite-nos exportar, devidamente embarrilados, muitos tonéis deste pescado. Porém, os mercadores estrangeiros que tão caro nos vendiam os seus produtos, pouco queriam pagar por aquilo que aqui produzíamos.

O encontrar novas terras, aumentando a cada viagem o tamanho do mundo, implicava o sacrifício de todos, dizia quem mandava. Assim seria. Mas o esplendor do Reino não aconchegava estômagos vazios. Para a maioria dos mortais, a descoberta de uma ilha, da foz de um rio, de um monte ou enseada, a construção de um forte ou a abertura de uma feitoria, não compensavam a falta de uma malga de sopa. Por isso, todos se queixavam. Uns com mais razão do que os outros – desde os mercadores despojados pelos piratas que atacavam os barcos e assolavam as costas, aos tendeiros, vendedores a quem as mercadorias vindas da estranja aqui chegavam pela hora da morte. E as sisas e rendas a pagar ao erário levavam, diziam, o pouco que lhes sobrava. Queixavam-se pescadores, regateiras da Ribeira, cortadores, esfoladores de carne, ensaboadeiras de roupa, mestres de calçar as ruas, fendedores de lenha, picheleiros, marchantes e regatões, homens e moças de soldada. Lapidários, esparteiros, cardadores, tapeceiros, saca-molas, algibebes, atafoneiros, bufarinheiros, fanqueiros, todos se queixavam. Porém, no fim desta cadeia de queixumes, não esqueçamos as barregãs, mancebas, «mulheres solteiras» – eufemismos ainda hoje, usados para putas; como se puta fosse palavra feia e não designasse serviçais de corporação antiga e respeitável.

Quanto a mim, são moças que vivem do pecado alheio, pois elas não pecam, limitando-se a vender o mel do seu amor de ocasião. Diz-se que de «vida fácil». «Fácil» é bom de dizer para quem não a vive, diriam as pobres, a quem os clientes escasseavam e os poucos que apareciam, regateavam a venda de seus favores. Esta não é matéria em que me deva enredar, embora não me coíba de dar a minha opinião. Em suma, Lisboa era uma nave louca, onde alguns corvos, tais como os sequiosos meirinhos ao serviço de fidalgos e proprietários, cevavam a fome e das suas sessenta e tal mil almas, poucas eram as que a não sofriam.

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