O MAPA – (A SAGA DO ANADEL)- RIXA NA LOCANDA 26 – por Carlos Loures

Imagem1Prevendo a possibilidade de ter de reprimir desacatos, de repor a ordem, Lourenço entrou no Falcão Azul com mão apoiada no pomo da espada de serviço Era uma boa lâmina, embora de concepção já um tanto antiga, chamada de «guarnição à portuguesa», caracterizada pelas guardas curvas orientadas em direcção à lâmina e dotada de contraguardas que protegiam os dedos, como nenhum dos outros modelos mais recentes, dos golpes das armas dos adversários. O seu porte e vestimenta, com o tabardo curto e o saio a não ocultarem completamente a loriga e a cota de malha, denunciavam nele o guerreiro profissional. Logo que transpôs a porta, pôde verificar que, em duas mesas situada junto da janela à direita da entrada – a mesma janela junto da qual seu pai costumava conversar, trinta anos antes, com o mestre Fernão Lopes – um grupo de homens, gente fidalga e rica, bem se notava pelas suas vestes e armas, cantava e gritava, batendo com as canecas de estanho sobre o tampo das mesas.

 O agudo poder de observação, treinado para tudo ver com a rapidez de um simples olhar, permitiu-lhe abranger o que era essencial naquela cena vulgar. Eram em número de seis os ébrios, na sua maioria homens ainda jovens, na casa dos trinta anos, apenas um sendo bastante mais velho. Gritavam jocosos insultos e chufas entre si e continuando a beber e a reclamar sempre que as canecas se encontravam vazias. De todos, apenas conheceu o homem mais velho da mesa, o antigo companheiro de estudos de seu pai, Julião Fernandes, que, segundo ouvira dizer, trabalhava agora como escrivão numa casa nobre. Julião fez-lhe um cumprimento rasgado e irónico a que Lourenço correspondeu com um breve aceno. O amigo de Lopo não esquecera o duro interrogatório a que fora submetido quando do assassínio do debuxante, nem a devassa feita à sua vida privada.

            Desorientado, Jacob, corria de uns para outros com um sorriso nos lábios, tentando comprazê-los, satisfazer rapidamente todos os seus caprichos, por disparatados que fossem, e evitar males e estragos maiores. Quando Lourenço entrou, os seis homens olharam-no por momentos, mas logo desviaram a vista. Um deles disse qualquer coisa como «o pardal lá meteu o pé no laço». Lourenço ouviu o comentário, mas procedeu como se nada tivesse escutado. Mostrando uma tranquilidade que não sentia, quase como se os não tivesse visto, voltou-lhes ostensivamente as costas e encostando-se ao balcão, pediu à senhora Ana, mãe de Débora, que estava por detrás e também de rosto lívido com receio do que poderia suceder, o seu habitual copo de hidromel e, já agora, visto que desde há umas horas que nada comia, uma das deliciosas cidradas que ali se vendiam. A senhora Ana e Jacob fitaram Lourenço com o desespero de náufragos que vêem uma tábua a que se agarrar. Conhecendo-o desde petiz e embora sempre o recebessem mui cordialmente e desde há muito tivessem adivinhado o grande e sortílego encantamento que a sua filha Débora provocava naquele simpático gentio, nunca o tinham acolhido com tanta ansiedade. Depressa lhe trouxeram o hidromel e a cidrada, acompanhados por um sorriso de esperança e por uma súplica molhada em silenciosas lágrimas.

            Embora, como já vos disse, a cidrada fosse uma iguaria mais comum de se consumir por alturas do Natal, o mestre Jacob, mantinha as artes, transmitidas por seu pai Samuel, para as vender durante todo o ano na sua locanda. E eram as mais saborosas que Lourenço conhecia em toda a cidade, talvez porque na sua mente sempre as associava a duas coisas: à memória de seu pai, em cuja companhia, ainda menino, as provara pela primeira vez, e ao sorriso, à esplendorosa figura de Débora, a filha do tendeiro. Despertando o besteiro destas divagações, da mesa dos fidalgos ébrios logo veio mais um gracejo pesado, soês, aludindo à inocente bebida que Lourenço pedira e ao doce que também encomendara e que, segundo eles, era coisa «própria de meninos embicados e de delicadas moças». Como competia a um zeloso, mas ponderado agente da autoridade, Lourenço, embora não tendo perdido uma palavra deste insulto, voltou a simular nada ter ouvido, continuando a beber em pequenos goles, sem responder às provocações dos fidalgos, aparentemente motivadas pela excessiva ingestão de vinho. Não reagira, embora dentro de si a cólera não cessasse de ferver a cada momento que passava com maior violência. Mas, embora tal parecesse difícil, as coisas iriam ainda ficar piores.

            Detrás do balcão, vinda dos fundos, surgiu então a luminosa Débora, filha de Jacob e neta do velho Samuel, que ainda por lá se sentava, caturrando e desfiando histórias de tempos passados, como todos os velhos gostam de fazer – eu que o diga a vós que o sofreis! A moça transportava uma bandeja com pão ainda quente, bom queijo de cabra vindo de Azeitão e um generoso canjirão de barro, cheio até cima do famoso vinho tinto de Alenquer que ali se vendia, amplamente comprovado pelo palato de exigentes almotacéis, pois Lourenço, tal como seu pai e avô quebrara a tradição do velho almogárave, que bebera por si e todas as suas futuras gerações, e nunca bebia álcool. Quando a viu, o jovem soldado em vão a tentou impedir de prosseguir o seu caminho, abrindo-lhe os olhos numa mensagem desesperada. Talvez devido à tensão que se instalara na taverna, a moça não entendeu o recado e dirigindo-lhe o habitual e lindo sorriso um pouco velado pelo temor generalizado que por ali adejava como ave funesta, num rápido tremeluzir de longas pestanas e num clarão de alvos dentes, foi até à mesa dos barulhentos fidalgos que a acolheram com gritos, palmas e gargalhadas alvares.

            Ao vê-la surgir, Lourenço logo concluiu que o casal de judeus tinha cometido um erro ao enviar a filha para junto daqueles bêbedos. Para ele era mais do que óbvio que deveria ter continuado Jacob a servi-los. Sem se voltar, foi ouvindo, com uma fúria que, embora tentasse conter com todas as forças, não cessava nunca de crescer, os risos e a asquerosa galhofa dos homens festejando mais a chegada da bonita moça do que a vinda das vitualhas. Um dos desordeiros disse, em voz ciciada, uma qualquer inaudível grosseria e o outro, o tal que a todos se impunha de forma muito óbvia, contestou-lhe com entaramelada voz de ébrio:

            – Não digais uma coisa tão desacertada, D. Tiago. Bem sabeis que, mercê das suas crenças pagãs, esta moça não pode comer carne de porco e por imperativo da sua falsa religião, não vos pode acolher dentro dela – e acrescentou – se tal lhe fosse permitido, à minha fé vos digo que eu estaria nessa pretensão à vossa frente por direito de idade e de linhagem – e acrescentou com falsa compunção – todavia, ai de mim! Deus sabe que a minha carne não é mais santa e menos cerda do que a vossa.

            Houve uma gargalhada estrondosa soltada pelos seis homens. Os alarves sublinhavam os seus risos com grandes punhadas no tampo de madeira. Depois, Lourenço, sempre de costas, fingindo absorvido em saborear a sua cidrada e em beber o seu hidromel, ouviu a moça dizer num tom de temerosa queixa:

            – Deixai-me, senhores, rogo-vos por misericórdia a vossas mercês. Tende vossas senhorias piedade de mim por mor de vossas mães e irmãs – Lourenço apercebeu-se pelo tom angustioso de súplica e temor, bem evidentes na voz da rapariga, de que, além das grosseiras palavras dos fidalgos, estaria também a verificar-se quaisquer outros e mais graves abusos. Ouviu Julião berrar, em tom irado, numa voz enrouquecida:

            – Alto lá, marrana – as nossas santas mães e irmãs não devem nunca ser aqui invocadas por boca ímpia nesta suja locanda!

            A paciência de Lourenço atingira o limite. Encolerizado, resolveu pousar a cidrada no prato e voltar-se para ver o que se passava. E não gostou mesmo nada daquilo que os seus olhos puderam observar. Um dos homens, o tal mais bem trajado e que parecia mais poderoso e importante, tinha ambas as mãos assentes nos generosos seios da rapariga. Ela tentava esquivar-se, mas um outro empurrava-a por detrás, impedindo-a de fugir. Um terceiro energúmeno, Julião, preparava-se para lhe rodear a cintura com os braços. Débora estava emparedada entre três dos arruaceiros e chorava silenciosamente de embaraço e impotência. Mas as lágrimas dela, bem como os gritos de protesto dos pais, de nada serviam. Os bêbedos prosseguiam nos seus desmandos. Os choros e protestos pareciam, em vez de aplacar, aumentar a sua crueldade.

            Lourenço, sempre com a mão esquerda apoiada sobre as guardas da espada, avançou. Aparentava uma grande calma, embora no seu íntimo continuasse a ferver o incandescente vulcão. Num gesto súbito, com a mão direita empurrou, com uma súbita, e talvez excessivamente forte palmada desferida num dos ombros, aquele que apalpava brutalmente os seios de Débora. O homem, desequilibrado pelo inesperado empurrão, caiu desamparado sobre a mesa, derramando o vinho dos canjirões e partindo pratos e copos. Débora logo aproveitou a confusão que se estabeleceu, para se escapulir para junto de seus pais que tremiam e choravam atrás do balcão. Com uma voz de cólera mal contida, Lourenço ordenou-lhes:

            – Basta, meus senhores. Por hoje a vossa festa está terminada. É melhor pagardes a despesa e sairdes antes que as coisas piorem para vós – depois gritou, perdendo um pouco o domínio de si mesmo – Saí já! – E a espada começou lentamente a ser retirada da bainha.

            O homem que caíra levantou-se de um salto, com uma agilidade, assaz estranha em quem, ainda momentos antes, cambaleava. Sacudindo-se da poeira do sobrado, compôs os cabelos desalinhados e aprumando a postura de ébrio, com a lividez da cólera inicial a dar progressivamente lugar no seu rosto à vermelhidão da fúria, já de espada desembainhada, gritou:

            – Quem nos manda sair? Quem és tu, rapazote merdilheiro e insignificante para nos dares ordens?

            Lourenço respirou fundo, tentou dominar a ira que não cessava nunca de crescer, e recuperou, pelo menos aparentemente, a calma. Foi já quase serenamente, com uma voz normal e grave, que respondeu:

            – Sou eu, Lourenço de Mateus, besteiro da guarnição do alcaide-mor e servidor de Sua Majestade. Ordeno-vos que saís!

            Os homens, ardendo em fúria, quiseram todos falar todos ao mesmo tempo. Gritaram, gesticularam, levaram as mãos às empunhaduras das espadas. O que caíra e parecia ter autoridade sobre todos os outros, fazendo-os calar com um gesto enérgico, disse-lhe, irado:

            – Um besteiro? O que é um besteiro para dar ordens a fidalgos? O que faz um besteiro além de colher o lixo que suja as ruas?

            – Um besteiro é alguém capaz de cortar as orelhas a bêbedos e a arruaceiros e de limpar o lixo que, por vezes, se acumula, não só nas ruas, mas também em locandas e tavernas.

            Fez-se um grande silêncio, como se o grupo, apanhado de surpresa pela réplica do jovem, estivesse a tentar digerir com dificuldade a afronta que lhe era feita por tão insignificante personagem. O que fora projectado para o chão e parecia ser o mais importante, disse então numa voz onde não pairavam já nem sombras de embriaguês:

            – Sabereis acaso, senhor besteiro do alcaide-mor, com que espécie de pessoas falais?

            – Saiba vossa senhoria que sei bem com que espécie de pessoas falo – olhou Julião que se encostara à parede como se quisesse fundir-se com ela – Falo com pessoas embriagadas e sem sombra de vergonha que deviam ter parado de beber horas atrás antes de o tino que lhes restava, morrer afogado em vinho – olhou novamente Julião – Gente que não sabe distinguir uma donzela de uma manceba, nem a honra da desonra.

            O homem não gostou desta resposta e avançou ameaçadoramente com a espada em riste, o pé direito à frente, numa trôpega meia-espada, tentando atingir Lourenço. Porém, como que toldados pelo vinho, os seus movimentos eram muito lentos e torpes. Habilmente besteiro esquivou-se sem dificuldade aos perigosos, embora canhestros, botes. Tentando pôr cobro às tentativas do fidalgo, apontou a sua arma ao peito do adversário num gesto que era mais de dissuasão ou de simples intimidação do que de propriamente de agressão. Porém, o homem, parecendo enlouquecido pela raiva, em vez de recuar como lhe seria aconselhável, avançou, quase caindo para a frente e a ponta da arma do besteiro espetou-se-lhe no peito. Caiu. Houve gritos. Um dos companheiros acorreu a debruçar-se sobre o corpo que parecia inanimado. E mostrou a todos um lenço encharcado em sangue:

            – O conde está muito mal – voltou o rosto enfurecido para Lourenço – Lourenço, siderado pelo espanto e sobretudo pelo temor de ter morto o homem, estava imóvel como uma estátua, mantendo, no entanto, a espada em guarda. Outro dos companheiros do ferido gritou-lhe então com voz alterada, mas onde não havia quaisquer vestígios de embriaguês:

            – Ides ser enforcado, maldito vilão.

            Perplexo, colhido pela surpresa, pois de um momento para o outro, passara de defensor da ordem a criminoso culpado de homezio, ia a responder, explicando que não tivera intenção de ferir o fidalgo, mas sim de se defender e de o intimar a largar a arma. Que, como tinham visto, fora o conde quem, impulsionando o corpo para diante, se espetara na sua espada e não o contrário. Não teve tempo para explicações, pois um dos comparsas desferiu-lhe um violento golpe por detrás, com a prancha da espada, usando esta como se fosse um cacete. Lourenço caiu inanimado.


 

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