É num mapa, que se centra a minha narração. No entanto, antes de vos falar desse mapa, devo falar de outros. É conveniente que vos relate sobre tal assunto o que se sabe, ou melhor aquilo que eu sei daquilo que se sabe, acerca de tão respeitável matéria como é a de tentar retratar com verdade, e em corpo inteiro, o mundo em que nos foi dado viver. Corpo que, olhando os sucessivos retratos que dele têm feito, nunca deixou até hoje de crescer.
Durante muitos séculos, a Geografia do grego Cláudio Ptolomeu, um astrónomo, matemático e geógrafo do século segundo, obra inicialmente designada por Cosmografia, fez lei entre os que se dedicavam às ciências náuticas. O texto foi escrito em grego, tendo sido Jacob Angelus quem o verteu para latim. Em Portugal foi Diogo Gomes o primeiro a aludir ao sábio no De primae inventionai Guineae que o nosso conhecido Martinho da Boémia redigiu em latim. O universo ptolemaico era descrito como centrando-se no nosso planeta o qual estaria rodeado por sucessivas esferas celestes sobre as quais se moveriam o Sol e a Lua (Para não aumentar a complicação, não vos falarei das recentes teorias de Copérnico que contrariam decisivamente a concepção ptolemaica do Universo). Porém, já muito antes de Diogo Gomes, tínhamos tido notícia de Ptolomeu através do Almagesto, a versão árabe da sua Sintaxe Matemática. Como por vezes acontece, coisas dadas como certas, não passavam de conjecturas que, formalmente lógicas, não se ajustavam à realidade que depois se conhecia. Os que seguiam as formulações de Ptolomeu, faziam-no levados pela moda que, em meados de Quatrocentos, se impôs e segundo a qual, Gregos e Romanos eram senhores de todo o conhecimento e neles se deviam basear as ciências. Ir além destes promontórios era atentar contra a ordem divina.
Porém, a realidade nem sempre está pelos ajustes de seguir a ciência, como um cão que, abanando a cauda, segue o dono, mesmo que ele seja cego. Prega grandes partidas a quem impõe sobre a experimentação as leis da lógica e das teorias conjecturais. É grande injustiça que o empirismo triunfe sobre o saber de quem mata a cabeça em estudos e deduções, que o humilde lavrador saiba às vezes mais do que o botânico, que o gajeiro tenha mais saber sobre tempestades e bonanças do que o sábio que gastou anos da sua existência a estudar os mistérios do mar. Porém, a vida tem destas injustiças. A verdade não tem pés, mas anda e, na ciência de mapas e cartas, a verdade tem percorrido muito caminho desde que as navegações começaram a inventar mundo. Os ensinamentos dos mestres maiorquinos, genoveses, venezianos e catalães tinham frutificado entre nós. Quando meu avô Lopo se iniciou no ofício das cartas e portulanos, havia já em Portugal alguns peritos naquela arte.
No que se refere às costas do Mediterrâneo, as dúvidas eram já poucas, sendo as cartas, de uma forma geral, coincidentes, salvo uma ou outra divergência nos cálculos das distâncias. Os problemas começavam a surgir quando se queria adivinhar o que haveria para lá do mare nostrum. Foi com base nas navegações que, a partir do primeiro quartel da era de Quatrocentos, começámos a levar a cabo, que as teorias de Ptolomeu, Al-Idrisi, e outros sábios mais recentes, começaram a ser confrontadas com a realidade que essas viagens iam revelando. Por vezes, elas confirmavam os consagrados saberes. Outras vezes, desmentiam verdades enunciadas pelos mestres e consideradas como indiscutíveis. Permitiram corrigir muitos erros seculares e tornar mais rigorosas as cartas geográficas, dando lugar á invenção de novos instrumentos de navegação. Mas também vieram povoar as mentes de quem não viajava com novas aberrações. Estranhos seres com uma só perna, outros com cabeças de cão, homens em que a cabeça começava logo na cintura… Estes estranhos bestiários vinham já de trás, dos gregos, dos latinos, de relatos de viagens fantasiosas. Pena é que as viagens que deram lugar à correcção da ciência geográfica, não tenham posto nas cabeças a ordem que impuseram nas cartas.
Marinheiros bêbedos em escuras tavernas, assustavam quem os escutava com descrições de seres horrendos que habitavam o mundo ignoto que iam desvendando. Não menos bêbedos, os seus ouvintes, imaginavam esses seres fantásticos, projectando-se nas paredes ajudados pelas labaredas das chaminés. Incubos e súcubos, incarnações do Maligno, pareciam povoar essas regiões onde a prudência aconselhava a que os cristãos não se aventurassem. As lendas misturavam-se com a ciência. Porém, se um varão sapientíssimo e ilustre como Damião acreditava, ou dizia acreditar, em tritões e sereias, se um sábio como Münster nos mostrava na sua Cosmografia, há poucos anos, monstros que povoavam os mares e que atacavam sem piedade as naves, como podemos condenar criaturas com pouca ou nenhuma ilustração por acreditar em viajantes que tinham ido a lugares do mundo inexistentes uma década antes?
Voltemos à questão dos mapas. Já antes, as viagens terrestres de Monte Carpino, Rubruck, Corvino, Marco Polo e outros, tinham feito luz sobre rotas do Extremo Oriente. Com as nossas navegações, foram sendo descobertas as de África, permitindo que as cartas fossem incluindo novos e enriquecedores pormenores. Na tese ptolemaica, os oceanos Atlântico e Índico eram mares interiores, não comunicando entre si. Para quem matutava nestas coisas e lia os relatos dos viajantes, fazia sentido. Os cartógrafos árabes já tinham discordado destes princípios, Fra Mauro também. Porém só a experimentação das viagens permitiu dissipar as dúvidas: os navegadores portugueses foram, légua a légua, provando que Ptolomeu não estava certo – que, ao contrário do que o sábio vaticinara, o Atlântico e o Índico estavam ligados e que era, por isso, possível contornar África e atingir por mar à Índia e à China. Viagem a viagem, «verdades» que pareciam sólidas, davam lugar à verdade, a qual, como já, disse, mesmo sem ter pés, não cessa de ir caminhando. Enquanto houver homens a pensar agindo e a agir pensando, haverá coisas a descobrir. Daqui por mil anos saber-se-á mais do que hoje, mas haverá ainda muita estrada para a verdade trilhar. Agora a incógnita era saber o que estaria a Ocidente dos arquipélagos atlânticos que entretanto se tinham descoberto. Outras terras e mares? O fim do mundo? Um abismo que em que se precipitariam as naves, caindo sobre o vazio ou indo parar ao Inferno? Os adeptos das novas ideias diziam que se iria dar às Índias. Havia teorias para todos os gostos.
Abraão Cresques, um judeu maiorquino, executara, na segunda metade da era de trezentos, um planisfério onde os contornos da Europa e do Norte de África eram representados com o rigor permitido pelas navegações que até então tinham sido feitas, mostrando, todavia, com hesitação e fantasia as costas do Extremo Oriente. Este planisfério foi importante para orientação dos pilotos portugueses, pois quase todos reconheciam a sábia informação que nele se continha. Jaime de Maiorca, também designado por Jafuda Cresques, seria, segundo se julga, seu filho e veio para Portugal cerca de 1420. Com ele veio a arte dos mapas e cartas, pois foi Jafuda quem ensinou os nossos primeiros debuxantes. As suas lições dariam frutos: passadas poucas décadas, já tínhamos executantes de grande qualidade. Uma conclusão a que estas décadas sobre a produção de algumas de algumas das melhores cartas e portulanos que se conhecem dá lugar é que, de uma carta para outra e à medida que as navegações, sobretudo as dos Portugueses, se foram fazendo, o continente africano foi crescendo. De carta em carta, a África foi aumentando para Sul. Sem falar na dilatação do mundo para Leste e para Oeste.
E não são só as novas terras cuja localizaç
ão vão revelando. É a precisão das distâncias de porto para porto, de foz para foz, as minúcias com que se debuxam colinas e serras, rios e ribeiros, prados e caminhos, cidades e fortalezas. As cartas náuticas além de registar novos nomes, exibem um rigor que os novos instrumentos de navegação permitem. É um milagre que ante os nossos olhos se vai produzindo: a Oeste da Europa, para lá dos Açores e de Cabo Verde, os contornos do novo continente que Colombo supunha ser as Índias e a que agora chamamos América, em tola homenagem a Américo Vespúcio, um florentino que, tendo trabalhado ao serviço de Portugal, fez depois viagens por conta dos reis de Castela e Aragão tendo, segundo se diz sem que se saiba se é ou não verdade, tocado pela primeira vez, em 1499, o Sul do tal continente de cuja existência não havia notícia. Martin Waldseemüller, na sua Cosmographiae Introductio, datada de 1507, sugeria o nome de América para o continente recém-descoberto e a que o nosso Pedro Álvares Cabral tinha aportado em 1500. Embora tonta, a sugestão de Waldseemüller prevaleceu. Se, como diziam, a Terra era esférica como uma laranja, se navegássemos sempre para Ocidente iríamos arribar às Índias, à China e às Arábias. Era o que pensavam Colombo e muitos outros navegadores e sábios. Fazia sentido. Se era verdade ou não, isso já é outra história. Quem quisesse saber a verdade teria de lá ir. Colombo foi e equivocou-se. Os Portugueses foram e acertaram.
