O MAPA (A saga do anadel)- No Falcão Azul/17 – por Carlos Loures…
Quando naquele entardecer de Maio, chegou ao Falcão Azul, o mestre Fernão Lopes falava sobre coisas triviais com Jacob, o filho do tendeiro. Jacob andaria pela idade de Lopo. Ajudava seu pai nas lides do negócio, preparando a aprendizagem para o herdar quando chegasse a altura. Ao vê-lo chegar, o jovem hebraico afastou-se. Não querendo antecipar-me à roda do tempo, dir-vos-ei que este Jacob Levi viria a ser meu avô materno, já que Samuel veio a ser, tal como Simão, meu bisavô. Porém, naquele dia de Maio do ano de 1459, tudo isto pertencia ainda a um distante futuro e era inexistente. Quando Lopo se aproximou, o cronista reparou no ar triste que o jovem trazia estampado no rosto. A desolação legível na expressão do rapaz era de fácil explicação: vinha de se cruzar na Rua Nova dos Mercadores com Matilde, que ali comprava uma coifa de linho num tendeiro judeu. Com ela estava Beatriz, a irmã mais velha de Lopo que era muito amiga e confidente da vizinha – embora fosse um pouco mais velha do que ela, cerca de dois anos.
As jovens eram unha com carne, sempre cheias de pequenos segredos, de conversas travadas em voz ciciada e quase sempre terminadas em juvenis risadas. Com as duas raparigas viera Leonor, uma tia solteira, irmã da mãe de Matilde, senhora ainda jovem, pois teria, quando muito, trinta anos. Na juvenil perspectiva de Lopo, essa era uma idade avançada e respeitável. O pior de tudo, era que atrás delas, como se de um pajem se tratasse, caminhava Julião, com a sua melhor roupa, bem penteado, com ar aprumado. Carregava os embrulhos com as compras que as donzelas tinham feito. Sem que elas vissem, abandonou o ar bem comportado e fez uma carantonha de troça. Julião Fernandes era um moço com a idade de Lopo, que fora seu companheiro de estudos na escola catedralícia e que aprendia o mester de escrivão. Seguia Matilde como um cachorrinho e era seu rival no assédio ao coração da moça, embora continuassem amigos. Lopo, mais do que sabia, sentia que ela o preferia, tratando Julião como um vassalo. Mas, nestas coisas, nunca se sabe…
O que é bom que se saiba é que a Rua Nova dos Mercadores continha nas suas cento e trinta braças de comprimento por quatro de largura um mágico universo onde se encontrava quase de tudo – panos variados, livros, frutas frescas e secas, mercearias e, sobretudo, as tendas dos Arcos – Arcos dos Barretes e Arcos dos Pregos, com as suas boticas, livreiros, sirgueiros, mercadores de sobrado, algibebes, sapateiros, fanqueiros. Tendas de gulodices – ameixas cozidas, arroz-doce, gergelim, pinhoada, nogada, marmelada, laranjada, cidrada, embora não tão boa quanto a do mestre Samuel, a menos inocente aguardente, e, sobretudo, não esquecer, os famosos fartéis que são bolos de açúcar e amêndoa. Vendiam-se além das belas escarlatas chegadas da Flandres ou de Inglaterra e pelas damas de mais posses sempre tão cobiçadas, cobertores de Castela, colorida fitaria, reposteiros, alcatifas, louças de Sevilha e de Talavera, telhas de Sacavém, o sumagre, produto indispensável para tingir tecidos, sapatos, botas e pontilhas, coifas, barretes e carapuças, para não falar nos cintos, luvas, colares, pulseiras, fios, anéis, relicários, os firmais com que se prendiam as roupas, as íntimas ligas, calças e fraldilhas…
Um maravilhoso mundo de onde se excluíam as mercadorias e actividades menos limpas e de odores menos aceitáveis, tais como o eram a preparação de carnes e de peixes, que se fazia mais a Ocidente, na Ribeira, local onde ficavam também as taracenas. Aqui, tudo era agradável à vista e ao olor e principalmente as damas se perdiam, entontecidas à vista de tanta beleza. Lopo costumava vaguear por ali ao fim da tarde, antes de só ter olhos para Matilde, mirando as moças que quase sempre por ali havia em abundância, e agora folheando os livros empilhados nas bancadas. Se estivesse provido de algum dinheiro, comprava, como já disse, um que enriquecesse a sua modesta livraria e, também, o seu ainda reduzido saber.
Ela, a sua bem-amada Matilde, estava, com as duas acompanhantes, discutindo, regateando com o tendeiro o custo da coifa, como sempre era conveniente fazer quando se negociava com filhos de Moisés. Beatriz comprara já um lindo gomil de louça. Ao vê-las, Lopo continuou a andar, mas sem olhar o chão como sempre é também aconselhável proceder nas ruas de comércio. De súbito, uma galinha, saída sabe-se lá de onde, embaraçou-se-lhe nas pernas e começou aos saltos e a cacarejar assustada, com medo de que o rapaz a pisasse. Para evitar causar dano ao estúpido animal, quase perdeu o equilíbrio e só não caiu porque se amparou a uma velhota gorda que, agastada, o empurrou, gritando feios impropérios.
Matilde, com a coifa nas mãos, interrompeu o seu negócio com o tendeiro e seguiu atentamente toda a cena. Riu-se muito, no que foi acompanhada por Beatriz e pela tia Leonor. As límpidas risadas das jovens e da senhora crivavam-se no coração de Lopo como cruéis punhaladas. Julião simulou um ar contido, mas os seus ombros estremeciam com as gargalhadas que fingia tentar sufocar. Lopo sentiu o sangue chegar-lhe ao rosto e Matilde, por certo, com pena da sua turbação, tapou os alvos dentes e tentou, em vão, compor um ar muito sério quando lhe fez um breve aceno com a mão livre. Porém, os seus olhos continuavam rindo com travessura. Julião Fernandes fez uma vénia exagerada que o jovem copista ignorou. Nervosamente, Lopo correspondeu ao cumprimento das raparigas e passou por elas muito direito, sentindo, logo que passou, estoirar nas suas costas as gargalhadas das três jovens mulheres, acompanhadas pela voz estrídula do aprendiz de escrivão. Que funesta ideia aquela de ir à Rua Nova dos Mercadores antes de passar pela locanda do mestre Samuel Levi. Quando vira Matilde com Maria Beatriz, logo pensara ser esse um bom pretexto para se aproximar e trocar com a jovem algumas palavras. Contudo, a estúpida galinha, a soez velha gorda e, principalmente, a sua tendência para ser desastrado, tudo tinham deitado a perder. Por isso, quando, depois de pedir licença, se sentou à mesa do venerável ancião, o seu ar era tão triste que o mestre Fernão Lopes não pôde deixar de se rir da cara do jovem:
– O que tens rapaz? O que te atormenta num dia tão bonito? – E insistiu muito em saber qual era a sua preocupação. Apanhado de surpresa pela pergunta, o jovem resolveu mentir:
– Eu não tenho nada, estou bem – após uma pausa, acrescentou – Sofro por causa de um amigo que está morto de amores por uma moça.
– E então? Isso é coisa muito natural. Pior seria se o teu amigo morresse de amores por uma cotovia, uma flor ou uma enxada. Isso, sim, são coisas que apenas acontecem a loucos e a poetas. Um rapaz apaixonado por uma moça? – O mestre deu uma gargalhada – É coisa mui normal e que acontece no mundo milhares de vezes em cada segundo. É esse fenómeno tão banal que mantém o ininterrupto fluxo das gerações e as transforma num rio de interminável caudal – o jovem suspirou:
– Pois, eu sei. O problema é que ela se ri dele e parece não o amar nem poder vir tal coisa a acontecer.
– E tão infeliz te sentes por causa desse teu amigo? – Perguntou zombeteiro o ancião.
Enchendo-se de audácia, Lopo fez um discurso mais longo:
– Pois é, mestre, mas a questão está em que esse meu amigo está enamorado, apaixonado mesmo, por uma donzela de tão grande formosura que, quando a vê, quando a encontra na rua ou na missa, fica tolhido da voz, sem poder falar. Queria dizer-lhe como a acha bela e que gostaria de saber se pode acalentar alguma esperança, mas sempre fica com a fala e o discernimento entaramelados. Gagueja tolices que muito fazem rir a moça e muito o embaraçam. Amaldiçoa a sua estúpida boca que parece ganhar vontade própria e desatinada. O pior é que existe um outro pretendente…
– É um grande problema – reflectiu o ancião com um ar grave, mas com os olhos rindo e desmentindo a gravidade do tom – mas isso são coisas que acontecem aos rapazes, sobretudo se o teu amigo tem a tua idade.
Lopo assentiu gravemente.
– Sabes? O teu amigo deveria escrever uma cartela à tal moça.
– Uma cartela? – Perguntou.
– Sim, uma cartela, dizendo isso mesmo. Que ela é a rainha de todas as formosuras, que a ama. E perguntando-lhe se é correspondido. E depois, caso ela não se enfade, deve começar a dirigir-lhe algumas palavras sempre que a encontre. Como vês, é simples.
– E se diz que não? Ou pior, se não responde? Se prefere o outro?
– Ora, nesse caso, apenas resta ao teu amigo apaixonar-se por outra moça que lhe dê mais atenção e que conteste às suas súplicas – e acrescentou – Fica sabendo que as há por aí aos arráteis e para todos os gostos. E todas elas de maravilhosa formosura. Para quem as ame, claro.
Na verdade, vistas assim as coisas, nem parecia demasiado difícil.
O MAPA (A saga do anadel)- Conversas de marranos/18 – por Carlos Loures…
Lisboa, Julho de 1485.
Falam pela primeira vez, numa quente manhã de Julho, na botica do mestre Ezequiel, na Travessa das Flores, a São Lourenço, onde, como quase todos os dias, o rapaz vai comprar as drogas necessárias para preparar tintas de que o mestre necessita: pigmentos, óleo de sementes de linho, cobalto, manganés, chumbo, sulfato de bário… Quando entra, um jovem estrangeiro que conhece de vista, pois desde há dias se cruza com ele nas imediações da tenda das drogas, conversa com o velho boticário e mostra-lhe um belíssimo exemplar do Sefer ha-Zohar – «O Livro do Esplendor», escrito pelo rabi Shimon bar Yochai. O boticário quer comprá-lo e vai fazendo propostas, elevando moderadamente a oferta. O estrangeiro diz que não, que foi uma oferta de sua mãe, já falecida. Só o mostrou por ser coisa de que muito se orgulha, afirma, fazendo um ar de comoção e olhando de soslaio o aprendiz, como que envolvendo-o na questão. Depois, limpa uma lágrima invisível e guarda o livro numa grande bolsa que traz sob o mantel, nunca deixando de olhar para o jovem. Perante a força do argumento, Ezequiel deixa de insistir.
«Conversa de marranos», pensa o rapaz, esperando pacientemente que velho o venha atender. O jovem estrangeiro fala depois com ele, enquanto o boticário avia a lista – qualquer anódino comentário sobre o terrível calor que faz e sobre a seca que atormenta as culturas. O aprendiz, apesar de intimidado, sente-se um pouco orgulhoso por aquele jovem tão bem trajado e com ar tão sabedor, se dignar dirigir-lhe a palavra, sabendo-se como costumam ser arrogantes os hebreus, sobretudo os ricos, como parece ser o caso. À noite, terá uma história interessante para contar à sua companheira, judia recentemente convertida.
O estrangeiro que comprara a Ezequiel uma mezinha para o bom funcionamento intestinal, sai ao mesmo tempo e convida-o para ir tomar uma bebida fresca a uma locanda próxima. Quando sai da botica, tendo andado algumas braças, atira fora o pequeno embrulho, vindo logo dois cães farejar. O estrangeiro ri-se: «medicina de perros, boa para perros!». Perdeu o ar contrito e ascético que travestira na botica. Na locanda, quando se sentam e pedem as bebidas, o estrangeiro pergunta ao aprendiz como se chama, o que faz. Responde com vaidade que é debuxador de cartas de marear. Bem… emenda, aprende a arte com um reputado mestre. Começam a beber e o estrangeiro, que fala um português quase correcto, embora com um acento forte (de castelhano?), faz perguntas sobre perguntas. Sem saber como, diz-lhe o nome, onde mora, fala-lhe do seu envolvimento com uma judia convertida e, sobretudo, descreve-lhe os trabalhos em que a oficina está implicada. Nem se esquece de falar nas reuniões das sextas-feiras, dos sábios que ali, na sua presença, discutem temas de alta ciência, tais como a verdadeira dimensão do mundo. Quem são e como se chamam. Às vezes, até pedem a sua opinião, informa com ar modesto. Estão a fazer um mapa, um planisfério. É coisa importante, mas nunca o viu, pois mandam-no sair quando trabalham nele. Não se esquece também de dizer que no fim de Janeiro passado, um deles, o mais velho saiu do Reino – «Um livreiro marrano… um hebreu muito sabedor, como vossa mercê. Sabe, aqui no Reino, a vida não está nada boa para a vossa nação». O outro ri-se muito:
– E para a tua nação, como vai a vida neste Reino para a tua nação? – Enquanto fala, leva os dedos à corrente de ouro que traz ao pescoço e de onde pendem numerosas medalhas com efígies de santos, crucifixos, estrelas de David, os hexagramas que simbolizam a união entre o Céu e a Terra…
Quando à noite fala com a sua senhoria e companheira, conclui que disse ao estrangeiro tudo e mais alguma coisa e do outro nada soube. Nem sequer o nome.
– A bebida é chave que abre muitas portas – proclama, sentenciosa, a mulher. E pergunta:
– Que romance me vais ler hoje?
O MAPA (A saga do anadel)- Chuva de Primavera/19 – por Carlos Loures
Lisboa, Maio de 1459.
