CONTOS & CRÓNICAS – O ESCRITOR DA SEMANA – UM LUGAR NO PRESENTE – CATARINA PEREIRA/7

contos2 (2)

“Emília”, ela gaguejou, a voz abatida destoando das mãos agitadas a procurar qualquer coisa na bolsa.

A outra recitou os nomes dos filhos escorregando no banco, por pouco não despencando dele na curva fechada.

A van parou junto à calçada e elas desceram devagar, atentas às falhas nas pedras portuguesas, ao último retoque de batom, à fila tortuosa na entrada do teatro.

Ajeitando o paletó do terninho em risca de giz, bom para o ar condicionado, embora quente demais para a noite de verão, procurou sem encontrar a razão para aquele nome. Não o colocaria numa filha de verdade.

 A peça, modernidade sem pé nem cabeça, demorou cem anos até os aliviados aplausos finais.

A volta seria silenciosa e monótona, bem diferente das noites de comédias.

A van rodou dezenas de ruas entregando senhorinhas a meio passo do sono, exceto pela tagarela magriça. “Você mora com ela?” “Com quem?” Quis saber, mesmo tendo a certeza de morar sozinha há mais de ano, desde a morte de Bonifácio, vira-lata recolhid da rua numa tarde chuvosa de sábado, o relacionamento mais longo que tivera na vida. “Sua filha. Emília, não é?” Deu graças aos céus e um boa noite apressado ao reconhecer o prédio onde morava. Desceu sem esperar a ajuda do motorista e se afastou ouvindo “amanhã continuamos a nossa conversa”.

Atravessou a sala azulada pela lua cheia e sentou-se na poltrona de couro, encarando a televisão desligada. Acendeu um cigarro e brincou com o reflexo da brasa na tela. Uma merda voltar a fumar.

Ao entrar na casa dos sessenta achou que, apesar dos cabelos descorados e da pressão um tantinho alta, havia chegado, finalmente, a uma idade confortável. Deixara para trás a vida chocha, dividida entre a falsa animação do cargo de secretária numa grande empresa e os sonhos, bem comuns, um amor, uma cabana, uma penca de crianças brincando no quintal. Lembrava-se melhor dos sonhos. Os amores, meia dúzia de desacertos prontos para sumir à simples visão de uma aliança, pareciam agora, atores cômicos perdidos num melodrama barato.

Dois cigarros mais tarde, a sala já fora do alcance do luar, ela se levantou. Tateou o chão com os pés por alguns segundos, Bonifácio ainda presente na rotina, o rabo sempre esquecido no caminho.

Acordou perto das nove, a tempo do programa de culinária na tevê. A duas semanas de completar sessenta e quatro anos, pensava oferecer um almoço às novas amigas de van, todas muito gentis, descontado o excesso de luriosidade.

O doce, com manteiga suficiente para entupir dez coronárias, foi descartado já na lista de ingredientes.

Jurando não fumar de jeito nenhum pela manhã, ouviu, da área de serviço, o tema musical do programa infantil e a voz esganiçada aos berros de “vou pegar você, Emília”.

Voltou para a sala num pulo, o lençol recém-tirado da cama pendurado no ombro. Na tela, a boneca de retalhos corria ao redor de uma mesa, tonteando a negra gorda e lenta.

Ela desligou a televisão, se jogou na poltrona, acendeu um cigarro.

Talvez não fosse uma boa idéia o tal almoço. Talvez devesse até voltar a dirigir.

Já havia inventado histórias antes. Um namorado piloto metido em vôos ininterruptos. Um amante casado cheio de culpas. Não por vontade de fantasia ou para chamar atenção. Muito ao contrário. Queria se misturar, evitar olhares penalizados, comentários.

E agora isto. Algumas saídas na van mais ou menos com as mesmas pessoas, mulheres bastante passadas dos sessenta, filhos, netos e bisnetos. Ela com o nariz grudado na rua, nada a ver com a conversa fofinha, esperando as inevitáveis perguntas, revolvendo as respostas: “não, não tenho filhos, nem marido, nunca me casei, e daí?” Mas a velha curiosa puxou-lhe a manga e perguntou direto “e você, quantos filhos tem?” e ela respondeu no susto “uma”, vai se saber por quê. “E como ela se chama?” “Emília”.

Pronto. Lá estava ela, mãe de uma boneca de pano, como uma menina de cinco anos. E a mulher em idade confortável, livre das obrigações do futuro, via-se, de repente, obrigada a adotar um passado e criar uma filha, tudo em exatas oito horas. Às seis a van passaria lá embaixo, carregada de laquê, em direção à sala de concerto.

Sinfonia Inacabada de Schubert parecia trilha sonora adequada.

Atrasada. Foi o tempo de se vestir e calçar um sapato.

Sorte ter passado o redingote em linho verde-água, antes de sair para o cardiologista.

Quarenta minutos de espera, além do trânsito.

Durante todo o dia inventou mortes e vidas para Emília. Pensou em fazê-la médica. Em morrê-la na infância. Não. As amigas desculpassem, entendera mal a pergunta, não tinha filha nenhuma.

É. Uma pena. Fazer o quê?

Havia um assento guardado no fundo da van. Ela o alcançou, agradeceu, enfiou a cara no vidro. Mas não se surpreendeu com o puxãozinho na manga do vestido, nem meio segundo depois. “Você chegou bem na sua vez.” “De quê?” perguntou sem vontade de ouvir a resposta. “De contar como conheceu seu marido.”

Ela gemeu alto. “Você está passando mal?” “Não, tudo bem, acho que dei um jeito aqui, no pescoço.” A outra comprimiu ligeiramente o lugar apontado. “E então, melhorou?” “Melhorou, obrigada.” “Que bom. Vai, conta logo, antes que a gente chegue.” “Contar o quê?” “Como vocês se conheceram, já esqueceu?”

Não, não havia esquecido. Só não se lembrava de ter conhecido alguém.

Brilhando na penumbra, vários pares de olhos a encontraram. Ela respirou fundo, se encolheu no banco. E começou a falar.

“Foi puro acaso. Era um sábado chuvoso de julho, fazia muito frio, eu fui à farmácia comprar um remédio para minha mãe. Ele estava sentado num degrau ao lado, em frente a uma loja fechada, sob a marquise, mesmo assim encharcado e tremendo de frio. Simplesmente me seguiu, eu acabei me apegando. Vivemos grudados, desde aquela manhã até a morte dele, há quase um ano.”

Quando a van parou, a senhorinha indiscreta secava os olhos num lencinho bordado. As outras se demoraram um pouco e desceram em silêncio, dando-lhe tapinhas no ombro. Ela foi a última a sair, de novo remoendo uma culpa por algo que, afinal, não havia provocado.

Durante a sinfonia, tudo se tornou ainda mais melancólico. Era uma falta de jeito misturada a um raio de compreensão, embora já não fizesse diferença alguma e já nem houvesse tempo.

Leave a Reply