EDITORIAL- o Capital e a Capital

logo editorialPassou há dias o aniversário da primeira edição de O Capital, de Karl Marx. O termo tem diversos sentidos e destacamos dois deles – dois substantivos com géneros diferentes – o capital, acepção do foro da economia; a capital, na área da geopolítica. Dois livros, celebram cada uma das acepções – «O Capital», de Karl Marx, e «A Capital», do nosso Eça. Como adjectivo tem também a sua importância, sobretudo para quem é punido com a pena capital.

Eça abordou o tema que viria, depois, a dar lugar à sua obra-prima «Os Maias – Relata as vicissitudes de um provinciano numa capital, também ela provinciana. Porque no final do século XIX, mais ainda do que agora, a capital era um espelho do País. Cada país tinha e tem a capital que merece.

Lisboa foi uma importante cidade na época dos Descobrimentos, – não se utilizava ainda, nos séculos XV e XVI, o termo «capital».  Lisboa começou, como maior cidade do País, a concentrar as funções de «cabeça do Império», pois ali se concentravam todos os órgãos gestionários quer das frotas que demandavam os mares, execução de mapas, armazenamento das mercadorias que saíam e entravam …Como diz Oliveira Marques, no 1º volume da sua «História de Portugal», terá sido «o desenvolvimento de Lisboa que caracterizou demograficamente o fim da Idade Média em Portugal». Era quatro a cinco vezes maior do que qualquer das outras cidades portuguesas.

 Corte, parece ter sido o termo que designava o local onde se concentravam os órgãos do  poder.

As razões por que Lisboa é a capital do País são históricas, têm a ver com o desenvolvimento de uma cultura a que hoje chamaríamos tecnocrática. Países houve que preferiram instalar as suas capitais em cidades pequenas e sossegadas – caso da Holanda, cuja capital Haia é, no dizer dos holandeses, a maior aldeia do mundo. Mas mesmo aí, Amesterdão é o verdadeiro centro da economia e da política holandesas. Foi inevitável que a concentração em Lisboa de serviços, indústria, sedes de empresas, tenha gerado  assimetrias que se têm vindo a acentuar ao longo do tempo. Mas o discurso  anti-centralista é ridículo – Lisboa não é Madrid, O Porto não é Barcelona, coração de uma nação oprimida –  Se o «centro» passasse a ser no Porto ou noutra cidade, tudo ficaria na mesma se não mudassem as políticas e, sobretudo, os políticos. Isto só não vê quem não quer, quem fica cego com o bairrismo e futeboliza a vida nacional.

É uma posição que não conduz a nada. Já estamos divididos em classes sociais; as lutas corporativas afectam muitas vezes o que deveria ser a solidariedade social. Se também nos dividimos em facções regionais, melhor nos governarão os capatazes. Não os da capital, embora possam lá viver, mas os do capital – alcoviteiros e criados de banqueiros e grupos multinacionais.

A porta de acesso poderá ser o regionalismo que, sobretudo a Norte, entristece e enfurece grande parte das pessoas. Têm toda a razão para protestar e para se sentir prejudicados. Parecem-me é estar a ser engenhosamente enganados quanto ao criminoso. Lisboa é a suspeita do costume. Não será que neste crime o assassino é mesmo o mordomo? O mordomo dos senhores, portugueses e estrangeiros, que manipulam o poder’?

Para terem razão de queixa do poder central, os portuenses não precisam de recorrer a falácias nem de acusar compatriotas seus de serem causadores dos seus problemas. Em Lisboa as condições de vida são igualmente muito más e a culpa, obviamente, é de quem governa e não coloca um freio à exploração dos grandes grupos económicos. Porque há aforismos tontos. Esse de que «Braga reza, o Porto trabalha, Coimbra estuda e Lisboa diverte-se», tão do agrado do Salazar, é de uma perfeita estupidez e aflige ouvir nortenhos inteligentes e esclarecidos a debitar tal coisa. Na área metropolitana de Lisboa, muitas centenas de milhares de pessoas trabalham no duro e têm uma qualidade de vida das piores do país.

E já que falámos em retorno do capital investido, os economistas  que nos digam se a região de Lisboa e Vale do Tejo não é responsável por uma fatia do PIB que ultrapassa em muito a proporcionalidade do seu peso demográfico? Será que isso é conseguido pelos tais do jet set?

A  pergunta que se faz é: o que ganham os lisboetas com a capitalidade?

1 Comment

  1. Hoje em dia não ganham nada, pelo contrário, a acumulação de instituições, repartições, departamentos, fundações e coisas bem mais feias só torna a vida lisboeta numa fonte de contratempos. O Rocio na Betesga tornou-se muito agradável ao outro Capital de que fala o texto.
    A minha proposta, quase tão velha como eu, é que a Capital seja construída noutra zona de Portugal para, assim, poder descongestionar-se Lisboa e, sobretudo – a melhor das consequências – conseguir dar-se ao interior do País uma possibilidade muito séria de desenvolvimento, o demográfico de sobremaneira. Há muito que digo onde deve edificar-se essa nova Capital mas, aqui e agora, não vou repeti-lo porquanto a Viagem dos Argonautas não deve, por minha causa, sujeitar-se a intempéries. CLV

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